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	<title>A Gazeta de Ervantes</title>
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	<description>NOTÍCIAS DA TERRA NOVA</description>
	<pubDate>Fri, 17 Feb 2012 16:15:01 +0000</pubDate>
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		<title>Quem é rainha nunca perde a majestade</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 20:16:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[CONTOS, MITOS E LENDAS]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem é rainha nunca perde a majestade
Terra Nova
Ano 2004 da Era da Servidão
O Conselho de Guerra estava reunido no palácio de Augur, em Valência, primeiro reino livre. Eles solicitavam a presença da Rainha e ela iria. Quando estivesse pronta, claro! Já havia tomado seu banho, se perfumado, vestido as roupas adequadas, colocado jóias apropriadas à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem é rainha nunca perde a majestade<br />
Terra Nova<br />
Ano 2004 da Era da Servidão</p>
<p>O Conselho de Guerra estava reunido no palácio de Augur, em Valência, primeiro reino livre. Eles solicitavam a presença da Rainha e ela iria. Quando estivesse pronta, claro! Já havia tomado seu banho, se perfumado, vestido as roupas adequadas, colocado jóias apropriadas à ocasião e escolhido um leque.<br />
Ao sair com suas aias, a Rainha deparou-se com um servo impaciente:<img class="alignleft" title="A Rainha" src="http://www.historias.interativas.nom.br/incorporais/tnova/aiala.jpg" alt="" width="236" height="400" /><br />
- O Rei, o Senhor da Guerra e o Caçador a estão esperando, majestade.<br />
Ela apenas sorriu e respondeu:<br />
- Mas, qual é a pressa de ir a um evento onde eu ainda não estou?<br />
O homem engoliu em seco e foi abrindo as portas pelo caminho. A rainha sorriu, eles julgavam-na fútil e tola, era melhor assim.<br />
O castelo de Augur era de pedra, firme, porém decorado com mais bom gosto do que o de Bóreas. Havia espaço para a flexibilidade, a elegância, um respeito pela beleza. Um castelo que exalava majestade.<br />
Aiala adentrou a sala, todos se voltaram para ela e curvaram-se. Até mesmo Augur, baixou levemente a cabeça. Apenas Bóreas manteve-se reto, firme em sua rigidez de anão. Sua atitude procurava demonstrar desprezo, mas ela sabia que o Senhor da Guerra ainda se lembrava dos tempos que haviam passado nos braços um do outro, por mais que ele quisesse se esquecer.<br />
A Rainha seguiu e sentou-se no trono reservado para ela. Apenas o Caçador lhe parecia indiferente, mesmo o Mensageiro a admirava. Essa atitude do Caçador era um desafio.<br />
Augur apontou para um mapa sobre a mesa:<br />
“- A Senhora Guerreira tem usado bem suas tropas impedindo o avanço do exército da Terra Antiga. Os elfos e anões puristas dividiram suas forças com os primeiros avançando junto ao lago e os segundos junto à Grande Cordilheira. Ainda assim, há um pequeno contingente de elfos com seu senhor junto aos anões e vice-versa, para garantir boas relações e comunicações.”<br />
“- Podemos confiar nos mercenários da Senhora Guerreira? Ou mesmo nela? Sabemos do seu temperamento intempestivo!” – observou Bóreas, o Senhor da Guerra.<br />
“- Ainda ressentido?” – perguntou o Mensageiro sarcasticamente.<br />
O Senhor da Guerra mal conteve sua raiva, esforçando-se por lembrar que os mensageiros eram intocáveis. O Rei apaziguou os ânimos:<br />
“- Ela está realizando bem a tarefa que lhe foi confiada. Diferenças à parte, a Senhora Guerreira acredita na causa. Creio que os anões seguem pela muralha porque com sua maior resistência à sede e ao calor podem cruzar o deserto mais facilmente. Assim poderão chegar até a nascente do Rio Leste e bloqueá-lo, facilitando o cerco do exército dos elfos à Ingá.”<br />
“- Eu também acho que esse é o plano. Eles devem estar planejando tomar a Cidade da Cachoeira, é a única grande fonte de água em seu caminho. Feito isso, podem estabelecer a rota para seus exércitos avançarem, consolidando seu domínio sobre as cordilheiras e atacando Ingá. Só há uma coisa a fazer.” – disse Bóreas concordando com o irmão.<br />
“- Sim, destruir a Cidade da Cachoeira. Assim, não terão alimentos pra colher ou prédios para se abrigar do sol. Talvez possamos até mesmo bloquear a nascente.” – observou Augur.<br />
Foi quando ela se ergueu:<br />
“- Como assim?! Eu sou a Rainha da Cidade da Cachoeira! Vocês querem destruir a minha cidade? Os jardins, palácios, a biblioteca, as obras de arte? E o meu povo?”<br />
O Senhor da Guerra olhou duro para ela:<br />
“- Apesar de você tê-los colocado em último lugar, nós estamos pensando primeiro em seu povo. Eles não tem condições de enfrentar um exército de anões. O povo de meu pai é de guerreiros ferozes e disciplinados, dominam a engenharia militar. A única defesa de sua cidade são as muralhas que eles conseguirão derrubar em menos de um mês com seus aríetes e catapultas. No caminho há poços nos quais eles coletarão a água necessária para manter o cerco. Vocês devem queimar os campos, destruir o açude e fugir enquanto é tempo.”<br />
O Rei aproximou-se dela:<br />
“- Minha querida, veja bem. A cachoeira da sua cidade não é grande. Seu povo fez um açude e construiu vários poços onde armazenou a água dela e das poucas chuvas que recebem. Irrigando bem, vocês criaram um paraíso pacífico no deserto, pois são poucos que podem chegar até vocês. Por isso suas muralhas bastavam até agora. Mas, esses anões estão acostumados a marchar com pouca água. Eles beberão dos poucos oásis pelo caminho, derrubarão suas muralhas e dominarão sua cidade. Os oficiais querem a localização estratégica e os soldados querem saquear o ouro que vocês usaram em suas estátuas e decorações. Porém, se o açude for destruído, as plantações queimadas e a cidade abandonada, mesmo com o ouro, eles terão poucos recursos. Poderão beber da cachoeira, mas avançarão bem mais lentamente, nos dando chance de contra-atacar.”<br />
