Novas personagens, novas histórias em Terra Nova. Espero que gostem.
Giovanno Calese
Cidade de Arezza
República Arezza
Prezado Giovanno.
Conforme lhe prometi, estou enviando as primeiras páginas do diário que vim mantendo por estes anos. Continuo a considerar a sua idéia de publicá-lo um absurdo. Mas, como esta nova geringonça dos anões, a tal imprensa mecânica de tipo móvel, barateou os custos dos livros, talvez haja quem queira gastar um trocado para ler sobre fofocas, mistérios e reflexões pretensiosas. Tipos móveis para livros baratos, perde-se a elegância e se ganha eficiência. Cabe aos anões inventar, aos humanos lucrar e aos elfos se horrorizar.
Eu uso um amuleto “guarda-memória”, aquele que grava as memórias no pergaminho. Então tem textos com transcrições diretas da minha memória misturadas com anotações e reflexões, uma confusão. Diga-me se tem algo sobre o que você gostaria de saber mais que eu melhoro o texto.
A propósito, se após ler, você pretender seguir com seu intuito, teremos de criar uma versão romanceada dos fatos narrados para não ofender nobres suscetibilidades. Se é que você me entende.
Espero que esteja tudo bem com Aliena e os pequenos. Abraços fraternais,
Desiago Vitrúvio
Cidade de Ervantes
Reino de Valência
Ano 4.004 da Era Livre
Ervantes, Valência.
4.000 EL
Mês da Feiticeira, 3º dia do Menestrel.
Escrevo para ordenar meus pensamentos, para compor meus sentimentos. A cadeira é dura, a mesa áspera, o pergaminho velho e a pena usada. Belo começo. Mas, para quem veio ao mundo pelado e berrando, serve.
Como começar? Do começo não me interessa, perde-se tempo demais e não sei se quero lembrar. Do novo começo, então.
Entrei na casa: 6 metros de comprimento por 3 de largura e 3 de altura. Uma porta, uma janela em cada parede lateral, uma canaleta nos fundos do terreno, separando-o do outro. Era aqui que minha mãe vivia. Paguei melhorias. A casa era de tijolos, o teto tinha telhados, o piso tinha lajotas. Era uma das melhores casinhas da vila. Quase todas as outras eram de adobe, teto de palha e chão de terra. Tinha ainda uma mesa, um banco, uma cadeira, a esteira e um lugar para pendurar a rede. Num canto, me olhando triste, meu baú. Olhei, sentei, suspirei.
Depois que minha mãe morreu, aluguei o local. A inquilina morreu. Ficou vazio. Fui expulso da Academia, proibido de praticar magia, vim para cá com minhas economias. Ficou ocupado de novo. Abri uma garrafa de vinho, cortei uma fatia de queijo e uma fatia de pão. Comi. Bebi. Chorei. Dormi.
Mês da Feiticeira, 3º dia do Senhor da Guerra & da Feiticeira.
Ontem não consegui escrever sobre isso. Hoje dá. Eu estava na taberna da Figueira – comida boa e bebida melhor ainda. Já refestelado, alto, mas não exatamente bêbado. Dois homens pararam à minha frente, fixei a vista e notei que eram oficiais da Academia. Um dizia para o outro:
“- É ele?”
“- Estatura um pouco abaixo da média, magro, cabelos encaracolados na altura dos ombros, pele morena… heh.. “nariz com personalidade” – riu. Os dois riram.
“- Desiago Vitrúvio?”
“- Sim, sou eu.” – respondeu.
“- Queira nos acompanhar para pegar seus pertences pessoais na Academia. O senhor foi expulso.”
“- Por que? Como?” – aquilo não podia estar acontecendo.
“- Não sei, não quero saber, respeito quem sabe. Esta carta explicará tudo.”
Saí aturdido com eles, podia ouvir o burburinho na taverna. Isso foi há dois dias atrás. Acho que não tem mais chance de que eu esteja sonhando.
