Narrativas participativas para fins educacionais

As narrativas participativas

A relação entre contar uma história e ensinar vem sendo trabalhada há séculos. As fábulas de Esopo e de La Fontaine, os estudos sobre a Ilíada e a Odisséia para a formação de jovens na Grécia Clássica, o teatro jesuítico no Brasil Colonial, e mesmo a sabedoria popular presente nos contos de fadas e nos “causos” contados à noite evidenciam o que Aristóteles, na Poética, já propunha: que uma das causas da poesia é o prazer que o ser humano tem em imitar e sua capacidade de aprender imitando. De fato, há uma associação prazerosa entre o “imitar a ação” da poética e o aprender. Eis o motivo por que se fundamentou este trabalho na tradição milenar que associa a narratividade com o aprendizado – pelo prazer que proporciona e pela sua capacidade de simulação, de uma mimese criativa.
Por isso, pode ser muito interessante trabalhar conceitos e competências com os alunos por meio de narrativas participativas, dentre as quais se incluem as aventuras-solo, Role Playing Games (RPG) e Alternate Reality Game (ARG). Nessas histórias, os participantes têm a possibilidade de interagir com a trama, alterando-a por meio das ações de personagens controladas por eles.
Muniz Sodré, professor do Depto. de Comunicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro, define narrativa como um “discurso capaz de evocar, através da sucessão temporal e encadeada de fatos, um mundo dado como real ou imaginário, situado num tempo e num espaço determinados.(…) Como uma imagem, a narrativa põe diante de nossos olhos, nos apresenta, um mundo.” (Sodré, 1988) [grifos do autor].
Janet Murray, diretora do Programa de Desenho e Tecnologia da Informação do Instituto de Tecnologia da Geórgia, EUA, postula que as controvérsias sobre conteúdo e formato de videogames se devem a dois fatores: o poder da narrativa e a experiência singular das narrativas participativas. Para a autora, “A narrativa é um de nossos mecanismos cognitivos primários para a compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidades, desde a tribo agrupada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante do aparelho de televisão” (MURRAY, 2003:9) Por meio dessas histórias, pois, compartilham-se valores, tradições, cultura; por intermédio delas, enfim, nós nos compreendemos.
Histórias nos inspiram a ir além, nos dão forças para viver e por elas muitas vezes somos capazes de morrer. Não bastasse todo o poder da narrativa, as histórias vivenciadas de forma participativa nos envolvem de uma maneira diferente daquelas às quais assistimos ou as quais ouvimos. Na verdade, fazemos mais que observar e interpretar os eventos; nessas histórias, nós os causamos. Essas histórias se tornam nossas, nós as fizemos. “Quando o autor expande a história para incluir nela múltiplas possibilidades, o leitor adquire um papel mais ativo. As histórias contemporâneas, nas culturas avançadas ou não, constantemente chamam nossa atenção para a figura do contador de histórias e convidam-nos a opinar sobre suas escolhas. Isso pode ser perturbador para o leitor, mas também pode ser interpretado como um convite para participar do processo criativo.” (Murray, 2003:50)

Em um projeto no qual estou trabalhando “Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF)”, optamos pelo trabalho com aventuras-solo para o 5o e 6o anos do Fundamental.

Em sala de aula, as aventuras-solo podem ser utilizadas para trabalhar diversos temas. No projeto se trabalhou a educação financeira, entrelaçando ao tema da ciência e tecnologia. Para um projeto interdisciplinar, outras metas podem ser escolhidas tais como familiarizar os alunos com conceitos de Física, de História, de Geografia, de gêneros discursivos, de ética e de relações de causa e efeito. O texto pode ser lido individualmente ou em grupo. Em seguida, podem-se propor debates entre as opções apresentadas na aventura-solo.
Sugerimos ao professor propor aos alunos que criem, pelo menos, mais uma alternativa diferente de desfecho para a história. Podem-se entrelaçar diferentes linguagens, solicitando que os alunos estabeleçam relações entre o texto verbal escrito fornecido e outros recursos, verbais e não-verbais, como ilustrações, músicas, notícias de jornal. Depois, pode-se escolher outro gênero textual – por exemplo, um conto –, e solicitar que os alunos o adaptem para o formato de aventura-solo. Dessa forma, o leitor terá a oportunidade de vivenciar uma participação mais evidente na narrativa – com autoria – , enquanto é apresentado ao universo de saber proposto pelo professor.

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