A Rainha ouvia com lágrimas nos olhos. O Senhor da Guerra prosseguiu:<br />
“- Os anões são liderados pelo general Ymir Rugnar, um grande general que jamais foi derrotado. Os elfos, por Duque Vanel, sobrinho e primeiro herdeiro do rei Aellus II. Você não tem chance contra eles, é hora de recuar como a maré vazante.”<br />
“- Querida, pense bem” – disse o Rei calmamente.<br />
Aiala percebeu os olhares condescendentes, sabia que qualquer proposta dela não receberia atenção. Ela então retirou-se apressadamente. A Rainha ainda ouviu o Rei dizer que não se preocupassem, pois ela cumpriria com seu dever. Aiala partiu para sua cidade naquela mesma noite.</p>
<p>Durante a viagem, a Rainha recolheu-se em sua cabina. As ondas a embalavam. O navio subiu pelo rio Leste para a Cidade da Cordilheira. De onde ela partiria para sua cidade. A Rainha era bela, diziam que era filha do Sol e das águas. Ela amava a beleza, roupas finas, a boa comida, os bons modos. E amava seu povo, pois pode haver algo mais belo que o amor? Amava a cidade que eles haviam construído no deserto. Cidade que ela fizera crescer, que embelezara. A Rainha amava as crianças, amava a música, as artes, amava a vida. Como poderia pedir a seu povo que destruísse tudo e partisse? Mas, como salvá-los? Ela pouco entendia das artes da guerra. Conhecia a esgrima, pois era uma arte. Mas, da guerra sempre quisera distância.<br />
Ela olhou para as águas. Um pensamento lhe veio à mente. Ela pouco sabia da guerra, mas muito conhecia dos homens. Talvez aí estivesse a resposta para salvar sua cidade.</p>
<p>Alguns dias depois<br />
Os portões se abriram e o povo entusiasmado saudou sua Rainha. Jogavam flores, cantavam e tocavam música, erguiam suas crianças para vê-la. Aiala tinha lágrimas nos olhos. Seu plano tinha que dar certo, tinha que dar!<br />
Ela adentrou o palácio e convocou seu conselho. O vizir, governante na sua ausência, ficou surpreso:<br />
- Mas, majestade. A senhora sempre toma um banho e descansa quando chega. Foram duas semanas cruzando o deserto com a caravana! Preparamos uma refeição leve com frutas e queijos e as águas da banheira estão sendo aquecidas e perfumadas enquanto lhe falo.<br />
- Está bem, agradeço a gentileza. Tomarei um banho rápido, enquanto isso reúna o conselho e nós conversaremos durante a refeição.<br />
O vizir retirou-se rapidamente. A voz da rainha era doce, mas não admitia contestação, como os rios que trazem a cheia das montanhas.<br />
Aiala relaxou brevemente na banheira, repassando seus planos em sua mente. Ela olhou seus quadros, suas esculturas e ouviu a música. Ergueu-se foi até a varanda para olhar a praça, os jardins mantidos com cuidado, as flores. Em sua mesa havia um belo arranjo com cactos que davam lindas flores e uma bandeja com frutas arrumadas com todo cuidado. Ela mordeu um pêssego “Vai dar certo”, pensou e uma lágrima desceu por sua face.</p>
<p>O conselho ouviu incrédulo o plano da Rainha. Vargo, o chefe da guarda, Miranda, senhora da magia, Timuz, o conselheiro, Lúcio, senhor das finanças, Catrina, sumo magistrada, Valina, arquidruida, Mosco, o vizir. Todos olhavam para ela sem dizer uma palavra.<br />
A Rainha sorveu um gole de vinho.<br />
Silêncio.<br />
Vargo tossiu.<br />
Miranda olhou para o céu pela janela.<br />
- Majestade, o plano é insanamente perigoso! – exclamou Timuz – Armadilhas, caçadores atacando em vez de guerreiros, destruição dos nossos próprios poços!<br />
- Nossas tropas não tem como vencer o inimigo em um confronto direto. Nesse ponto eu concordo com a Rainha. – argumentou Vargo.<br />
- Então talvez devamos fugir como propõe Augur. Ou então subornar nossos inimigos. Temos ouro para isso! – gemeu Timuz<br />
- Ou quem sabe? Seduzi-lo? – sorriu Miranda.<br />
Antes que todos começassem a falar ao mesmo tempo, a Rainha fez um gesto e se ergueu:<br />
- Quem desejar partir é livre para fazê-lo, mas saiba que estará deixando sua rainha para trás. Eu ficarei para defender a cidade.<br />
Silêncio.<br />
- Senhoras, senhores, eu prezo muito seu serviço, amo todos vocês. Porém, sei que é uma decisão difícil. Os exércitos anões e élficos puristas são poderosos e Ymir Rugnar é um comandante perigoso, bem como Dom Vanel. Por isso, se desejarem partir eu não amarei vocês menos por isso. Tirem a tarde e a noite para pensar. Amanhã de manhã eu terei o desjejum com quem decidir ficar.<br />
Aiala retirou-se da sala deixando seu conselho e foi até o jardim, admirar as flores, refrescar-se nas fontes e guardar forças na beleza e no carinho, pois os dias por vir seriam difíceis.</p>
<p>Na manhã seguinte, a Rainha estava parada diante da porta que levava até a Sala do Conselho. Ela corria dos dedos pelo mogno, admirava os entalhes, sentia o aroma da madeira envernizada. Por fim, não pôde adiar mais.<br />
A porta abriu e ela entrou. Na sala, pessoas do seu conselho a aguardavam. Vargo, o chefe da guarda, Miranda, senhora da magia, Lúcio, senhor das finanças, Catrina, sumo magistrada e Valina, arquidruida.<br />
Sentaram-se então para comer e planejar.</p>
<p>No deserto, semanas depois.<br />
O Duque Vanel estava cansado, sedento, nervoso e exasperado. Ele não podia dizer se Ymir sentia as mesmas coisas, mas o anão estava ainda mais carrancudo do que de costume.<br />
