PEH – Situações Didáticas

O primeiro passo ao discorrermos sobre situações didáticas é deixar claro o que estamos entendendo por “didática”. Vejamos algumas definições:

A Didática é a reflexão sistemática e a busca de alternativas para os problemas da prática pedagógica (Candau, 2007). Em síntese, busca efetivar na prática as propostas do projeto pedagógico, tendo como objeto de estudo o processo de ensino-aprendizagem. Por isso, toda proposta didática está implícita ou explicitamente impregnada de uma concepção do processo de ensino-aprendizagem.
A Didática se caracteriza como “mediadora entre as bases técnico-científicas da educação e a prática docente, operando como uma ponte entre o “quê” e o “como” do processo pedagógico, desde que articulada ao “para que fazer” e ao “por que fazer”.” (Coutinho, 2003:20).

A ação didática se exerce em uma situação voltada para o diálogo ensino/aprendizagem: a situação didática.

O conceito de situação didática (SD) emergiu da educação matemática tendo como sua principal referência o educador francês Guy Brousseau. Segundo o autor
Uma “situação” é um modelo de interação de um sujeito com um meio determinado. O recurso de que esse sujeito dispõe para alcançar ou conservar um estado favorável nesse meio é um leque de decisões que dependendo emprego de um conhecimento preciso. Consideramos o meio como subsistema autônomo, antagônico ao sujeito. Assim, ao tomarmos como objeto de estudo as circunstâncias que regem a difusão e a aquisição de conhecimentos vamos nos interessar pelas situações. (Brousseau, 2008:21)

Brousseau também define as situações didáticas como sendo o “conjunto de relações estabelecidas explícita ou implicitamente entre um aluno ou grupo de alunos e o professor para que estes adquiram um saber constituído ou em constituição” (Brousseau, 1996 apud Coutinho 2004). Ele estabelece que as situações devem estimular os alunos a mobilizarem o conhecimento correspondente para responder ao desafio por elas estipulado. Um jogo, por exemplo, pode levar o estudante a usar o que já sabe para criar uma estratégia adequada.

O que define uma situação didática é seu caráter intencional, o fato de já haver sido construída com o propósito explícito de garantir a aprendizagem. As situações didáticas projetadas obedecem a determinadas características em função da teoria de aprendizagem adotada para sua elaboração. Sendo assim, uma situação didática elaborada dentro de fundamentos construtivistas deve:
⇒ trazer autonomia para os alunos, tornando-os responsáveis por se organizarem e tomar decisões para resolver o problema proposto;
⇒ estimular a organização e trabalho de equipe demandando que os alunos organizem suas atividades para obter um resultado que foi explicitado previamente ou que eles mesmos possam identificar;
⇒ ter flexibilidade para estimular a criatividade e inovação de forma que os estudantes possam recorrer a diferentes estratégias para resolver o problema que foi formulado;
⇒ permitir que os alunos estabeleçam diferentes relações sociais – trocas de informações, debates, negociações – com outros estudantes ou o/a professor/a.

Também é importante que a situação didática preveja a aplicação dos conhecimentos em situações adidáticas, ou seja, na vida cotidiana, de modo que sua prática se consolide e se institucionalize.
Em síntese: os alunos serão os agentes da situação didática que usará um ou mais materiais didáticos em sua configuração e dinâmica. Durante a situação didática os alunos mobilizarão competências e conhecimentos para responder a seus desafios, construindo outros conhecimentos e competências. A produção deles será usufruída pelos usuários dela, que podem ser os próprios agentes. Em seguida, os conhecimentos e competências construídos devem ser consolidados ao serem aplicados em situações adidáticas. Se a experiência for bem sucedida, ela pode ser registrada no acervo da instituição educacional sendo institucionalizada para outros usos.

Situação_Didática_Componentes_Dinamica

Atualmente tem crescido o interesse por situações didáticas que busquem o desenvolvimento de competências por parte dos aprendizes. A chamada “pedagogia por competências”.
O termo “competência” tem várias definições nos estudos sobre sua aplicação educacional. Para não nos atermos demais na questão semântica, vamos analisar as definições de duas fontes consagradas, sendo uma institucional e a outra de um renomado pesquisador do tema. Inicialmente, destacamos o que diz o Parecer nº. 16, de 1999, elaborados pelo Conselho Nacional de Educação (CNE/CEB Parecer nº. 16/99, PCNb, 1999, p.23):

A competência não se limita ao conhecer, mas vai além porque envolve o agir numa situação determinada: não é apenas saber, mas saber fazer. Para agir competentemente é preciso acertar no julgamento da pertinência, ou seja, posicionar-se diante da situação com autonomia para produzir o curso de ação mais eficaz. A competência inclui o decidir e agir em situações imprevistas, o que significa intuir, pressentir arriscar com base na experiência anterior e no conhecimento.
Ser competente é ser capaz de mobilizar conhecimentos, informações e até mesmo hábitos, para aplicá-los, com capacidade de julgamento, em situações reais e concretas, individualmente e com sua equipe de trabalho.

