Arquivo da Categoria ‘MITOS E LENDAS’

Tristeza, não tem fim…

domingo, 2 de agosto de 2009

Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.

Tristeza, não tem fim…

A cidade de Ingá era pequena, porém decente. Seu povo era trabalhador, batalhando contra a terra árida, pestes, animais perigosos ou nocivos e as indesejadas visitas de bandoleiros. A água do rio tinha que ser bem usada na irrigação, no consumo e nos banhos. Não havia fartura, mas com cuidado vivia-se bem. Apesar dos pesares, era um povo danado para gostar de festas. Logo, foi com grande animação que viram a chegada do Menestrel.

Ele não era alto, não era forte, nem era tão bonito quanto os boatos faziam crer, se bem que nenhuma das mulheres, e mesmo alguns dos homens, viu-lhe qualquer defeito. Mas, que simpatia. Seus olhos acariciavam, suas mãos beijavam e sua voz embalava. A música vinha em ondas suaves que refrescavam aquele povo ressecado. Logo vieram os pedidos:

“- Toca para alegrar meu irmão que está doente!”

“- Toca para animar minha mãe que está velhinha e não pode mais dançar!”

E o Menestrel tocava carinhosamente, enquanto as pessoas traziam os idosos e doentes para a praça. Logo, trouxeram comida e água para o homem, que ninguém é de ferro. O Menestrel agradeceu, comeu bem e guardou o resto no seu farnel. Foi quando uma moça se animou e pediu:

“- Está tudo muito bem, a canção foi linda. Mas, música também é para se dançar. Toca aí pra gente balançar o esqueleto!”

O Menestrel sorriu, limpou os lábios com as costas da mão e logo engatou uma música das mais animadas no seu alaúde. As pessoas riam e dançavam, enquanto ele tocava músicas ora no alaúde, ora na flauta, ora nos tamboretes. E foi assim a noite toda.

No dia seguinte, novos pedidos e novas canções. O Menestrel só se recusou quando o prefeito da cidade pediu-lhe que tocasse uma canção mágica para afastar os ratos que empestavam a cidade:

“- Isso não. Lamento, mas fiz uma vez e me deram calote!”

Logo depois, o Menestrel foi procurado por duas pessoas com pedidos difíceis. Primeiro, um rapaz:

“- Ouvi dizer que sua música é mágica, que traz a pessoa amada de volta em três dias! Por favor, me ajude! Helena terminou o namoro comigo e sem ela não tenho luz!”

Uma mulher, desesperada, aos prantos, aproximou-se do Menestrel:

“- Menestrel, por favor, me ajude com sua arte! Meu bebê, meu filho Vítor, morreu de doença. A dor está que me destroça, o coração está vazio e os olhos cheios. Já não tenho forças para viver.”

Soluna olhou-os compadecido, conhecia bem o que era o sofrimento. Quem não conhece a dor, não compõe música, verso ou imagem. Ele sorriu para eles e disse:

“- Há algo que posso fazer por vocês. Mas, para que o encanto se cumpra, precisam me ajudar. Há itens que só vocês podem obter”. Virou-se então para o rapaz e disse:

“- Corra essa cidade e as vizinhas perguntando e me traga os nomes de duas pessoas, de sua idade ou mais velhas, que nunca tenham sofrido uma desilusão amorosa.”

O Menestrel olhou a mãe nos olhos com ternura e disse:

“- Você também deve correr as casas desta cidade e das vizinhanças, mas me traga um grão de feijão de uma casa em que nenhum dos moradores tenham perdido um parente ou amigo”.

Os dois partiram cheios de esperança, cada um pro seu lado.

Uma semana depois, voltaram. Nem o rapaz tinha conseguido os nomes, nem a mulher o grão de feijão.

O Menestrel viu fundo nos olhos dos dois e convidou-os a se sentar. Eles lhe contaram seu périplo e que agora se conformavam. Era a vida. Ele sorriu:

“- Vocês estão certos e errados ao mesmo tempo. Dor e Morte são as promessas que a Vida sempre cumpre. É assim. Mas, a Vida também é o que fazemos dela, da vida só se leva a vida que se leva. Por isso que a Alegria é tão mais meritória que a Tristeza, porque é um direito nosso pelo qual lutamos diariamente. Ser feliz na vida é algo que se conquista!”