- Duas semanas de calor estorricante nesse deserto! – reclamou Vanel – Todo poço que encontramos destruído. Todo oásis sem água sabe-se lá como. Flechas no meio da noite atingem nossos soldados. Quando vamos perseguir os atacantes, encontramos miragens! Sem falar nas malditas armadilhas por toda parte!<br />
- Os covardes se recusam a nos enfrentar. Preferem usar a tática da terra devastada.<br />
- E está funcionando, Ymir. Eu estou devastado!<br />
- Chegaremos à Cidade da Cachoeira em dois dias. Nossos suprimentos ainda agüentam pelo menos mais dez dias. A Rainha Aiala é fraca e medrosa, não suportará um cerco prolongado. Quando nossas catapultas atirarem pedras contra os muros da cidade ela chorará e virá correndo para se render.<br />
- Tomara que você esteja certo!<br />
- Estou.<br />
Dom Vanel decidiu esquecer a arrogância do anão tomando um gole de vinho.</p>
<p>Três dias depois<br />
- Majestade. O exército inimigo chegou e estão em maior número do que esperávamos. As catapultas estão sendo montadas. Se vamos tirá-la da cidade tem que ser agora!<br />
- Eu agradeço sua dedicação, Vargo, mas vou ficar.<br />
- Recebemos uma mensagem de Bóreas por um pombo-correio. Ele ordena que a Senhora se retire, pois se for forçada a se render será uma refém valiosa para os inimigos.<br />
- Eu não recebo ordens do Senhor da Guerra.<br />
Enquanto Vargo se retirava contrariado, Aiala foi até a torre mais alta da fortaleza. De lá avistou o exército que cercava sua cidade. Ela podia sentir o medo em seu povo e por isso precisava parecer confiante para quem a visse em sua torre.<br />
O vento trouxe-lhe as vozes daqueles que cantavam aos elementos, para que as forças da Natureza sorrissem para eles. A cantoria seguiria por horas, encorajada pelos druidas. Os elfos e anões puristas falavam de deuses misteriosos, com desígnios imperscrutáveis, cujos planos atingiam as vidas dos mortais. Não se sabia se valia a pena orar para eles.<br />
- Precisamos de deuses que compreendam o que significa a mortalidade. A dor e a alegria de estar vivo. De sentir a paixão dos casais, o riso da amizade o calor de uma criança que é sua em seus braços. – suspirou Aiala.</p>
<p>Uma semana depois<br />
Dom Vanel acordou exausto em sua tenda. Seus companheiros, elfos da nobreza, também pareciam, como diria Ymir, devastados.<br />
“Faz calor durante o dia, frio à noite, sempre há essa sede, tudo parece seco. E areia por toda parte!” Dom Vanel se serviu mais um gole de vinho, pois a água estava no fim. Ele saiu de sua tenda, acompanhado por sua escolta.<br />
Pouco a frente, de pé sobre uma elevação, estava o general Ymir Rugnar, fitando furiosamente as muralhas da Cidade da Cachoeira, como se quisesse fazê-las ruir pela força de seu olhar.<br />
- Eles estão se saindo bem para um povo mole comandado por uma rainha medrosa, não é mesmo? – sorriu Vanel.<br />
Ymir deu-lhe um olhar fulminante.<br />
- Não falta muito agora. A cidade vai se render logo. Senão, amanhã faremos um ataque maciço com aríetes e escadas. Uma vez lá dentro, tomaremos a cidade sem problemas.<br />
Vanel apenas ergueu os ombros e bebeu mais um trago.<br />
- Eles não tem fosso, o que seria de se esperar estando no deserto. E se a cidade tiver tanto ouro quanto dizem, terá valido a pena.<br />
Os olhos de Ymir brilharam por um instante, mas ele logo se recompôs.<br />
- O importante é seu valor estratégico. Daqui tomaremos Ingá.<br />
- Claro. – Vanel havia visto o brilho nos olhos de Ymir “A cobiça dos anões” pensou.</p>
<p>Aiala  reclinou-se em seu trono, lutando para controlar sua dor de cabeça e passar confiança ao seu conselho.<br />
- Senhora, eles preparam um ataque de grande força amanhã. Não sei se poderemos resistir – disse Vargo com voz cansada – talvez seja melhor considerarmos outras opções.<br />
- Logo. Encontraram Mosco? – perguntou a Rainha<br />
- Sim, ele estava tentando fugir várias moedas de ouro e jóias. A pena é a morte. – respondeu Catrina.<br />
- Que ele seja colocado em um calabouço com várias moedas de ouro para contar até o fim de seus dias. Eternamente contando um dinheiro que nunca será dele.<br />
Catrina assentiu com a cabeça.<br />
- Senhora, as reservas deles duraram mais do que prevíamos e&#8230;- continuou Vargo.<br />
Aiala apenas sorriu:<br />
- Meus queridos e minhas queridas, é hora de usarmos outra estratégia.</p>
<p>Dom Vanel foi acordado por um de seus guardas:<br />
- Senhor Duque, o General pede sua presença imediata!<br />
O exausto, sedento, faminto, cansado, empoeirado, louco por um banho, Duque Vanel vestiu-se e foi ao encontro do severo, inflexível, temperamental, sedento, faminto, louco por uma cerveja, General Ymir Rugnar.<br />
Dom Vanel rapidamente percebeu que os homens estavam muito agitados. “Aliás, eu gostaria muito de ter trazido mulheres nessa missão, mas os anões insistiram que elas nunca resistiriam à travessia no deserto. O Ymir então foi inflexível dizendo que elas só iriam retardar a caminhada, ficar pedindo água essas coisas. Esse chato deve ser um ás no uso da mão ou então&#8230;”<br />
Vanel foi arrancado de seus devaneios pela voz rude de Ymir:<br />
- O que acha disso?<br />
Dom Vanel olhou para onde o anão estava apontando e ficou extasiado. Cestas e cestas com frutas, hortaliças, frangos assados e doces. Tonéis com água e vinho. Baús com moedas de ouro. Sua boca salivava, seus olhos brilhavam. Ele percebeu que os oficiais mal podiam se conter, quanto mais aos soldados.<br />
- Eles se renderam?<br />
- Emissários vieram com bandeira branca dizendo que são presentes da Rainha.<br />