Almocei na birosca da Mãe Lina. Um discreto matriarcado administrado por Mãe Lina e suas duas filhas Ariana e Violana. Rodolfo, o rapaz, presta um duplo serviço ao ser excelente cozinheiro e cantor. Fiquei o dia a meditar. Que fazer para ganhar a vida? Meus recursos cedo ou tarde se exaurirão. Não posso praticar magias. Ninguém de berço ou posses contrataria como preceptor de seus filhos um expulso da Academia de Magia de Ervantes. Então, dar aulas como meio de sustentar está vetado. Escrever para quem não sabe para ganhar uns trocados? Ao me ver cabisbaixo, Violana veio conversar comigo.
“- Que foi, Desi? Eu te conheço, você está deprimido. Não fica assim, não. A roda do moinho gira e logo vem coisa nova. Você vai ver.”
(Por que nossos amigos e amigas de infância acham que nos conhecem? Dão conselhos lugar-comum com erro gramatical. Achei que tinha escapado das biroscas quando entrei para a Academia!) “- Viola, não é tão fácil. Vou viver do quê? Fazendo o quê? Não aprendi o ofício de minha mãe e nem o do meu padrasto. Não posso fazer magia e nem dar aulas para os ‘brasudos” ou para os “endinheirados”. Que faço?”
“- Algo virá. Não amanhece todo dia?”
“- Vocês poderiam me vender fiado…”
“- Não se pode ter compaixão, hoje em dia? Oh, bicho ruim, dá a mão e quer o braço!”
Ela saiu batendo os casquinhos, metida naquele vestido de chita apertado e andando dum jeito que eu adoro.
Terminei a cerveja, pus o que sobrou do frango a passarinho na trouxa e segui meu caminho.
Mês da Feiticeira, 3º dia da Rainha & da Matriarca.
Chega de ficar sentado em cima da minha bunda. Estou procurando Ratão, o cara tem contatos e conhece todo mundo. Era quem arrumava ervas para minha mãe curandeira e ervas de um tipo bem diferente para os colegas da Academia. A Viola deu uma boa idéia hoje no almoço. Ela trouxe a cerveja, apoiou os braços na mesa, abaixou a cabeça próxima à minha e disse com um sorriso maroto:
“- Tive uma idéia. Que tal você ser talismeiro?”
“- Taí, uma idéia com cara de ser boa… talismãs eu posso fazer…” – Talismãs e amuletos sempre foram meus pontos fortes, belos dentes, poções também, adoro esse vestido de chita, tenho que conseguir uma licença, olhos castanhos, a expulsão me impede de fazer magias e não artefatos, cabelos encaracolados com um aroma tão gostoso, quanto será que custa a licença, eu estou vendo os peitinhos tão redondos e roliços, posso vender poções e talismãs pro povo e conforme a reputação for subindo eu vou melhorando de clientela, ai – tá descendo uma gota de suor por entre os seios dela…
- O que você está olhando, Desiago!”
Subi meu olhar da gota pros olhos dela e respondi rápido:
“- Nada, estava só pensando. Quanto será que custa a licença de talismeiro?”
“- Sei…”
“- Quem será que pode me dizer isso? Como se obtém isso?”
“- Sei lá! Pergunta pro Ratão, ele deve saber.”
“- Boa! Onde é que eu acho o Ratão?”
“- Desi, eu sou sua amiga, não sua mãe!”
Saí quieto e rápido.
Pela cara dela fiquei na dúvida se a Viola ficou brava com meu passeio visual ou lisonjeada ou os dois. Fui na caça do Ratão.
Bom, para encurtar a história, bati perna horas a torto e a direito e encontrei tudo quanto foi rato e ratazana, mas nada da merda do Ratão. Voltei para a birosca para jantar. Quem tava lá? O filho da puta do Ratão. Deve ter alguma lição nisso, mas já saí da escola.
Pedi dois copinhos de pinga, que me levassem uma cerva com uma porção de manjubinha e fui até ele. Ele me viu e pelo faro percebeu que vinha serviço. Sentamos num banco.
“- Bebe aí, Ratão”.
“- Mestre Vitrúvio, a que devo a honra?”
“-Preciso da sua expertise. Você já sabe das minhas adversidades”.
