Chamado

O ano de 2016 será muito difícil. Não somente por causa dos problemas econômicos, ambientais e de corrupção. Mas, por uma questão, eu creio, de reposicionamento. Vejamos uma lição da História:
1710, a cidade do Rio de Janeiro é invadida pelo pirata François Du Clerck que chega com 3 navios de guerra e 1 de comboio e ataca com 1000 soldados achando que vai ser fácil. Ele tenta invadir a Baía de Guanabara e falha. Depois é escorraçado em Angra dos Reis e Paraty pela valentia dos locais que usam de boa estratégia. Resolve atacar por terra e chega ao Rio de Janeiro. O governador Francisco de Castro Morais, segundo o autor Jean Marcel Carvalho, é incompetente, não fez os preparativos devidos e durante o ataque francês as tropas oficiais nunca estando onde deviam estar. Ele chega a pensar em se render quando é informado que Du Clerck estava derrotado e encurralado em um trapiche. Derrotado por escravos, engenheiros e estudantes. Pessoas do povo e da classe média. Du Clerck é preso. Mas, as reformas devidas não são feitas e um ano depois Renée Duguays Troyen em uma expedição bem planejada e com 5000 soldados toma o Rio de Janeiro. Daria para resistir, mas o governador incompetente continuava lá.
Hoje, temos um governo federal que se mostra incapaz de resolver os problemas econômicos e ambientais do país bem como o de corrupção. PT e PSDB se mostram até agora incapazes de governar a altura dos desafios presentes. Cabe a nós decidir o que vamos fazer. Vamos ficar nos recriminando em picuinhas ” você votou na Dilma, a culpa é sua”, “O Aécio é pior. O Alcmin também está se saindo mal”, como o governador Francisco Castro de Morais e os políticos da coroa portuguesa, ou vamos nos unir para tentar resolver o problema como as pessoas que trezentos anos atrás derrotaram Du Clerc? Vamos debater, trocar análises, propor soluções, reconhecer que pessoas inteligentes e com as mesmas informações podem ter opiniões diferentes, mas ainda assim, também podem buscar um comum acordo. Dessa forma, cada um ao seu alcance poderá se esforçar para criar um país melhor. Propor ideias e soluções para quem for possível: governo federal; governo estadual; governo municipal; empresa privada; ONG; para sua atuação como autônomo. O que for. Eu proponho um chamado à grandeza de cada um de nós em resposta à mesquinharia e pequenez que vejo como vigentes. A saída para o Brasil para mim não é o Galeão, ela está dentro de cada um de nós.
Fonte dos dados históricos:
http://laurentinogomes.com.br/blog/2014/11/sugestao-de-leitura-piratas-no-brasil-de-jean-marcel-carvalho-franca-e-sheila-hue/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Fran%C3%A7ois_Duclerc

Projeto Educacional Humanista (PEH)

Introdução

Eu considero Projeto Educacional como sendo a área em que os saberes projetuais são voltados para a educação. O termo “Design Instrucional” não me parece interessante pela conotação “instrucionista” ou “conteudista” a que ele induz e porque “instrucional”, que vem de “instructional” de “Instructional Design”, me parece seria melhor traduzido como “didático” e “design” em inglês pode ser traduzido como “projeto”.
Este artigo é um esboço sobre como o método que uso para projetar material e situações didáticas pode ser aplicado por educadores na elaboração de recursos didáticos como “plano de aula”, “plano de ensino”, “material didático”, dentre outros.

Projeto Educacional Humanista
Andréa Filatro propõe “design é o resultado de um processo ou atividade (um produto), em termos de forma e funcionalidade, com propósitos e intenções claramente definidos, enquanto instrução é a atividade de ensino que se utiliza da comunicação para facilitar a aprendizagem” (FILATRO, 2008:4, grifos da autora) chegando então a uma definição para design instrucional que atende seus propósitos: “definimos design instrucional como o processo (conjunto de atividades) de identificar um problema (uma necessidade) de aprendizagem e desenhar, implementar e avaliar uma solução para esse problema.” (id.ibid).
Andréa Filatro na obra em questão centra suas análises e propostas nos cursos online. A designer instrucional Flora Alves, em seu livro sobre Gamification, trabalha com um universo mais amplo incluindo tanto jogos analógicos quanto digitais em sua análise que podem ser usados em “soluções de aprendizagem” para o “problema de aprendizagem” percebido. Para Alves a função do design instrucional é avaliar o problema e propor soluções de aprendizagem para ele diante dos recursos existentes. (ALVES, 2014)
Gui Bonsiepe, designer e pesquisador e professor sobre o assunto, analisa os conceitos de projeto e design propondo: “<Projeto> se refere à dimensão antropológica da criação e formação de artefatos materiais e simbólicos, enquanto <design> significa um modo da atividade projetual do capitalismo tardio, tal como a partir dos anos 1979, difundiu-se globalmente.” (BONSIEPE, 2011: 13). Prosseguindo em seu raciocínio Bonsiepe considera que profissionais de outras áreas realizam atividades de projeto que também podem ser consideradas como sendo de design, incluindo as engenharias, arquitetura, programadores, dentre outros. Bonsiepe percebe que há uma percepção crescente na atualidade de que o design estaria unicamente ligado aos aspectos estéticos formais de um artefato material ou simbólico, contudo, ele observa a possibilidade, e para mim o dever, de defender o design como sendo a solução inteligente de problemas.

