A importância do briefing

O briefing é uma etapa importante do processo de modelagem de um curso que muitas vezes é subestimado no Design Educacional.

Em um briefing devem ser respondidas uma série de questões que orientarão a modelagem, é um momento de diálogo entre os designers e o contratante do serviço que deve ser usado para sanar dúvidas e construir em parceria o conceito do curso.

Não há um modelo único ou mesmo um padrão universal de briefing, cada equipe e/ou profissional deve montar o seu e mesmo este pode ser ajustado de acordo com cada projeto. Eu considero que algumas questões básicas devem ser respondidas:

PARA QUE: qual o desafio que o curso se propõe a atender?

Um curso que pretenda rapidamente fazer com que um grupo de pessoas aprenda e fixe um determinado conteúdo ou habilidade, fixando este saber, sem precisar elaborar além disso, é um curso de viés comportamentalista. Este pode ser o enfoque adequado para cursos que modelei como o que demandava que os técnicos de aeronaves soubessem quais eram os parafusos adequados a quais peças do avião. Um curso de procedimentos de preservação de alimentos também pode ser desse tipo. Os procedimentos devem ser compreendidos, bem como a importância de segui-los.

Um curso que objetive estimular a autonomia, a proatividade em busca de soluções e/ou trabalhar questões comportamentais, já se sintoniza mais com uma perspectiva construtivista. O aprendiz deve ter competências que vão além da memorização. Um curso de netiqueta para alunos de cursos online, ou o curso que modelei recentemente para comandantes de navios da Transpetro sobre gerenciamento de certificações, demandam recursos maiores de contextualização do saber e ações que estimulem o raciocínio e a iniciativa.

Esta é a pergunta na qual serão determinados os OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM do curso. Afinal, sem delimitar o desafio (ou problema) como será possível determinar os objetivos do curso? Sem os objetivos como poderemos depois verificar se o curso alcançou os objetivos desejados?

PARA QUEM: qual é o perfil dos aprendizes do curso?

Esta é uma questão fundamental para o sucesso do projeto. A didática só acontece se há aprendizagem e esta depende fundamentalmente do aprendiz. O perfil frequentemente é por demais simplificado: alunos do 8o ano do Ensino Fundamental (rede pública? rede particular? Classe C? Zona rural ou urbana? Qual cidade? Qual sua competência de leitura?); Jovens e adultos de 18 a 40 anos que visem aprimorar sua formação (escolaridade? facilidade com tecnologia? estão aprimorando sua formação por gosto ou necessidade profissional? há dificuldades específicas para cada faixa etária?); Todos os interessados (???????????????????)

Conhecer o perfil dos aprendizes é crucial para se escolher a composição de linguagens a serem usadas no curso (visual; verbal; musical), o repertório que possuem (referências culturais; educação formal etc.), o tom dessas linguagens (coloquial; formal; técnico), sua facilidade com tecnologia (nativo ou imigrante digital), acesso à tecnologia (tem banda larga em casa ou somente no pólo), dentre outros fatores. Se o curso tem aprendizes com perfis diferentes, isso deve ser considerado.

Por exemplo, a maior parte dos jovens contemporâneos tem apresentado em pesquisa preferência por linguagem visual, tendo dificuldades com linguagem verbal. Um curso para esse segmento deve considerar o uso de imagens como ilustrações, diagramas para não somente trazer um dinamismo de leitura como também para facilitar a absorção de conceitos. Se o curso tem uma versão online o uso de animações deve ser equilibrado com a percepção de qual será a velocidade de conexão dos aprendizes.

COMO:  quais recursos serão utilizados para resolver o desafio?

Esta pergunta demanda saber quais são os recursos disponíveis e se liga intrinsecamente à pergunta anterior,QUEM. É preciso saber que recursos estão disponíveis em termos financeiros, de tempo, suporte (impresso; web; plástico etc.) .

O passo seguinte é rever os objetivos de aprendizagem do curso. Por exemplo, um texto (verbal, verbo-visual etc) seguido de perguntas de autoavaliação com gabarito para sanar dúvidas é um enfoque comportamentalista. Adequado para cursos com esse enfoque. Contudo, se o objetivo é construtivisa, visando o desenvolvimento de competências, essa estrutura não é suficiente. Senão, estaremos propondo uma didática que se opõe aos objetivos especificados.

No caso do curso construtivista da Transpetro nós dispunhamos de um LMS Moodle online, aulas presenciais e atividades a distância. O contexto da empresa é bem formal. Por isso, o tom do material na web é mais formal, tornando-se mais leve em alguns pontos, mas jamais coloquial. Nos momentos presenciais foram propostas dinâmicas e jogos justamente para estimular cratividade, senso crítico e autonomia diante dos conteúdos apresentados. Uma proposta de ir além da memorização trazendo a proatividade.

O importante é a coerência entre o que se quer fazer (para que) o perfil dos aprendizes (quem) de forma que os recursos e atividades empregados (como) estejam adequados aos objetivos de aprendizagem que visam atender ao desafio proposto.

Diversas perguntas podem se desdobrar dessas questões principais tais como detalhamento dos recursos: número de horas do curso; detalhamento sobre os suportes a serem empregados (impresso; digital; plástico etc.); cronograma; verba disponível; outros cursos já presentes no portfólio do demandante; valores éticos da organização demandante etc.

Uma primeira versão do briefing devem ser levada ao demandante para sua aprovação. Essa primeira versão deve conter um sumário executivo com uma breve apresentação do curso (desafio; objetivos; aprendizes; recursos a serem empregados) para rápida leitura. Um breve resumo do projeto com suas etapas e o cronograma para cada uma deve ser apresentado para que o demandante compreenda a complexidade e rigor necessários a um projeto de design educacional. Essa é uma forma de reforçar a parceria e demonstrar o cuidado e planejamento envolvidos com projetos de design educacional. Também é uma forma de conseguir a adesão de todos ao projeto.

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