- Deve ser o primeiro passo para abrir negociações. Essas provisões chegaram bem a tempo.<br />
- Por mim enterramos tudo na areia. Isso mostraria a eles nossa determinação e a Rainha se renderá no dia seguinte!<br />
Ymir falou baixo, mas os oficiais que ouviram sussurraram para os demais e logo todos estavam aos berros protestando. Muitos avançaram para a comida e ele ordenou sem pestanejar:<br />
- Executem os amotinados!<br />
Uma dança louca correu ao redor de Dom Vanel que mal conseguia se encontrar no meio dela. Ao final, quase uma centena de soldados entre anões, elfos e humanos leais estavam mortos. A rebelião fora contida a um alto custo.<br />
- Ymir, pense bem. A cidade também já deve estar no final de seus recursos. Vamos testar os alimentos para ver se estão envenenados e se não estiverem distribui-los entre os nossos soldados que foram tão leais até agora.<br />
Ymir manteve-se em silêncio. Dom Vanel seguiu seu olhar e viu que o general o mantinha fixo nos baús com ouro. Depois se virou para os soldados e viu que muitos ainda olhavam para o general com ódio<br />
- Acho que você deve levar os baús até sua tenda e contar o ouro – prosseguiu Vanel –assim poderá distribuí-lo da melhor forma para que alcancemos a vitória. Enquanto isso nossos homens podem celebrar a queda iminente da Cidade da Cachoeira com uma bela refeição!<br />
O argumento funcionou. Ymir cedeu e levou os baús para sua tenda. Magos elfos dedicaram-se a testar os alimentos e logo informaram que eles estavam próprios para o consumo. Dom Vanel separou os melhores acepipes para si e seus oficiais e deixou que os soldados avançassem como um estouro de boiada sobre os presentes de Aiala.<br />
Naquela noite Dom Vanel comeu e bebeu bem, depois dormiu melhor ainda.</p>
<p>Na manhã seguinte, Dom Vanel acordou com a boca seca e o estômago queimando. Ergueu-se com dificuldade e foi cambaleando até o urinol onde deixou uma mistura dolorida de fezes e sangue.<br />
Dom Vanel sentiu o fedor ao seu redor. Dos seus seis guardas, dois estavam mortos e os demais em estado igual ou pior ao seu. Ele saiu da tenda e quase caiu desmaiado com os sons dos gemidos de dor, o fedor da morte e a visão do desespero.<br />
Centenas de homens contorciam-se pelo chão, centenas já estavam mortos. Como isso era possível? Os magos haviam garantido que os alimentos e bebidas não tinham veneno. Dom Vanel agarrou um dos poucos oficiais que estava de pé, caminhando como um perdido:<br />
- O general! Onde está o General Ymir?<br />
- Morto! Todos os oficiais anões estão mortos! Estamos todos morrendo.<br />
Dom Vanel largou o homem, ajoelhou-se e vomitou. Um mago cambaleou até ele, desabando a seu lado:<br />
- Perdoe-me, Sua Graça. Eu falhei.<br />
- Como? Como ela fez isso?<br />
O elfo morreu sem responder. Dom Vanel conseguiu se levantar e dar algumas ordens. Foi quando viu uma comitiva vindo da cidade. Ele olhou ao seu redor, mas não conseguiu pensar em ordens que fizessem sentido.<br />
O líder da comitiva se aproximou:<br />
- Saudações, Senhor Duque Vanel Aver Orvat. Eu sou Dom Vargo, comandante da guarda da cidade. Sua Majestade Rainha Aiala o convida para uma audiência.<br />
Vanel ia responder, mas teve que se curvar e vomitar novamente. Dessa vez saiu sangue.<br />
- Sua Majestade sugere que o Senhor Duque se apresse.</p>
<p>Um mês depois.<br />
O Conselho de Guerra estava reunido novamente em Valência. Augur caminhava nervosamente pela sala, observado por Bóreas, Zinga, Seldzar e Altéa.<br />
- O Mensageiro liquidou o general Valiano dos elfos. – informou Seldzar.<br />
- Driano é insuperável nas sombras. Sorrateiro como um gato e letal como um escorpião. – comentou Augur.<br />
- Não gosto desses métodos, mas não posso negar que são eficientes para gerar confusão entre as tropas. – comentou Bóreas.<br />
- Eu matei em combate singular os dois últimos campeões que os elfos e os anões puristas enviaram. Prefere isso? – observou Zinga – Com isso a cidade de Inara se rendeu logo e poupamos nossas tropas.<br />
- Você se arrisca muito. E se tivesse perdido? – resmungou Bóreas.<br />
Zinga apenas sorriu. Todos sabiam que ela tnha usado dessa tática com sucesso com Bóreas, valendo-se do orgulho do anão.<br />
- Dois magos elfos viajaram pelo plano astral para me atacar em meus sonhos. – informou Altéa.<br />
- E? – perguntou Augur<br />
Altéa apenas sorriu e mostrou uma pequena bola de cristal enfumaçada. Quem olhasse de perto às vezes tinha a impressão de vislumbrar vultos gritando e batendo com as mãos contra suas curvas paredes.<br />
- E Aiala? O que sabem da Cidade da Cachoeira? – inquiriu Augur<br />
- As últimas notícias é que a cidade estava cercada pelas forças conjuntas de Dom Vanel e do general Ymir Rugnar. – respondeu Seldzar.<br />
- Não é o maior exército deles, mas é de longe o melhor. Tropas experientes e muito bem treinadas – comentou Bóreas – eu temo pelo pior.<br />
Augur sentou-se tenso em seu trono. Os demais mantiveram silêncio.<br />
- Senhor! – um tenente entrou correndo na sala – Senhor, meu Rei! Uma pequena esquadra da Rainha está atracando!<br />
Augur ergueu-se de um salto e correu até a entrada do palácio, seguido de perto pelos demais. De lá ficou observando o que acontecia.<br />
Em pouco tempo uma procissão subia pela rua principal até o castelo. Aiala vinha em sua liteira dourada. Um homem caminhava ao lado dela. Quando chegaram perto, Aiala desceu da liteira e caminhou sorridente até eles. O homem era um elfo. Ele usava um cordão de ouro apertado no pescoço com algo inscrito nele. O elfo estava ricamente trajado, vestido e perfumado e quando chegou perto todos puderam reconhecê-lo como o Duque Dom Vanel, herdeiro do rei Aeolus II.<br />