Ele dedilhou o alaúde, preparando uma canção:

“- História triste e adulta, traz sabedoria e consolo. História de final feliz, história alegre, traz outra sabedoria e dá força para erguer a enxada.”

O Menestrel tocou com notas que beijavam as faces dos ouvintes e depois voavam com o vento. O rapaz deixou a tristeza ir embora e sonhou acordado novamente. A mulher sentiu o frio vazio se encher com um calor gostoso e imaginou outra criança em seu colo. Os dois ouviam a música e mal percebiam que suas mãos se tocavam, enquanto outras pessoas se sentavam em volta do casal.

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Antepassados: sangue ou coração?

domingo, 2 de agosto de 2009

Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.

A cidade. Altas muralhas para proteger dos que estão fora. Guardas para proteger dos que estão dentro. As ruas uma mistura de gente sem fim, de odores de perfumes baratos, incensos e fétida presença de esgotos. Humanos, anões, orcos, elfos e mestiços se acotovelando entre comerciantes espertos, lavradores deslumbrados, guerreiros sonsos e ladinos se ocupando de sua falta de ocupação. Gosto do mercado, gosto dos banhos.

A guerreira caminha pelas ruas, alta e forte para uma mulher, suja e cansada como quem veio da batalha, pensativa e atenta. Armadura de escamas, alfanje na cintura, grevas, brafoneira, em uma das mãos traz as rédeas do cavalo, na outra, a corda atada ao pescoço do prisioneiro de cabeça baixa. As pessoas instintivamente se afastam de seu caminho, os ladinos recuam para as sombras lançando olhares desesperançados para seu saco de moedas. Acostumada e indiferente aos olhares de medo e respeito que lhe eram voltados, a guerreira caminha resoluta em direção à taverna a que estava acostumada. Ela só pára quando uma mulher cruza seu caminho com um bebê embrulhado nos braços, alheia a tudo, a mulher é a única a não reparar na guerreira que parou para observá-la.

Há trinta e sete anos atrás, como há séculos, era, e ainda é, costume deixar crianças indesejadas na roda. Alguns as criavam como filhos, outros como escravos, por fim algumas eram simplesmente devoradas por cães ou porcos que zanzavam pelas ruas. As pessoas no mercado comentavam que este seria o provável fim daquela criança feia deixada na roda: uma menina grande, escura e de cabelo ruim. Ruim? Claro, os humanos copiavam os seus senhores élficos da Terra Antiga que acreditavam que o valor interno de uma pessoa se refletia na sua aparência, se era feia, era ruim e pronto. E quais meninas eram belas para os elfos? As de pele clara, pequenas e bem feitas de corpo, com cabelos lisos da cor do mel. Não aquela coisa enrolada na cabeça que nem dá para pentear. Foi quando o caçador Rollo passou, pegou a criança e seguiu seu caminho para a floresta onde morava.

A guerreira relaxa na tina cheia de água quente e ervas aromáticas. Os músculos descontraem, a agradável sensação de estar limpa. Ela olha para trás, o prisioneiro está sentando no chão, comendo do cozido, com o braço esquerdo preso por grilhões à perna esquerda. O comprimento da corrente lhe permite ficar sentado com algum conforto, mas não o deixa andar senão bem curvado. Os grilhões foram uma boa compra, pensa ela. A guerreira afunda na Tina, deixando a água cobrir seus cabelos, ela relembra o combate em que o capturara, rápido e decisivo como tantos outros…

Por que não a deixavam em paz? Pensava a guerreira enquanto chutava um dos meninos. Ela tinha nove anos, eles dez, mas eram tolos, gordos e lentos. O segundo a agarrou pela cintura, mas logo estava no chão com ela por cima, segurando-o bem. Os socos vinham ritmados, a mente dela estava ali e não estava.

A cabana de seu pai era acolhedora, ele a havia ensinado a andar no mato sem se perder, a caçar, a nadar, a fazer seu arco e borduna. Ela já o havia acompanhado em algumas caçadas. Ela havia odiado quando seu pai a forçara a ir à escola ouvir as lições do velho xamã. Havia poucas crianças, pois poucas cabanas havia na floresta entre caçadores e lenhadores, mas implicavam com ela, chamavam-na de “filhote de ogro”. Uma vez seu pai havia recolhido um guerreiro ferido na floresta e cuidara dele. Agradecido, o guerreiro atendeu o pedido do pai e ensinou várias técnicas de luta para a filha. Disso ela havia gostado. Seu pai a chamava de “pequena guerreira”.