“O design se transformou em evento midiático, em espetáculo – acompanhado por um número respeitável de revistas que funcionam como caixas de ressonância para esse fim. Até os centros de promoção do design se encontram expostos a essa cumplicidade dos veículos de comunicação, correndo o risco de desvirtuar seu objetivo de difundir o design como resolução inteligente de problemas e não apenas o styling.” (BONSIEPE, 2011: 18)

Após lamentar que o ensino de projeto não tenha atingido padrões igualáveis aos do ensino de ciências em diversas instituições de ensino e propor que um diálogo maior entre Ciência e Projeto seria muito produtivo, Bonsiepe parte para sua proposta das relações entre design e democracia até chegar a proposta final de um design humanista. Ele propõe que a democracia é um conceito mais amplo do que o direito ao voto e que liberdade é mais do que escolher entre ir para a Disney de Orlando ou o Museu de Louvre em Paris. A democracia para ele implica na criação de um espaço para a criação de projetos próprios, um espaço alternativo para o desenvolvimento da autonomia em relação à heteronomia. “Faço minha adesão a um conceito substancial e menos formal de democracia no sentido de redução de heteronomia, entendida como subordinação a uma ordem imposta por agentes externos.” (Id. Ibid).
A partir do estudo de contribuições do filólogo Edward Said, Bonsiepe propõe o que seria o humanismo projetual como sendo uma atitude, uma perspectiva de atuação para designers e não designers. A citação é longa, mas vale a pena lê-la na íntegra.

O humanismo projetual seria o exercício das capacidades projetuais para interpretar as necessidades de grupos sociais e elaborar propostas viáveis, emancipatórias, em forma de artefatos instrumentais e artefatos semióticos. Por que emancipatórias? Porque humanismo implica a redução da dominação e, no caso do design, atenção também aos excluídos, aos discriminados, como se diz eufemisticamente no jargão economista, <os economicamente menos favorecidos>, ou seja, a maioria da população deste planeta.
Essa afirmação não deve ser interpretada como expressão de um idealismo ingênuo e fora da realidade. Ao contrário, é uma possível e incômoda questão fundamental que qualquer profissional, não somente os designers, deveria enfrentar. Também seria errado interpretá-la como uma exigência normativa ao trabalho do designer, que está sempre exposto às pressões do mercado e às antinomias entre o que é e o que poderia ser a realidade. A intenção aqui é mais modesta: formar uma consciência crítica frente ao enorme deseguilíbrio entre os centros de poder e os que estão submetidos a eles. A partir dessa consciência crítica, podem-se explorar espaços alternativos, não se contentando com a petrificação das relações sociais. Esse desequilíbrio é profundamente antidemocrático, uma vez que nega a participação em um espaço autônomo de decisão. Trata os seres humanos como meros consumidores no processo de coisificação. (Id: 21)

A postura crítica é vital para que o projetista possa intervir na realidade com atos projetuais, tendo predisposição para mudá-la sem se distanciar dela. Um método projetual, para Bonsiepe, deve buscar procedimentos que levem os projetistas a gerar ideias inovadoras.
A posição de Bonsiepe dialoga com determinados postulados da arte contemporânea, conforme colocado pelo pesquisador Nicolas Bourriaud.

