entenda o racismo


Composição de Mestre Camisa.

Junto com os escravos vieram também alguns conceitos que precisamos discutir: intercâmbio x assimilação x apropriação cultural. Intercâmbio é uma troca de culturas saudável e sem hierarquias; normalmente acontece entre culturas que não tem relações de opressão e, portanto, não demonstram preconceitos entre elas. Assimilação é a violência extrema: a aniquilação total de uma cultura por outra por meio de substituição; comum entre culturas que apresentam níveis tecnológicos muito discrepantes, em que a cultura com tecnologia bélica mais potente submete e assimila a cultura de poderio bélico menos potente. A apropriação é uma opressão sutil, porém muito perigosa: ela se mostra por meio dos privilégios do corpo opressor sobre o corpo oprimido, reforçando o empoderamento do opressor e seu poder de escolha do opressor sobre a falta de escolha dos oprimidos. Em geral, acontece dentro da mesma cultura, entre grupos com diferentes posições sociais.

No nosso caso, estamos falando dos grupos diaspóricos africanos, aqueles grupos que foram arrancados de suas culturas originais e introduzidos numa cultura muito diferente, a européia, numa posição de total inferioridade social, submissão e opressão: a escravidão sócio-econômica. Um modelo de escravidão diferente do que esses grupos praticavam em suas culturas originais, em que pessoas capturadas em situação de guerra ou pessoas endividadas eram submetidas a trabalhos forçados como forma de punição; este modelo de escravidão foi praticado no mundo mundo antigo de maneira generalizada e não tinha relação direta com esta ou aquela etnia, mas sim com poderio militar.

A escravidão praticada pela Europa a partir do século XVI foi a base de um modelo econômico que sustentou este continente social e financeiramente até o final do século XIX e que, portanto, precisou de muitos mecanismos de legitimação para se manter viável. O principal mecanismo de legitimação foi o motivo religioso, que elegeu as pessoas de pele escura da África como “amaldiçoadas e sem alma”, a partir de um elemento mitológico judaico-cristão. Deste modo, justificou-se a submissão destas pessoas transformando-as em objetos e ferramentas de trabalho, destituindo-as de qualquer subjetividade e do direito a seus próprios corpos. Diferentemente da escravidão antiga (exceto talvez por Grécia e Roma), em que um sujeito tinha sua força de trabalho tomada por outro sujeito, mas se mantinha razoavelmente dono de seu corpo, neste modelo europeu moderno o sujeito era totalmente objetificado pelo outro, a ponto de seu corpo não mais lhe pertencer. Mais do que uma assimilação cultural, as pessoas negras africanas escravizadas sofreram um apagamento subjetivo. Elas deixaram de ser consideradas humanas.

Quando este modelo se tornou, por uma série de fatores, economicamente inviável e, finalmente, ruiu, as pessoas negras diaspóricas (não mais africanas, após gerações em solo colonial), tiveram que arcar com o fardo de se construírem financeiramente e de se reconstruírem culturalmente, uma vez que após 300 anos de assimilação cultural e apagamento subjetivo, já não sabiam mais quem eram, não pertenciam a nenhum grupo cultural “legitimado”. Conquistar um espaço social não é nada fácil, se considerarmos ainda que os outros grupos étnicos também participaram deste processo de apagamento, entendendo as pessoas negras como ferramentas. É nesse momento que a assimilação começa a se transformar em apropriação, que ainda se manifestam na forma de racismo: privilégio e legitimação estéticos e discursivos do corpo opressor.

Em meados do século XIX, a legitimação de base religiosa-mitológica perdeu a força e foi sendo substituída pela legitimação pseudo-científica. Junto com a Teoria da Evolução, de Charles Darwin e com o pensamento positivista da Europa imperialista, surgiram também os conceitos de Raça e Eugenia. Ainda sem ter noção de código genético (O DNA só foi descoberto em 1954), os cientistas positivistas elaboraram teorias, distorcidamente baseadas na de Drawin, de que a humanidade evolui de seres mais primitivos para menos primitivos, alcançando um ápice evolutivo representado pelos povos brancos europeus e cristãos (até as religiões foram classificadas assim: quanto mais animista, mais primitiva, sendo as mais evoluídas as monoteístas). Deste modo, estas teorias forneciam as legitimações perfeitas para a submissão dos não-brancos, estando os negros na base da pirâmide evolutiva. Assim, a assimilação cultural e o apagamento subjetivo passaram a ser exercidos como uma espécie de “caridade”, um “dever” que os brancos evoluídos tinham que cumprir para com seus infelizes servos inferiores. Surge a eugenia, um conceito de “melhoria” das “raças” a partir de cruzamentos forçados (estupros) de brancos sobre suas escravas não-brancas. Emerge, assim, o desespero dos não-brancos para “cruzar” com pessoas claras e ter filhos embranquecidos, pois estes teriam mais chances de alcançar melhores condições de vida e de “evoluírem”. Esse desespero reforça o apagamento subjetivo. Mesmo tendo a pele negra, essas pessoas procuravam se comportar e se vestir como as pessoas brancas, submetendo seus corpos e suas mentes a todo tipo de violência estética e discursiva, em busca de aceitação.


A Redenção de Cam, Modesto Brocos, 1895. | Tatiana H. P. Lotierzo e Lilia K. M. Schwarcz: Raça, gênero e projeto branqueador : “a redenção de Cam”, de Modesto Brocos.

A genética contemporânea desconstruiu completamente o conceito de Raça, não só para seres humanos, mas para todos os outros animais. Isso mesmo, seu cachorrinho não tem raça mais. Esse conceito hoje em dia só é usado por motivos de marketing e de preconceito. Esse conceito de “raça” simbólica, que remete a uma pseudo-ciência imperialista a serviço de um mecanismo de opressão é o que alimenta o Racismo.

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