Um dia ela havia voltado com o coração apertado, haviam-lhe dito que seu pai não era seu pai de verdade. Subitamente, ela havia se sentido ainda mais diferente do que as outras crianças, ainda mais só. Dos seus poucos amigos, apenas Breno continuou a brincar com ela. O pai a abraçou e contou-lhe que era seu pai verdadeiro porque a amava de verdade. No dia seguinte, ao acordar, ela havia encontrado um colar de osso que ele passara a noite esculpindo para ela. Nele podia-se ver a figura de uma onça e na língua dos xamãs, o nome dela. A guerreira não se separava daquele colar.

Um dia, tomando banho no rio, viu dois dos meninos rindo e fugindo com seu colar. Ela correu atrás deles, os alcançou e assim a luta havia começado.

A guerreira reparou que o menino embaixo de si havia parado de reagir, ela parou de bater. Levantou-se, o outro tentava se levantar. Ela pôs-lhe o pé no peito forçando-o a se deitar no chão. Ele cobriu o rosto e chorou. Bem-feito! Foi quando se deu conta: ela, uma menina de nove anos havia surrado dois meninos de dez! Não pôde deixar de sorrir.

Por entre as barracas do mercado, a guerreira caminha e compra os itens que precisa para sua oferenda. A gamela, as ervas, os legumes, a ave favorita de seu pai. Ela reúne tudo e procura um lugar, pois os templos dos elfos e as clareiras dos druidas não a aceitam. Ela caminha e lembra do dia que o pai morreu. Uma saudade surda, a dor de não mais poder abraçar, o pedaço que falta.

Ela estava com os mercenários há cinco anos quando soube da notícia. Voltou para a aldeia o mais rápido que pôde, pedia à Natureza que lhe desse asas. Quando chegou à cabana, os amigos do pai já estavam lá. Um deles falou baixinho:

“- Há dias que ele murmura seu nome”.

Ela entrou, ele estava na cama, parecia tão frágil, tão velho, mas seus olhos ainda estavam vivos. Ela apenas disse:

“-Pai. Cheguei”.

Ele abriu os olhos, sorriu e falou:

“- Te amo. Seja feliz”.

O pai expirou. Ela o pegou nos braços, braços que já haviam estrangulado guerreiros, mãos acostumadas a empunhar espadas e machados na guerra, erguiam aquele fiapo de homem com uma gentileza insuspeitada. A guerreira caminhava lentamente para a fogueira cerimonial, por fora, seus olhos estavam úmidos, por dentro tempestades castigavam cachoeiras. Ela acendeu a fogueira.

A guerreira faz a oferenda nas rochas. Ela ergue os braços e faz uma prece a seus antepassados para que cuidem de seu pai e outra a ele para lembrá-lo de seu amor. Uma tempestade se forma no horizonte. É de seu gosto.

A guerreira se sente observada, pousa sua mão no cabo do alfanje e se vira rapidamente. Assustada, uma menina de uns sete anos fica congelada. Ela murmura:

“-Só estava olhando.”

A guerreira se levanta, passa por ela fazendo-lhe um cafuné no topo da cabeça e segue seu caminho.

A guerreira seguia com sua oferenda para o rio, pensava no pai. Entre os mercenários, a curandeira havia se tornado uma mãe para ela. Pena que ele não a havia conhecido. Pena que ela não pudera estar presente para curá-lo. Foi quando ouviu seu nome, virou-se e viu o líder da aldeia, o xamã e alguns rapazes. O aldeão-mor se aproximou:

“-Sabemos das suas boas intenções, mas não pode fazer uma oferenda aos ancestrais em nome de seu pai. Ele não era seu pai de verdade, você não tem o sangue dele.”

“-Uma oferenda assim desagradará aos espíritos da natureza e atrairá desgraça sobre a aldeia.” – completou o xamã.

“- Ela era meu pai de verdade. Foi ele quem me criou, quem me acolheu e amou. Não se diz que pai e mãe são os que criam?”