Hoje existe um embate entre as representações que envolve a arte e a imagem oficial da realidade, difundida pelo discurso publicitário, transmitidas pelos meios de comunicação, organizada por uma ideologia ultralight do consumo e da concorrência social. Em nossa vida cotidiana convivemos com ficções, representações e formas que alimentam um imaginário coletivo cujos conteúdos são ditados pelo poder. A arte apresenta-nos contra-imagens.  Diante dessa abstração econômica que desrealiza a vida cotidiana, arma absoluta do poder tecnomercantil, os artistas reativam as formas, habitando-as, pirateando as propriedades privadas e os copyrights, as marcas e os produtos, as formas museficadas e as assinaturas de autor. (BOURRIAUD, 2009: 109)

Ambos os posicionamentos, por sua vez, dialogam bem com os objetivos da pedagogia construtivista que foca na construção de competências por parte dos estudantes de pesquisa, análise crítica, questionamento, cooperação e inovação, e postura do professor como agente crítico de mobilização de saberes e construção de conhecimento pelos estudantes, conforme proposto por Paulo Freire nos princípios da Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire que estipulam que não há docência sem discência, seu compromisso ético de reconhecer e respeitar as particularidades dos alunos como co-sujeitos do processo educacional, com seu saber indispensável “que ensinar não é transmitir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. (FREIRE, 1996: 22). Bonsiepe pede uma postura crítica por parte dos designers e demais profissionais em relação ao contexto social de sua prática, pode-se ver a mesma preocupação em Freire: “Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. (Id.: 39).

O Humanismo Projetual é assumido por mim como Projeto Educacional Humanista – perspectiva orientadora de ação para minhas ações como educador e designer educacional, dentre as quais atualmente se destaca a Didática LudoNarrativa para histórias interativas. (BETTOCCHI, KLIMICK, REZENDE, 2015).

REFERÊNCIAS
ALVES, Flora. Gamification: como criar experiências de aprendizagem engajadoras: um guia completo do conceito à prática. São Paulo: DVS Eeditora, 2014.
BETTOCCHI, Eliane; KLIMICK, Carlos. REZENDE, Rian. Incorporeal Project: the use of gamebooks and tabletop RPG for educational purposes – 2 Brazilian experiences. RPG Summit. Digra Conference. 2015. (No prelo).
BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.
BOURRIAUD, Nicolas.Pós-Produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. São Paulo: Editora Martins Fontes. 2009b (Coleção Todas as Artes)
FILATRO, Andréa. Design Instrucional na prática. Pearson Educacional do Brasil. São Paulo, 2008.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

Palestra na Escola Internacional Saci

Eu e a professora Eliane Bettocchi Godinho do IAD (Instituto de Artes e Design) da Universidade Federal de Juiz de Fora demos uma palestra ontem nas Escola Internacional Saci, em Juiz de Fora, sobre “Sexualidade e Gênero – o fim precoce da infância”.

Abordamos como o marketing infantil atua sobre crianças de 5 a 7 anos estimulando um consumismo que pode levar ao reforço de estereótipos de gênero e problemas de saúde por uso de cosméticos e salto alto por crianças.

Na fase de 5 a 7 anos a criança alarga seu círculo social para além da família, principalmente na escola, buscando ser aceita pelo grupo e formar um círculo de amizades na turma. O marketing infantil para essa faixa etária atua associando o “pertencimento social” à posse de determinado produto. A criança não é mais aceita por “ser” e sim por “ter”. Reduz-se a aceitação por ser boa em futebol ou queimada, por ser engraçada, por ser meiga, por ser carinhosa, por ser valente, por ser boa desenhista e aumenta-se a aceitação por ter a melhor bola, por ter o tênis ou a boneca da moda, por ter um celular, por ter salto alto. Ocorre então um bullying por exclusão, particularmente forte com as meninas, em que a criança não é chamada para brincar ou mesmo festas de aniversário. Um modelo de beleza, normalmente com cabelos loiros lisos, salto alto e maquiagem é imposto.  Isso gera problemas de autoestima para as crianças que não se adequam ao padrão por diferenças físicas (cabelo crespo) ou por questões financeiras. O dia do brinquedo, voltado para o companheirismo e partilha, tem de ser vigiado de perto para não ser pervertido para uma competição do “eu tenho, você não tem.”

É importante lembrar que a criança, ou o adulto, não compra o produto (brinquedo, roupa) em si, mas a fantasia que é a ele associada: ser popular, ser valente, ser bela, voar, brincar com a família. Quando a fantasia não acontece isso gera frustração e o desejo por novo produto na esperança de realizar outra fantasia ou talvez a mesma.

Uma possível solução é atentar para o problema, alertar a criança de que comerciais tentam vender produtos (afinal, nós já as avisamos para não confiar em estranhos na rua, podemos também avisar para não confiar na TV), reduzir o tempo de TV e propor alternativas de diversão como passeios a parques, jogos em família etc.

É importante observar que essa erotização do universo infantil pode ter favorecido a proliferação de imagens de pedofilia no Facebook e em outras redes sociais.

Para saber mais sobre o assunto

“A criança e o Marketing”. Ana Maria Dias da Silva. Luciene Ricciotti Vasconcelos. Summus Editorial.

http://www.consumismoeinfancia.com/