O professor e pesquisador Perrenoud (1999) afirma que competências são operações mentais que articulam, mobilizam habilidades e um ou mais tipos de saberes, de acordo com o comportamento e atitude da pessoa para solucionar uma dada situação.
Pode-se dizer que uma competência é a mobilização de conhecimentos e habilidades que a pessoa possui para desenvolver respostas inéditas, criativas, eficazes para problemas novos, ou seja, a capacidade de encontrar recursos, no momento e na forma adequadas, para que se possa enfrentar uma determinada situação. Competências então mobilizam o que fazer, como fazer e o porquê fazer, envolvendo conhecimentos, habilidades, valores e atitudes.

Eu creio que a situação didática normalmente é caracterizada por uma relação triádica entre educador, aprendiz e o material didático (fala como material oral; datashow; livro didático; vídeo; papel e lápis etc). Por relação triádica eu quero dizer que não apenas os três componentes são vitais como a relação criada entre eles também o é. Dependendo da dinâmica da relação teremos uma situação didática de viés comportamentalista ou construtivista.
Relacao_Triadica_SDEssa situação pode ser considerada triádica mesmo que seja a distância e sem uma interação direta entre o aprendiz e o educador, pois este a projetou e sua ação se faz sentir, ou deve se fazer sentir, no projeto.

Uma situação que tenha sido projetada com fins de gerar uma aprendizagem é uma situação didática. Ela deve ser configurada conforme os objetivos de aprendizagem estabelecidos pelo educador. Um material didático, seja ele um livro-texto ou um vídeo ou uma página HTML, pode ser um objeto educacional ou ser composto por um ou mais objetos educacionais. Um objeto educacional, por sua vez, pode ser um objeto de conteúdo ou didático.

Um objeto de conteúdo (OC) contém apenas um atributo, “Conteúdo”, que pode ser qualquer dos tipos usuais para representar conteúdo, do texto escrito até outras mídias como vídeos ou animações. Basicamente, um conteúdo é apresentado, seja um conceito ou uma série de procedimentos.
Um objeto didático (OD) possui um ou mais atributos de didática, que capturam indicações didáticas para os aprendizes em um dado estilo de atividade. Basicamente apresenta como trabalhar didaticamente o conteúdo como debate em sala sobre o material apresentado, responder a um questionário, fazer um projeto a partir do conteúdo etc.
Dependendo da forma com que o professor encapsula o objeto de conteúdo na situação didática ele estará trabalhando de forma comportamentalista/conteudista ou construtivista.
O ponto é que objetos de conteúdo per se não garantem necessariamente a aprendizagem. Mostrar um vídeo sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808 não garante a aprendizagem. Este objeto de conteúdo/vídeo pode ser trabalhado agregando-se diferentes objetos didáticos (ou ações didáticas) para compor a situação didática: resumo das principais ideias por escrito; ou debate + anotações + pesquisa; ou debate + dinâmica teatral; etc.

A aprendizagem depende de motivação por parte dos aprendizes para que ela seja alcançada. Dentre as diversas estratégias que podem ser empregadas está o uso de jogos para fins educacionais que será o tema do próximo post.

Referências

AUDINO, Daniel Fagundes. NASCIMENTO, Rosemy da Silva. Objetos de aprendizagem – diálogos entre conceitos e uma nova proposição aplicada à educação. Revista contemporânea de educação. Vol. 5 n.10. jul/dez. 2010. Disponível em http://www.educacao.ufrj.br/artigos/n10/objetos_de_aprendizagem.pdf, Acessado em 07/01/2014
COUTINHO, L, Web Didática: um modelo para auxílio na elaboração de cursos baseados na Web, Dissertação de mestrado, Programa de Pós-graduação do Instituto de Matemática, Núcleo de Computação Eletrônica, UFRJ, 2003.
IEEE. Learning Technology Standards Committee (LTSC). Draft Standard for Learning Object Metadata. 2000. Institute of Electrical and Electronics Engineers, Inc. LTSC. (2000). Learning technology standards committee website. Disponível em: <http://ltsc.ieee.org>. Acesso em: 15 de nov. de 2011.
MEC – Ministério da Educação. Objetos de Aprendizagem. Disponível em: http://webeduc.mec.gov.br/linuxeducacional/curso_le/modulo4.html, acesso em 31/12/2013
MOREIRA, M.A. Aprendizagem significativa: um conceito subjacente. Atualizado em 04/06/2013. Disponível em:  http://www.if.ufrgs.br/~moreira/apsigsubport.pdf, acesso em 02/01/2014.
NETTO, Dorgival Pereira da Silva. Objetos de Aprendizagem. Portal Educação. Disponível em: http://www.portaleducacao.com.br/Artigo/Imprimir/49207 Acesso em: 27/12/2013.
SARAIVA, Isaac Bezerra; NETTO, Cristiane Mendes. Monitor: um conjunto de objetos de aprendizagem para apoio ao ensino de programação de computadores. In: XXX Congresso da Sociedade Brasileira de
Computação. No XVIII Workshop sobre Educação em Computação. Belo Horizonte, 2010. Disponível em: <http://www.univale.br/central_informacao/anexos/1210/05052010012812_wei2010_submit_accepted.pdf>
SPINELLI, Walter. Aprendizagem Matemática em Contextos Significativos: Objetos Virtuais de Aprendizagem e Percursos Temáticos. 2005. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005.

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