Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.
A cidade. Altas muralhas para proteger dos que estão fora. Guardas para proteger dos que estão dentro. As ruas uma mistura de gente sem fim, de odores de perfumes baratos, incensos e fétida presença de esgotos. Humanos, anões, orcos, elfos e mestiços se acotovelando entre comerciantes espertos, lavradores deslumbrados, guerreiros sonsos e ladinos se ocupando de sua falta de ocupação. Gosto do mercado, gosto dos banhos.
A guerreira caminha pelas ruas, alta e forte para uma mulher, suja e cansada como quem veio da batalha, pensativa e atenta. Armadura de escamas, alfanje na cintura, grevas, brafoneira, em uma das mãos traz as rédeas do cavalo, na outra, a corda atada ao pescoço do prisioneiro de cabeça baixa. As pessoas instintivamente se afastam de seu caminho, os ladinos recuam para as sombras lançando olhares desesperançados para seu saco de moedas. Acostumada e indiferente aos olhares de medo e respeito que lhe eram voltados, a guerreira caminha resoluta em direção à taverna a que estava acostumada. Ela só pára quando uma mulher cruza seu caminho com um bebê embrulhado nos braços, alheia a tudo, a mulher é a única a não reparar na guerreira que parou para observá-la.
Há trinta e sete anos atrás, como há séculos, era, e ainda é, costume deixar crianças indesejadas na roda. Alguns as criavam como filhos, outros como escravos, por fim algumas eram simplesmente devoradas por cães ou porcos que zanzavam pelas ruas. As pessoas no mercado comentavam que este seria o provável fim daquela criança feia deixada na roda: uma menina grande, escura e de cabelo ruim. Ruim? Claro, os humanos copiavam os seus senhores élficos da Terra Antiga que acreditavam que o valor interno de uma pessoa se refletia na sua aparência, se era feia, era ruim e pronto. E quais meninas eram belas para os elfos? As de pele clara, pequenas e bem feitas de corpo, com cabelos lisos da cor do mel. Não aquela coisa enrolada na cabeça que nem dá para pentear. Foi quando o caçador Rollo passou, pegou a criança e seguiu seu caminho para a floresta onde morava.
A guerreira relaxa na tina cheia de água quente e ervas aromáticas. Os músculos descontraem, a agradável sensação de estar limpa. Ela olha para trás, o prisioneiro está sentando no chão, comendo do cozido, com o braço esquerdo preso por grilhões à perna esquerda. O comprimento da corrente lhe permite ficar sentado com algum conforto, mas não o deixa andar senão bem curvado. Os grilhões foram uma boa compra, pensa ela. A guerreira afunda na Tina, deixando a água cobrir seus cabelos, ela relembra o combate em que o capturara, rápido e decisivo como tantos outros…
Por que não a deixavam em paz? Pensava a guerreira enquanto chutava um dos meninos. Ela tinha nove anos, eles dez, mas eram tolos, gordos e lentos. O segundo a agarrou pela cintura, mas logo estava no chão com ela por cima, segurando-o bem. Os socos vinham ritmados, a mente dela estava ali e não estava.
A cabana de seu pai era acolhedora, ele a havia ensinado a andar no mato sem se perder, a caçar, a nadar, a fazer seu arco e borduna. Ela já o havia acompanhado em algumas caçadas. Ela havia odiado quando seu pai a forçara a ir à escola ouvir as lições do velho xamã. Havia poucas crianças, pois poucas cabanas havia na floresta entre caçadores e lenhadores, mas implicavam com ela, chamavam-na de “filhote de ogro”. Uma vez seu pai havia recolhido um guerreiro ferido na floresta e cuidara dele. Agradecido, o guerreiro atendeu o pedido do pai e ensinou várias técnicas de luta para a filha. Disso ela havia gostado. Seu pai a chamava de “pequena guerreira”.
Um dia ela havia voltado com o coração apertado, haviam-lhe dito que seu pai não era seu pai de verdade. Subitamente, ela havia se sentido ainda mais diferente do que as outras crianças, ainda mais só. Dos seus poucos amigos, apenas Breno continuou a brincar com ela. O pai a abraçou e contou-lhe que era seu pai verdadeiro porque a amava de verdade. No dia seguinte, ao acordar, ela havia encontrado um colar de osso que ele passara a noite esculpindo para ela. Nele podia-se ver a figura de uma onça e na língua dos xamãs, o nome dela. A guerreira não se separava daquele colar.
Um dia, tomando banho no rio, viu dois dos meninos rindo e fugindo com seu colar. Ela correu atrás deles, os alcançou e assim a luta havia começado.
A guerreira reparou que o menino embaixo de si havia parado de reagir, ela parou de bater. Levantou-se, o outro tentava se levantar. Ela pôs-lhe o pé no peito forçando-o a se deitar no chão. Ele cobriu o rosto e chorou. Bem-feito! Foi quando se deu conta: ela, uma menina de nove anos havia surrado dois meninos de dez! Não pôde deixar de sorrir.
