PEH – Projeto

Introdução
O meu interesse se volta para a práxis, o momento em que teoria e prática se unem para fazer uma diferença para alguém na realidade. Um dos meus princípios de ação é: Construtivismo demanda ação construtivista.
Esse princípio se origina de duas preocupações:
•    Construtivismo não pode se limitar a uma carta de intenções alicerçada em princípios enunciados e jamais aplicados e/ou em relatos de professores idealistas e alunos de olhinhos brilhantes e felizes.
•    Construtivismo não pode ser um princípio inovador traído por uma prática retrógada. Como é possível obter uma ação construtivista valendo-se somente de aulas expositivas conteudistas e avaliações classificatórias?

Para tornar o construtivismo uma ação real é preciso explorar mais do que  “o que” e “ porque” e entrar na seara do “como”. Meu caminhar se faz por projeto dentro da já explicada perspectiva do Design Educacional Humanista. Neste texto pretendo conversar sobre a parte projetual.

Projeto
Para se entender o que seria um “método projetual” é interessante estudar as definições de “método” e “projeto”. Comecemos por método a partir dos autores Antônio Carlos Gil, Mirian Goldenberg, Hilton Japiassú e Danilo Marcondes: “pode-se definir método como caminho para se chegar a determinado fim.” (Gil, 1999: 26); [Do grego méthodos = “caminho para chegar a um fim”.] (Goldenberg, 1997:104); “método: conjunto de procedimentos racionais, baseados em regras, que visam atingir um objetivo determinado.” (Japiassú, Marcondes, 1996: 181)
Projeto, por sua vez, tem as seguintes definições:
Segundo o Dicionário Michaellis
pro.je.to
sm (lat projectu) 1 Plano para a realização de um ato; desígnio, intenção. 2 Cometimento, empreendimento, empresa.
Segundo o dicionário Aurélio
Significado de Projeto
s.m. O que se tem a intenção de fazer; desígnio; intento; plano de realizar qualquer coisa. / Estudo, com desenho e descrição, de uma construção a ser realizada. /

Podemos então compreender “método projetual” como um percurso para se alcançar um determinado objetivo por meio de um conjunto de procedimentos. Ou seja, “como” (método) se pode alcançar determinado “fim” (projeto)> Portanto, um projeto deve trazer as especificações do que se pretende realizar, como e por que.

Fim, Começo e Meio
Se pelo método projetual buscamos alcançar um ou mais objetivos para começarmos o trabalho é fundamental determinarmos onde queremos chegar e qual é o nosso ponto de partida. Em termos de design educacional é preciso primeiro definir muito bem qual é o problema de aprendizagem para que se possa projetar a solução de aprendizagem adequada. Isso começa pela definição dos objetivos do projeto.

Os objetivos do projeto contemplam objetivos de aprendizagem como o domínio de habilidades, a compreensão de conceitos, o desenvolvimento de atitudes, dentre outros. Além desses, pode incluir objetivos que não são propriamente de aprendizagem como “desenvolver uma relação afetiva com a escola e/ou com o educador”, “atrair o interesse dos estudantes pelo tema” etc.

A elaboração de um projeto demanda definir quais são os resultados esperados da solução de aprendizagem. O educador sabe que dificilmente os resultados obtidos corresponderão exatamente aos resultados esperados. Variações são normais. A definição dos objetivos de projeto é fundamental para definir quais resultados obtidos são aceitáveis e quais não são. Qual é a margem de confiança do projeto.
Resultados_Desejados

Esse ponto nos leva à avaliação e ao seu verdadeiro propósito: contribuir para o processo de ensino aprendizagem.

Avaliação
Existe um adágio em administração: o que você não avalia você não controla e o que você não controla você não administra. A avaliação tem o propósito de verificar se o que foi planejado está de fato ocorrendo e tomar as devidas correções que porventura se fizerem necessárias.
Uma figura que pode ser útil é a de “percurso de aprendizagem” em analogia com o de “percurso de viagem”. Quando se deseja ir do ponto A ao ponto B, por exemplo, da cidade do Rio de Janeiro à cidade de São Paulo, diferentes percursos podem ser traçados de acordo com o perfil do público viajante, dos recursos disponíveis e dos objetivos da viagem.
Ir de avião demanda recursos financeiros, que o público não tenha medo de voar, e que os objetivos de viagem não incluam uma apreciação da paisagem próxima ao chão ao longo do caminho como cidades e comércio pela estrada, condições da estrada em si, percepção dos efeitos climáticos sobre a vegetação da área ao longo da estrada etc. Em uma viagem são precisas verificações como: pegou a estrada certa? Vamos chegar no horário? Está tirando fotos para mostrar como a vegetação está seca? Anotou a população desta cidade? Se as avaliações indicarem que o planejado não está ocorrendo é preciso tomar medidas corretivas: a gente errou o caminho, pegue o próximo retorno e siga pela estrada X; estamos atrasados, é melhor pular a próxima parada e ir direto ou estamos com tempo, vamos aproveitar e dar uma olhada naquele restaurante; Ninguém tirou foto alguma – vamos dar uma parada para isso.