O aldeão-mor olhou para o xamã que ficou parado, todos se entreolhavam constrangidos. A guerreira, impassível, esperava uma solução. O xamã falou baixinho:

“-Provérbio é provérbio, sangue é sangue!”

A guerreira suspirou, balançou a cabeça e disse:

“-Se é assim, farei minha oferenda aos antepassados longe da aldeia e do rio, longe dos costumes. Serei a única responsável. Deixe que os espíritos venham se haver comigo”.

“- Ainda assim não podemos permitir…”

A guerreira olhou para os rapazes, eram seis, alguns tinham sido suas vítimas na infância e pareciam querer a revanche agora que eram homens feitos. Um era maior do que ela. Aquilo era tão desnecessário…

Um único movimento, um chute rápido no rosto, o maior dos rapazes, o campeão da aldeia caiu desacordado. Espanto geral.

“- Eu vou fazer minha oferenda aos antepassados longe daqui. Por favor, não criem problemas”.

Ela partiu, foi até o alto de um monte e entre as rochas fez sua oferenda.

A guerreira bebe seu vinho na taverna, sentada no banco e recostada na mesa. Um vinho honesto, a bom preço. Algumas pessoas olham para ela, outras para o prisioneiro sentado no chão a seus pés. Ela espera. Finalmente, eles chegam. Três homens, dois guardas e um negociador. O prisioneiro levanta a cabeça, esperançoso. Negociam. O homem tenta baixar o preço, ela se mantém irredutível:

“- Tenho filhos para criar, não posso baixar o preço.”

As pessoas na taberna se surpreendem. Há murmúrios:

“-Filhos? Quem teria filhos com essa bruaca?!”

“- É estratégia de negociação…”

“- Devem ser adotivos!”

“- Ou então, foi algum prisioneiro que ela molestou!”

Ouvindo tudo, se divertindo e aparentando indiferença, a guerreira bebe da sua taça de vinho enquanto o negociador sua. Por fim, ele cede e paga o valor que ela quer.

O ex-prisoneiro parte e a guerreira pede uma taça de vinho de primeira. Ela se ergue, faz sinal para um jovem profissional e sobre para o quarto.

No dia seguinte, ela deixa a cidade. Ao passar pelos portões, observa um grupo de crianças, liderado pela menina da véspera, levando oferendas para os rochedos. A guerreira então se lembra que é dia dos Antepassados. Ela sorri e segue seu caminho.

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Contos das Divindades: a Vampira e o Rei

sábado, 1 de agosto de 2009


Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão
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Oculta pelas sombras, Nadini observava o casal. Estavam ao ar livre. Com o castelo em ruínas, pernoitar ao relento era realmente mais seguro para quem não tivera tempo de explorá-lo durante o dia. Um homem já marcado pelo tempo e uma jovem marcada pela vida. Ambos se aqueciam junto à fogueira. Nadini sentiria o frio cortante do vento se o pudesse. Na verdade, ela sentia o vento, mas apenas uma sombra de sua presença. Estava lá, mas não a tocava. Ela olhou para suas irmãs, Hetera e Sélia. A primeira, de olho no homem, a segunda, impassível como um cadáver. Nadini podia ver apenas veias pulsando, ora no pescoço de uma, ora no pescoço do outro. A fome crescia, a mais primordial, a primeira das sensações, que nem a morte podia apagar. Começaram então o encantamento.
A mulher se enlevava com o canto, o homem balançava a cabeça, mas lutava para manter o controle. A jovem começou a cantar, o homem fechou os olhos. Faltava pouco agora. As irmãs lentamente saíram das sombras.