Por entre as barracas do mercado, a guerreira caminha e compra os itens que precisa para sua oferenda. A gamela, as ervas, os legumes, a ave favorita de seu pai. Ela reúne tudo e procura um lugar, pois os templos dos elfos e as clareiras dos druidas não a aceitam. Ela caminha e lembra do dia que o pai morreu. Uma saudade surda, a dor de não mais poder abraçar, o pedaço que falta.
Ela estava com os mercenários há cinco anos quando soube da notícia. Voltou para a aldeia o mais rápido que pôde, pedia à Natureza que lhe desse asas. Quando chegou à cabana, os amigos do pai já estavam lá. Um deles falou baixinho:
“- Há dias que ele murmura seu nome”.
Ela entrou, ele estava na cama, parecia tão frágil, tão velho, mas seus olhos ainda estavam vivos. Ela apenas disse:
“-Pai. Cheguei”.
Ele abriu os olhos, sorriu e falou:
“- Te amo. Seja feliz”.
O pai expirou. Ela o pegou nos braços, braços que já haviam estrangulado guerreiros, mãos acostumadas a empunhar espadas e machados na guerra, erguiam aquele fiapo de homem com uma gentileza insuspeitada. A guerreira caminhava lentamente para a fogueira cerimonial, por fora, seus olhos estavam úmidos, por dentro tempestades castigavam cachoeiras. Ela acendeu a fogueira.
A guerreira faz a oferenda nas rochas. Ela ergue os braços e faz uma prece a seus antepassados para que cuidem de seu pai e outra a ele para lembrá-lo de seu amor. Uma tempestade se forma no horizonte. É de seu gosto.
A guerreira se sente observada, pousa sua mão no cabo do alfanje e se vira rapidamente. Assustada, uma menina de uns sete anos fica congelada. Ela murmura:
“-Só estava olhando.”
A guerreira se levanta, passa por ela fazendo-lhe um cafuné no topo da cabeça e segue seu caminho.
A guerreira seguia com sua oferenda para o rio, pensava no pai. Entre os mercenários, a curandeira havia se tornado uma mãe para ela. Pena que ele não a havia conhecido. Pena que ela não pudera estar presente para curá-lo. Foi quando ouviu seu nome, virou-se e viu o líder da aldeia, o xamã e alguns rapazes. O aldeão-mor se aproximou:
“-Sabemos das suas boas intenções, mas não pode fazer uma oferenda aos ancestrais em nome de seu pai. Ele não era seu pai de verdade, você não tem o sangue dele.”
“-Uma oferenda assim desagradará aos espíritos da natureza e atrairá desgraça sobre a aldeia.” – completou o xamã.
“- Ela era meu pai de verdade. Foi ele quem me criou, quem me acolheu e amou. Não se diz que pai e mãe são os que criam?”
O aldeão-mor olhou para o xamã que ficou parado, todos se entreolhavam constrangidos. A guerreira, impassível, esperava uma solução. O xamã falou baixinho:
“-Provérbio é provérbio, sangue é sangue!”
A guerreira suspirou, balançou a cabeça e disse:
“-Se é assim, farei minha oferenda aos antepassados longe da aldeia e do rio, longe dos costumes. Serei a única responsável. Deixe que os espíritos venham se haver comigo”.
“- Ainda assim não podemos permitir…”
A guerreira olhou para os rapazes, eram seis, alguns tinham sido suas vítimas na infância e pareciam querer a revanche agora que eram homens feitos. Um era maior do que ela. Aquilo era tão desnecessário…
Um único movimento, um chute rápido no rosto, o maior dos rapazes, o campeão da aldeia caiu desacordado. Espanto geral.
“- Eu vou fazer minha oferenda aos antepassados longe daqui. Por favor, não criem problemas”.
Ela partiu, foi até o alto de um monte e entre as rochas fez sua oferenda.
A guerreira bebe seu vinho na taverna, sentada no banco e recostada na mesa. Um vinho honesto, a bom preço. Algumas pessoas olham para ela, outras para o prisioneiro sentado no chão a seus pés. Ela espera. Finalmente, eles chegam. Três homens, dois guardas e um negociador. O prisioneiro levanta a cabeça, esperançoso. Negociam. O homem tenta baixar o preço, ela se mantém irredutível:
“- Tenho filhos para criar, não posso baixar o preço.”
As pessoas na taberna se surpreendem. Há murmúrios:
“-Filhos? Quem teria filhos com essa bruaca?!”
“- É estratégia de negociação…”
“- Devem ser adotivos!”
“- Ou então, foi algum prisioneiro que ela molestou!”
Ouvindo tudo, se divertindo e aparentando indiferença, a guerreira bebe da sua taça de vinho enquanto o negociador sua. Por fim, ele cede e paga o valor que ela quer.
O ex-prisoneiro parte e a guerreira pede uma taça de vinho de primeira. Ela se ergue, faz sinal para um jovem profissional e sobre para o quarto.
No dia seguinte, ela deixa a cidade. Ao passar pelos portões, observa um grupo de crianças, liderado pela menina da véspera, levando oferendas para os rochedos. A guerreira então se lembra que é dia dos Antepassados. Ela sorri e segue seu caminho.
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