Augur e Altéa deram largos sorrisos, Zinga, um leve sorriso, Seldzar manteve-se impassíel, Bóreas ficou de boca aberta.<br />
Aiala aproximou-se radiante, linda como a manhã. Vestia um belo vestido dourado, jóias de várias cores, os cabelos cacheados corriam perfumados pelas costas.<br />
- Majestade. – disse ela ao chegar até Augur.<br />
- Bem vinda Rainha Aiala. – respondeu o Rei<br />
Neste momento Dom Vanel ajoelhou-se diante da Rainha Aiala, abaixou a cabeça e segurou os joelhos dela com as mãos. Augur ficou surpreso, mas sorriu. Bóreas ficou ainda mais boquiaberto. Com o gesto Dom Vanel rendia-se de forma absoluta à Aiala, negando-se a tentar fugir e comprometendo-se a jamais atacá-la, ao mesmo tempo em que se colocava sob sua proteção. Aiala sorriu e fez um cafuné em Vanel:<br />
- Querido, levante-se. Isso não era necessário.<br />
(Claro que era).<br />
Dom Vanel levantou-se e seguiu Aiala para dentro do palácio.<br />
- Feche a boca. – disse ela sorrindo ao passar por Bóreas.</p>
<p>Semanas depois<br />
Aiala espreguiçava-se entre os lençóis de cetim da cama de Augur. O Rei servia para ela um cálice de vinho:<br />
- Eu gosto mais de cerveja escura, mas sei que você aprecia um vinho e certamente fez por merecê-lo.<br />
Aiala bebeu com prazer.<br />
- Vanel está indo para a Ilha Esmeralda em exílio levando todos os seus seguidores e parentes diretos. Isso foi um grande golpe para os elfos. É claro que o ouro do resgate também veio bem a calhar.<br />
Aiala sorriu:<br />
- Isso não é tudo. Agora todas as uniões da alta nobreza élfica tem que ser aprovados por mim ou por quem eu determinar. As uniões entre as grandes famílias deles estão nas minhas mãos.<br />
Augur ergueu seu copo em saudação à Rainha.<br />
- E como fez isso? Como conseguiu tapear os magos elfos e envenenar a comida?<br />
Ela sorriu marota:<br />
- O veneno não estava na comida ou na bebida. Estava na combinação de ambos. O veneno do ouro era mais letal, mas só se ativava com a luz do sol.<br />
Augur deu uma gargalhada e curvou a cabeça em respeito à astúcia de Aiala.</p>
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		<title>Celebridades: personagens da Terra Nova</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Jan 2012 21:38:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mestra L.</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[CELEBRIDADES]]></category>

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		<description><![CDATA[Conheça as pessoas e criaturas que fazem a diferença!
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		<title>Desiago e Otelo - parte final da primeira Desventura</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 21:51:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[AS DESVENTURAS por Desiago Vitrúvio]]></category>

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		<description><![CDATA[
Mês da Feiticeira, quarto dia da Rainha e da Matriarca.

Ontem passei a tarde toda me informando das coisas para tentar achar o bichano. Otelo estava sumido há quatro dias, não voltara para a birosca à noite no quarto dia do Mensageiro. Os moleques da região não tinham visto o corpo de nenhum gato por ali [...]]]></description>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><strong>Mês da Feiticeira, quarto dia da Rainha e da Matriarca.</strong></p>
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<p class="MsoNormal">Ontem passei a tarde toda me informando das coisas para tentar achar o bichano. Otelo estava sumido há quatro dias, não voltara para a birosca à noite no quarto dia do Mensageiro. Os moleques da região não tinham visto o corpo de nenhum gato por ali e o Robledo confirmou que nas escolas e templos o gato não estava. Que fazer? O pior foi quando visitei a vó Doca, a velhinha se animou toda quando me viu. Ela me conhece desde criança, sentei várias vezes no seu colo para ouvir histórias quando era moleque. Doca estava com olhos tristes, mas ao me ver, sorriu e disse: “- Você veio! Agora sei que o Otelo vai voltar.” Pô, precisava ter dito isso.</p>
<p class="MsoNormal">Resolvi sair para bater perna um pouco. Era primavera, as ruas de Ervantes estavam sujas e cheias de gente como sempre, mas pelo menos não tinha aquele calor infernal que fazia levantar um odor fétido das ruelas.</p>
<p class="MsoNormal">Passei pela fonte, pelos milicianos com suas armaduras de couro. Quando eu era menino, como muitos, sonhava em ser miliciano. Adorava vê-los passar com aquelas armaduras de couro todas trabalhadas. Como só os nobres podem usar cota de malha, os milicianos enfeitam suas armaduras de couro com argolinhas de metal, pedras semipreciosas, tirinhas de couro ou de pano. A idéia seria formar uma bruina, armadura de couro com argolas de metal, mas muitos são vaidosos e querem se mostrar. Outros mandam inscrever na armadura talismãs de proteção, a divindade de devoção, um lema ou o nome da pessoa amada. Dependendo do gosto e do jeito, fica até mais bonito que uma cota de malha ou um espantalho mambembe de retalhos. Bom, como disse, quando menino eu queria ser um miliciano quando crescesse, só que não cresci o bastante. Daí, eu virei feiticeiro com o financiamento do meu pai de sangue.</p>
<p class="MsoNormal">Quando dei por mim, estava de volta ao bairro de onde tinha saído. Foi quando vi Viola saindo da casa de Madame Zoraide. Fui ter com ela. Estava com a cabeça tão quente que nem me viu e tomou um susto quando a chamei segurando-lhe o braço:</p>