Celso Vasconcellos alerta que um modelo de avaliação classificatória (bons alunos X maus alunos) reprovadora faz com que os estudantes mudem sua postura de uma estratégia de aprendizagem para uma estratégia de sobrevivência em que a meta vai de “passar de ano” a “conseguir uma boa nota”. Diante de estratégias de ensino instrucionista/conteudista os estudantes normalmente memorizam conteúdos para a prova esquecendo-os pouco tempo depois. Esse adestramento é encontrado em alunos de graduação e até de pós-graduação condicionados a agir assim. Condicionamento que deve ser muito eficaz diante do atual modelo escolar visto que, como dito, estudantes que o usam passam com aprovação pelo Ensino Fundamental e Médio e até pela graduação.
Considerando-se esse condicionamento ao qual o próprio educador pode ter sido submetido é importante “reprogramar-se” para entender a avaliação como contribuinte para o processo de aprendizagem trazendo subsídios tanto para docente como estudante. Por esta perspectiva a avaliação pode se tornar motivadora para o estudante para seu progresso assumindo então um propósito libertador.
É fundamental perceber que “não reprovar” ou “não aplicar prova” não significa “não avaliar”, uma vez que os objetivos fundamentais de uma estratégia de ensino-aprendizagem são que os estudantes “aprendam” e não que passem ou não de ano. Por isso é importante que a avaliação seja coerente com os objetivos do projeto. Se este tem como objetivos de aprendizagem desenvolver o raciocínio crítico e a criatividade não faz muito sentido aplicar como avaliação uma prova de múltipla escolha para verificar a memorização de conteúdos. Não apenas tal postura é inconsistente como passa o sinal errado para estudantes condicionados a pensar em “como passar de ano”.
Assumida a nova intenção para a avaliação dentro de uma estratégia de aprendizagem o educador pode então buscar o “como avaliar” avaliando táticas como: estudo de caso; projeto de trabalho; mapa conceitual; observação participante; entrevista semi-estruturada; produção textual; dentre outras.

Uma vez definido o ponto de chegada é preciso conhecer o ponto de partida. Ninguém pode planejar ir a algum lugar sem saber de onde vai partir. É preciso conhecer os estudantes e os recursos disponíveis.
A avaliação diagnóstica ou análise diagnóstica ou avaliação preliminar ou qualquer o nome que seja o nome usado é um recurso para se conhecer a situação dos estudantes em relação aos objetivos do projeto. É importante que essa avaliação seja consistente com os objetivos visados. Uma prova de múltipla escolha pode apontar a memorização correta ou não de conceitos, uma redação pode permitir perceber o nível de raciocínio crítico – o mesmo pode ser alcançado por meio de entrevistas ou uma dinâmica em sala. Observação participante também é um método interessante para determinar questões atitudinais e/ou de valores. É fundamental perceber que “avaliação” não significa “prova” e sim “obtenção de dados para estratégias de ensino-aprendizagem”.  Dentro dessa perspectiva, essa avaliação inicial pode incluir a obtenção de dados sobre os interesses e repertório cultural dos estudantes os quais poderão ser vitais para se elaborar uma estratégia para motivá-los para a aprendizagem relacionando os objetivos do projeto com a vivência deles.

Estabelecidos os objetivos de projeto e os resultados aceitáveis, bem como a situação inicial dos estudantes em relação a esses objetivos e seus interesses falta verificar os recursos disponíveis: tempo (número de aulas e o tempo de cada aula); local (sala de aula, laboratório de informática, quadra, museu etc.); material de desenho; datashow; excursões etc.
De posse dessas informações pode-se planejar as situações didáticas que comporão a solução de aprendizagem para o problema de aprendizagem identificado. Este será o assunto do próximo post.

REFERÊNCIAS
ALVES, Flora. Gamification: como criar experiências de aprendizagem engajadoras: um guia completo do conceito à prática. São Paulo: DVS Eeditora, 2014.
BETTOCCHI, Eliane; KLIMICK, Carlos. REZENDE, Rian. INCORPOREAL PROJECT: STIMULATING THE CONSTRUCTION OF COMPETENCIES AND KNOWLEDGE BY CO-CREATING RPG NARRATIVES AND THEIR SUPPORTS. Role-Playing in Games Seminar. University of Tampere, FINLAND. 2012.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
VASCONCELLOS, Celso. A avaliação: limites e possibilidades. Disponível em:http://www.edicoessm.com.br/sm_resources_center/somos_mestres/formacao-reflexao/avaliacao-limites-e-possibilidades.pdf, capturado em 18/06/2015
HOFFMAN, Jussara. Avaliação Mediadora é desafio para aprendizagem. Disponível em: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2014/05/21/avaliacao-mediadora-e-desafio-para-aprendizagem, capturado em 18/06/2015
___________________ . Avaliação Mediadora; Uma Pratica da Construção da Pré-escola a Universidade. 17.ª ed. Porto Alegre: Mediação, 2000.

 

Deixe um comentário

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.