Foi quando ela o percebeu. Alto, imponente, belo, parecia impossível que não tivesse visto antes. Oblíquo, entre a luz e a sombra. A pele como o céu da noite, os cabelos dourados como o sol, um sorriso entre a simpatia e a malícia. Usava calças brancas folgadas, botas de couro de cano baixo, um manto vermelho preso por tiras na frente do peito. Ele caminhou até elas, sabia onde estavam, como? Hetera sorriu, o homem a cumprimentou, olhou-a fundo nos olhos. Nadini e Sélia o cercaram prontas para dar o bote. Ele não parecia amedrontado; não sabia quem eram? O homem se virou para Nadini, tocou-a de leve na face e a beijou. Ela sentiu os braços fortes dele ao seu redor, sem perceber, deitou-se na relva. Ele não era uma vítima do encantamento, mas a desejava, a desejava! Tanta força, tanto amor à vida! As mãos dele percorreram seu corpo, ela gemeu e respirou, surpresa ao sentir-se levando o ar aos pulmões. Hetera chegou por trás e beijou o pescoço do homem, ele se reclinou e suas mãos correram-lhe as coxas, os lábios procuram-lhe o seio. Nadini viu-a jogar a cabeça para trás e suspirar. Sélia veio então, as presas à mostra. Não! Ela Nadini seria a primeira a provar daquele homem. Ela se ergueu e cravou suas presas no mamilo esquerdo dele enquanto o beijava. O homem gemeu de prazer. O sangue dele era grosso, forte, quente, saboroso com um amor pela vida que a preenchia. Um calor percorreu-lhe todo o corpo. Ele a acariciou. Este homem era diferente dos outros. Ele se entregava, sem pânico, mas sem submissão. E enquanto se entregava, tomava. E enquanto arrebatava, era também arrebatado. As três agora o beijavam, elas o puxaram para trás, deitaram-no na relva e se atiraram sobre ele, alimentando-se extasiadas.

Foi Nadini quem pressentiu o perigo primeiro. Um homem desses não se podia perder insensatamente. Com cuidado, poderiam tê-lo por anos! Ela controlou Hetera e Sélia, as três se ergueram. O homem dormia num gozo feliz. Elas o ergueram com cuidado e levaram-no para dentro. Por um momento, ele pareceu querer reagir, mas ela o seguraram com firmeza.

Uma vez na cripta subterrânea, Nadini ficou com ele enquanto Hetera e Sélia voltaram para ficar vigiando o casal. Quem sabe arrebatá-los para o jantar da noite seguinte.
Nadini o observava. Não era o mais belo dos homens, embora não se pudesse dizer que sua aparência fosse mediana. Mas, havia uma presença, um carisma, algo difícil de definir que a arrebatava. Ele abriu os olhos:
“- Vocês servem a um príncipe?”
“- Sim, mas ele se foi, nos deixando sós. Não sabemos se ele voltará. Prometeu-nos que sim, mas as promessas dos homens…”
“- Eu sou rei”.
Ele tentou se erguer, mas ela pressionou seu peito com a mão forçando-o a se deitar. Primeiro, gentilmente, depois com vigor. Então, deitou-se sobre ele e o mordeu novamente, no pescoço, no seio, fazendo-o deitar-se num prazeroso gemido de felicidade. E foi assim pelo resto da noite. Toda vez que ele tentava se levantar, ela o beijava e acariciava até que ele se entregasse. Nadini acreditava que havia domado o rei e naquele momento era verdade.

Pouco antes do nascer do sol, as irmãs voltaram. As três vampiras se deitaram ali, a porta bem trancada.

Nadini acordou de seu sono profundo, mas, como o sol estava a pico, não conseguia reunir forças para se mover. O homem andava pela cripta. Ela sentiu que a porta estava aberta. Como?
Ele falava:
“- Essa noite, eu me comovi com sua solidão e me entreguei a vocês. Saibam que vocês foram amadas, desejadas, profundamente. Enquanto eu as tomava, vocês me tomaram”.

Nadini sorriu. O homem continuava andando. Ela o ouvia atentamente:
“- Anteontem, durante o dia, parei na vila ao sopé da montanha para dar água ao meu cavalo. Uma mulher veio até mim, junto ao poço. Ela me contou que seu marido morrera num acidente na floresta e tudo que lhe restara fora seu filho, um lindo bebê. Mas, há uma lua, vocês o arrebataram. Todos têm o direito de alimentar para viver. Mas, há um coração a menos na vila. Ela me deu uma moeda de ouro e um casaco. Nunca ninguém havia me entregue tudo o que possuía. Considero-me regiamente pago. Primeiro, eu ofereci aquela mulher meu amor. Hoje, eu dou a ela a minha justiça”.

Com um único golpe de espada, a cabeça de Hetera rolou pelo chão…

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