<p class="MsoNormal">“- Viola, o que você estava fazendo com Madame Zoraide? Ela não é de confiança!”</p>
<p class="MsoNormal">Viola soltou o braço de mim, me encarando com um olhar atrevido de desafio. Não sei porque, mas nesse momento me dei conta de que ela é quase da minha altura.</p>
<p class="MsoNormal">“- Você já encontrou o Otelo? Pelo menos ela me disse que ele está vivo!”</p>
<p class="MsoNormal">“- Mas, isso sua avó já tinha dito&#8230;”</p>
<p class="MsoNormal">“- Desiago, não me enche a cabeça e faz seu serviço.”</p>
<p class="MsoNormal">Ela se virou e foi embora brava, tempestuosa, e eu parado, fascinado. Babaca. Olhei em volta com aquela certeza interior de que todos tinham me visto fazer esse papel de bobo e estavam rindo baixinho às escondidas. Todo usuário de magia acha que ele é o centro do universo. Então entrei na casa de Madame Zoraide.</p>
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<p class="MsoNormal">A casa era maior que a minha (sacanagem!), logo na entrada tinha uma mesa com duas cadeiras numa das paredes e uma mesinha alta com um incensário na outra. Vi um embrulho na mesa e senti o cheirinho inconfundível dos bolinhos de bacalhau do Rodolfo. Eu já estava com fome e aquilo me deu água na boca. Quando meus olhos se acostumaram à penumbra, percebi que Zoraide tinha feito algo interessante: ela tinha armado uma tenda dentro da casa! Um véu marcava a passagem entre os dois ambientes, ao fundo podiam se ver almofadas, um baú, uma cama (cama? A mulher está faturando&#8230;) mesinhas etc. Na abertura da tenda tinha uma mesa com uma cadeira para a consulente fora da tenda e outra para Madame Zoraide dentro da tenda.<span> </span>Tive que reconhecer que tinha ficado legal. Eis uma mulher que sabe viver do “vejo passado, presente e futuro + trago de volta a pessoa amada em seis dias”. Avancei em meio à mistura de cheirinho de bolinho de bacalhau e aroma de incenso. Senti um movimento, era Zoraide, ela veio, me viu e parou surpresa.</p>
<p class="MsoNormal">Madame Zoraide era uma mulher de trinta e muitos a quarenta e poucos anos, alta, mais alta do que eu, cabelos negros sedosos, pele pouco morena, olhos negros como a noite, elegante e de corpo voluptuoso. Ela não foi para a mesa, mas sentou-se recostada entre as almofadas e perguntou com um sorriso zombeteiro:</p>
<p class="MsoNormal">“- Em que posso ajudá-lo, Mestre Desiago?”</p>
<p class="MsoNormal">“- Pode começar não explorando o desespero de minha amiga Viola.”</p>
<p class="MsoNormal">Zoraide ergueu as grossas sobrancelhas com ar inquisidor, sorriu, virou-se para o lado e esticando o braço serviu-se de um pêssego de uma cestinha. O movimento fez tilintar as várias argolinhas de seu vestido bem como as pulseiras do braço. O tilintar me fez reparar no vestido de cetim preto, ao qual ela havia adicionado um casaquinho diáfano e várias argolinhas e sininhos em pontos estratégicos. O vestido tinha um decote generoso onde se aninhava um colo bem feito no qual detive meu olhar, descendo-o até o quadril e as coxas e subindo novamente qual rolha de poço até ver o colar com pedrinhas brilhantes e, subindo, me deparar com o olhar saliente de Zoraide. Respirei e ela prosseguiu:</p>
<p class="MsoNormal">“-Todos temos nossos defeitos, não é Desiago? Alguma você deve ter feito para ter sido expulso da Academia de Magia.”</p>
<p class="MsoNormal">“- Não é de mim que estamos falando. Eu te conheço desde quando você era apenas Zoraide, antes de se fingir de membro do povo nômade. Eu não a denuncio como trambiqueira por causa da sua amizade com minha mãe.”</p>
<p class="MsoNormal">Zoraide se levantou, caminhou até um baú e retirou dele uma garrafa de vinho e duas canecas. Encheu-as, serviu-se de uma e entregou a outra a mim enquanto olhava profundamente em meus olhos. Ela não era bonita, mas também não era feia e seus olhos tinham uma força, senti-me perder neles, prestes a recostar numa almofada e&#8230;NÃO!<span> </span>Recuei um passo, num espelho de vidro havia a pintura de uma aranha no centro de uma teia. Ela sorriu e bebeu mais um gole:</p>
<p class="MsoNormal">“- Que foi? Eu te perturbo?”</p>
<p class="MsoNormal">“- Percebo que nem tudo a seu respeito são trambiques. Você tem habilidades&#8230; mas, eu também!”</p>
<p class="MsoNormal">Zoraide apenas me encarou com aqueles olhos:</p>
<p class="MsoNormal">“- Você tentou dar um passo maior que a perna, não foi?”</p>
<p class="MsoNormal">Gelei.</p>
<p class="MsoNormal">Bebi o vinho, era ótimo.(Que saudades dos já velhos tempos).</p>
<p class="MsoNormal">“- Zoraide, Viola não tem dinheiro e a Vó Doca&#8230;”</p>
<p class="MsoNormal">“- Já sei, já sei – ela afastou o assunto abanando uma das mãos – Fique tranqüilo, gosto da Vó Doca. Só lhe dei esperanças, também é meu trabalho.”</p>
<p class="MsoNormal">Não tinha mais o que falar. Terminei o vinho, devolvi a caneca, agradeci e quando já saía ela me disse:</p>
<p class="MsoNormal">“- Apareça mais tarde para tomarmos um copo.”</p>