“- Uma injustiça, com certeza. Por que mesmo você foi expulso, Mestre?”
“- Como você disse, por uma injustiça”.
Ratão tomou um gole e me olhou de esguelha. Fiz minha cara de xadrez e falei:
“- Quero uma licença de talismeiro. Quanto custa?”
“- Por cima ou por baixo da mesa”?
“- Legítima”.
Ratão coçou a cabeça, antes que ele me perguntasse, respondi:
“- Sem perguntas.”
Percebi que não era aquilo que ele ia perguntar, mas Ratão começou a enrolar com a cachaça enquanto pensava. Eu olhei em volta e disfarcei a curiosidade sobre qual teria sido a pergunta dele. A birosca enchia, vinha gente do serviço, um puxou um alaúde e começou a cantarolar. Violanda e Ariana serviam, Rodolfo cantava e comandava o fogão. Viola mal cabia em seu vestido, mas era lépida como uma cabrita. Ariana era ainda mais negra e de formas generosas, andava com autoridade e um olhar que derretia ou congelava de acordo com o caso. Ratão continuava bebendo.
Tomei um gole da pinga para enrolar. Senti algo roçando nas minhas pernas, olhei para baixo e dei com dois olhos verdes me fitando. Era Otelo, o gato cinza rajado de preto da família da Viola. Numa cidade infestada de ratos, um gato sempre era útil numa birosca. Se bem que o bicho estava meio velho, mas merecia uma das manjubinhas quando elas chegassem. Ratão continuava pensando, sem se incomodar com o gato. Fiz uma oração para Driano e derramei um pouco de cerveja para o divino.
Rodolfo gritou que as manjubinhas estavam prontas.
Ratão coçou a cabeça, olhou de lado e disse:
“-É caro, coisa de algumas moedas de ouro…”
Engasguei: “algUMAS moedas de OURO?!”
Eu não consegui disfarçar e tão pouco Ratão. Quando a gente teve dinheiro, é difícil para os outros acreditarem que não temos mais. Acho que era essa a certeza do Ratão, mas ao ver minha cara, ele, que sabe ler os outros melhor do que eu, ficou na dúvida. Voltou a pensar. Olhei em volta para recompor meus pensamentos.
Viola vinha na minha direção com a cerveja e o prato de manjubinhas. Foi quando o Medronho chegou nela. O cara era um tipo oblíquo, chegado aos trambiques e roubos de galinhas, um “injustiçado pela vida” – segundo o próprio. Ele chegou atrás dela e falou baixinho, mas eu escuto bem:
“- Viola, tu ta me enchendo de tesão hoje.”
Ela respondeu virando a cabeça rapidamente “- Então se diverte com a sua mão.”, seguiu em frente e colocou a garrafa de cerveja e o pratinho com as manjubinhas na minha mesa.
“- Piranha”.
Não acreditei quando o Medronho disse aquilo. Antes que eu pudesse abrir a boca, a Viola agarrou a garrafa de cerveja e se virou como um raio:
“- Repete, se tu é homem.”
Medronho recuou. Silêncio na birosca. Rodolfo foi saindo do fogão. Ariana pegou uma faca na mesa. Os olhos de Viola fuzilavam. Eu? Fiquei quieto.
“- Esse cara está te incomodando, minha flor?”
Robledo, alto, magro, cabelos castanhos sedosos e cavanhaque aprumado, pele morena e olhos negros apaixonados. Ele era gamado em Viola, que retribuía sua adoração com sorrisos e afagos.
Medronho viu que ia ficar ruim para ele, murmurou umas desculpas e vazou rapidinho. Viola pôs a cerveja na minha mesa, fez um carinho na cabeleira de Robledo e voltou ao serviço. Ratão e eu bebemos e comemos em paz. Ele me disse que logo viria com uma solução e foi-se. Comi então um sanduíche de queijo com azeite e curti a música. Robledo pegou o alaúde, tocou umas canções alegres e outras tristes. Depois sentou-se taciturno a olhar para a noite e para a Viola. Foi-se com uma mulher disposta a confortá-lo. Canta bem, ótimo espadachim, com a solidão triste de um imigrante que ama sem ser amado, muitas vão na esperança de ocupar seu coração ou só sua cama.