<p class="MsoNormal">Apenas sorri e caí fora.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Na praça, as pessoas se encaminhavam para o almoço. Na fonte, lá estava Robledo com seus amigos de Lutécia. É fácil reconhecer os lutecianos, eles têm meio que um padrão de se vestir com camisas folgadas de mangas largas e com golas em V. Além disso, costumam usar cabelos longos, bigodes e cavanhaques e tem aquele sotaque típico nasalado. Robledo tinha sido um jovem tenente da guarda de Lutécia há apenas dois anos atrás, mas quando a cidade foi saqueada pela mercenária Tiana em 3998, ele e outros oficiais foram demitidos por incompetência. Sem conseguir emprego em Lutécia, alguns se empregaram como mercenários na Monarquia Góia. Aí, no ano seguinte o ducado de Victória declarou sua independência da Monarquia sob a liderança de Durandaus tendo Tiana como aliada. Houve guerra, a Monarquia foi derrotada, Victória virou um principado independente e aliado de Valência. O novo monarca culpou os mercenários pela derrota e lá vieram os lutecianos para Ervantes, capital de Valência. Homens e mulheres de grandes alegrias e imensas tristezas. Passei por eles enquanto conversavam sobre reminiscências:</p>
<p class="MsoNormal">“- Aquela bruaca é uma bruxa. Usou uma dragonesa pra defender Victória e um monstrengo gigante para derrotar o exército monarquista junto ao Lago Lunara.” – disse um.</p>
<p class="MsoNormal">“- Numa luta justa qualquer um de nós ganhava dela.”</p>
<p class="MsoNormal">Robledo me viu, pediu licença aos amigos e veio ansioso:</p>
<p class="MsoNormal">“- Achou o Otelo?”</p>
<p class="MsoNormal">Suando, um pouco tenso, com cheiro de vinho “<em>Sang du Bois</em>”, era claro que Robledo desejava ardentemente encontrar o gato e devolvê-lo à Viola. Logo, não queria de jeito nenhum que eu encontrasse Otelo antes dele. Pude responder sinceramente:</p>
<p class="MsoNormal">“- Ainda não e confesso que estou sem idéias sobre como achá-lo.”</p>
<p class="MsoNormal">Robledo sorriu, tentando disfarçar seu alívio, fez um olhar de cumplicidade e tocando no meu ombro convidou-me a tomar um trago com os amigos. Olhei para eles. Não é que eu seja preconceituoso contra os lutecianos, mas eles cheiram a azeite e falam alto demais. Nada contra azeite no pão com um queijinho e uma salsinha, mas caatinga, papo furado e vinho barato não são pra mim. Desculpei-me e segui meu caminho.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Caminhei para um bairro melhor, matando as saudades das casas grandes e bonitas, ruas limpas e poucos mendigos. Milicianos e comerciantes locais me reconheceram, alguns me cumprimentaram, outros me ignoraram. Sentei-me junto à fonte de Aiala. Suspirei.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O estômago roncava. Hora do almoço. Contei meus trocados, olhei em volta. Comeria ali ou desceria para a cidade baixa onde tudo era mais barato. Foi quando avistei Mileno e Dom Varano caminhando em direção à fonte.</p>
<p class="MsoNormal">Mileno era um miliciano típico, um dos guardas responsáveis por manter a ordem e a lei na cidade. Um cara que aceita um trabalho mal remunerado, malvisto pelas pessoas e que às vezes é um tanto perigoso, pelo poder de prender gente.</p>
<p class="MsoNormal">Dom Varano era um paladino palaciano, um membro da nobreza escolhido pelo deus Augur, o Rei, para ser um de seus campeões na terra. Alto e bem humorado, com a beleza típica da nobreza com seus cabelos negros cacheados e pele morena, Dom Varano era amigo de muita gente, o que felizmente incluía a mim, e tinha muito dinheiro, mais felizmente. Ele me viu, sorriu e me convidou para almoçar. Felicidade total.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Eu e Dom Varano entramos na taberna da Figueira (tinha que ser) e fomos nos juntar a um grupo de amigos dele. As mesas e bancos de maçaranduba, mesas menores nos cantos, atendentes, cheiro de boa comida, que tristeza&#8230;Era aqui que eu comia, era aqui que eu bebia, era aqui que eu vivia!</p>
<p class="MsoNormal">Três homens nos aguardavam, claro que dois tinham que ser da Academia e meus ex-colegas, o terceiro era um elfo de Elvenar. Sentamo-nos. Vizigo me deu um olhar de escárnio:</p>
<p class="MsoNormal">“- Salve Mestre Desiago. Não o temos visto mais, cheguei a pensar que tinha deixado Ervantes.”</p>
<p class="MsoNormal">“- Não, eu gosto dos ares daqui.”</p>
<p class="MsoNormal">“- Essa é nova.” – retrucou Ernando rindo.</p>
<p class="MsoNormal">Por polidez e normas da Academia, ninguém pode conversar sobre minha expulsão comigo ou com não-acadêmicos. Achei que com isso ia ficar a salvo de ser o alvo da conversa. Qual&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">Vizigo e Ernando apresentaram Denadar, seu convidado elfo para nós.</p>
<p class="MsoNormal">“- É um prazer conhecê-los.” – disse ele estendendo sua mão fina e fria primeiro para Dom Varano e depois para mim. Não foi um aperto de mão agradável.</p>
<p class="MsoNormal">Veja bem, não é que eu tenha preconceito contra elfos é que&#8230;bem, eles não são humanos. Você convive com eles, ri, brinca, trabalha com eles e esquece quem eles são até ser lembrado. E não precisa ser com os anos em que eles envelhecem muito mais lentamente que nós. É quando surge um olhar, uma atitude, uma fala, algo que revela que aquele ser tem uma natureza não humana. Ainda mais aquele que vinha da Magocracia Elvenar, lá do norte, para onde foram os elfos que não quiseram se misturar com os humanos. Os elfos de Alistae são morenos, os que moram nos Reinos do Sul mais ainda, os elfos navegantes da Ilha Sol então são bem negros. Todos normalmente de grande beleza. Mas, esse Denadar era um típico “elfo puro” como eles se chamam em Elvenar. De pele branca que nem cera, cabelo loiro manteiga lambido da vaca, tão liso que parecia que ia escorregar-lhe dos ombros até o chão, olhos azuis claríssimos. Enfim, feio que nem um fantasma.</p>
<p class="MsoNormal">Fizeram os pedidos. Denadar, por ser de Elvenar era vegetariano e não tinha dentes caninos. Foi de salada. Dom Varano pediu para todos nós picadinho de carne de ogro. Prato caro. Carne de ogro sempre é cara. Rico quando quer comer picadinho pede os ingredientes mais caros para se dizer elegante e não popular. Apesar do preço, a carne de ogro vinha crescendo em popularidade e enriquecendo Bertáquia. Enquanto esperávamos a iguaria, claro que a conversa voltou-se para mim.</p>