Mês da Feiticeira, quarto dia da Trindade.
Uma semana sem notícias do Ratão ou qualquer oferta de trabalho. O dinheiro vem minguando. Não acreditei nos impostos que tive de pagar para manter a casa. Como a inquilina anterior se virava? Se continuar assim, em vez de contratar um moleque terei de levar eu mesmo o barril com os dejetos para jogar no mar. Falam que contratar uma empregada seria mais barato que comer na birosca. E pra mandar embora depois?
Fiquei a semana comprando ervas e preparando poções simples. Isso é mais fácil de vender na moita que amuletos e talismãs, além de mais barato. Mas, se as guildas me descobrem com comércio ilegal…
Sento-me para comer meu almoço de pão, azeite e ovo cozido. Nos últimos dias só tenho ido à birosca para jantar. É mais barato e os jantares são mais animados com a cantoria.
Escuto baterem na porta. Será mais alguém querendo que eu traga a pessoa amada em três dias? Não só não sei fazer isso, como não posso, ©@©&¶&!
Abro, é a Viola trazendo uma cesta com um cheirinho tão bom. Ela sorri, entra mal pedindo licença, põe a cesta na mesa e a abre: frango assado com batatas e uma broa de milho. Tem até uvas! Minha boca começa a salivar.
“- Estou precisando de um serviço seu.”
Eu fico com cara de bobo, um serviço meu. Ela chega perto:
“- O Otelo sumiu. Ninguém consegue achar o danado e minha avó está desconsolada”.
“- O gato? Sumiu? Deve ter sido atropelado, já olharam…”
“- A gente procurou por toda parte. Oferecemos recompensa, ninguém viu um gato morto por ali. E a vó Doca tem certeza que sentiria se o Otelo tivesse morrido. Ela está muito velha, mal sai de casa, o gato é a grande companhia dela.”
“- Já procuraram no templo de Soluna? Ou nas escolas? Tem sempre gente pegando gato para fazer tamborim.”
“- O Robledo já correu todas. Eles agora sempre esperam duas semanas antes de matar os gatos para fazer os tamborins. Ordem do Pai Maior de Soluna.”
“- Sei, o Robledo…”
Ela chegou bem perto de mim. Suada, sorrindo, vestido de chita. Comecei a salivar.
“- Eu soube que a gata do Vlado teve ninhada há poucas semanas. De repente se você levar um gatinho novo pra sua avó. O Otelo já estava tão velho…”
Ela se afastou irritada até a janela, me dando as costas:
“- Minha avó também está bem velha. Você também é um velho amigo, Desiago.”
Andei até ela:
“- Mas… mas, tenha dó, Viola. Como eu vou encontrar um gato nessa cidade enorme?”
Ela virou o rosto, ainda brava:
“- Você não é feiticeiro? Se vira!”
Fiquei parado, sem saber o que dizer, minha mente tentava bolar uma desculpa. Ela se afastou da janela, foi até a mesa, abriu a cesta e deslizou o dedo pelo frango assado:
“- Se você trouxer o Otelo de volta, pode almoçar e jantar de graça na birosca pelo tempo que ele viver e mais um ano”.
Ela colocou o dedo na boca e o chupou enquanto me fitava com os olhos. O vestido de chita. Eu com uma vontade louca de comer.
“- OK. Você venceu, vou tentar encontrar o Otelo.”
Ela sorriu, passou por mim e parou junto a porta, junto a mim:
“- Tentar, não. Vai conseguir ou não vai conseguir.” – e saiu.
Fiquei sozinho. Eu e o frango assado. Dois que logo viraram um.
Peguei minhas coisas e saí. Eu, Desiago Vitrúvio, devoto de Altéa, mago formado com distinção em amuletos e poções após treze anos de estudo na Academia de Magia de Ervantes, fui procurar a p()®®@ do gato numa cidade com mais de um milhão de habitantes!