<p class="MsoNormal">“- Seu pai de sangue é nobre, um barão. Mas, seu pai de verdade era um pescador, não é Desiago?” – perguntou Vizigo.</p>
<p class="MsoNormal">“- Sim, meu pai era pescador. Minha mãe de sangue e de criação era curandeira. Fui criado nas docas até os onze anos quando entrei na Academia.”</p>
<p class="MsoNormal">“- Barriga é barriga, sangue é sangue. As pessoas são onde foram criadas.” – respondeu Vizigo.</p>
<p class="MsoNormal">“- E por quem foram criadas. Os verdadeiros pais são os que criam.” – completou Ernando sorvendo uma cerveja.</p>
<p class="MsoNormal">O velho preconceito. Os nobres não conseguiam esquecer minhas origens. Já implicavam com os burgueses novos-ricos. Só aceitavam mesmo os que tinham nascido em berço de ouro filhos de pais e mães de berço de ouro. “A educação faz o homem”.Só que para ter a educação são precisos privilégios&#8230;Olhei bem para eles. Mãos macias que nunca pegaram em trabalho braçal. Corpos sedentários. Olhar altivo de desdém. Nobres. Vizigo achava o povo uma cambada de ignorantes toscos e embrutecidos. Ernando os via como crianças de quem se tem que cuidar. Não sei quem era pior.</p>
<p class="MsoNormal">“- Em Elvenar é diferente.”</p>
<p class="MsoNormal">Todos nos viramos para o elfo. Denadar continuou:</p>
<p class="MsoNormal">“- Nós julgamos que o caráter e a personalidade são inatos, a pessoa nasce com eles. São coisas que vem pelo sangue, pela linhagem. Assim, se uma pessoa nasce pura, de bom caráter, não importa o quanto sofra nem o meio em que viva, ela se manterá boa.”</p>
<p class="MsoNormal">Silêncio apreciativo.</p>
<p class="MsoNormal">“- Por outro lado, se ela nascer ruim, mau caráter, não importa o quão bondosos, carinhosos, éticos e incentivadores sejam seus pais. Ela será malévola. Assim, são feitos todos os esforços para detectar o caráter das pessoas o mais cedo possível. Quando se percebe que uma criança é mau-caráter, ela é sumariamente executada. Afinal, não importa o que se faça, ela sempre será maligna e prejudicará alguém na primeira oportunidade. Logo, porque mantê-la viva, por que alimentar uma serpente? Por isso, os elfos da Magocracia Elvenar são poucos, mas puros e bons. Leões.”</p>
<p class="MsoNormal">O simpático silêncio que se seguiu foi finalmente interrompido pela chegada da comida. Felizmente, a carne de ogro é uma delícia, desmancha na boca. O assunto da conversa mudou para o tempo (“que calor, né?”), essas coisas. Depois foi para a política, fizeram-se gracejos sobre o rei, falou-se da nova guerra entre a Monarquia Góia e a aliança Victória-Bertáquia etc.</p>
<p class="MsoNormal">Aproveitei uma deixa e perguntei para o Dom Varano como os paladinos e milicianos faziam seu serviço. Como resolviam os crimes?</p>
<p class="MsoNormal">“- É simples, Desiago. Se tem um crime, tem um culpado. Roubo, furto, assassinato, seqüestro, estupro. Alguém fez. A gente interroga os marginais da área. Primeiro na fala, depois na marra. Ou então, pensa em quem teria lucrado com o crime. Quem são os inimigos e rivais da vítima? Interrogamos os caras, apertamos até alguém espirrar com a verdade.”</p>
<p class="MsoNormal">“- Mas, sob tortura qualquer um confessa qualquer coisa, não é?” – questionei.</p>
<p class="MsoNormal">“- É aí que entra a técnica. Nós somos profissionais. Mas, por que você quer saber.”</p>
<p class="MsoNormal">“Se eu disser que é para encontrar o gato perdido da mãe da dona da birosca onde almoço, eu acho que tomo porrada.”- pensei. Daí, eu inventei: “É porque estou pensando em escrever um livro, quem sabe me tornar escritor. Nem que seja para passar o tempo.”</p>
<p class="MsoNormal">Eles riram. Rico ri à toa.</p>
<p class="MsoNormal">Foi quando a sobremesa chegou. Outra iguaria de Bertáquia, o já famoso doce puf. Uma casquinha de suspiro encobrindo creme de leite ou chocolate e morangos. Uma delícia. O desafio é comer o recheio quebrando o mínimo possível da casca, senão ela se desmancha e faz&#8230;puf!</p>
<p class="MsoNormal">Terminou o almoço, me despedi de Dom Varano e segui bem alimentado. Esse cara é um nobre gente boa que sempre me tratou bem. Nem queria ser cavaleiro como o pai, mas Augur o escolheu e ele não teve jeito senão virar paladino da Ordem do Sol. Caminhei para fazer a digestão.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Fui andando em direção à cidade baixa, de volta à realidade da casinha e da birosca. Das pessoas legais, mas sem cultura. Da comida boa, mas sem refinamento. Das mesmas conversas diferentes das mesmas conversas da Academia. Andando para onde era mais difícil se conseguir uma conversação inteligente. Pessoas simples, normalmente de cabeças simples. Longe dos metidos e esnobes que se vestem e comem bem.</p>
<p class="MsoNormal">Passei da zona da segunda muralha para a da terceira. Fui descendo pelas ruas cada vez mais esburacadas, pelas casas sem telha, pelas pessoas falando alto, pelo lixo na rua, pelo fedor humano. Impossível não pensar na minha vida. Naquele calor. Pessoas se acotovelando ao meu redor. Uma revolta subiu do meu estômago e entalou na minha garganta. Naquele momento se eu pudesse teria explodido toda a cidade numa gigantesca bola de fogo. Chamas ardendo, pessoas queimando e eu sendo consumido em paz. Suava&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">“- Moço, o senhor está bem?”</p>
<p class="MsoNormal">Dei por mim. Estava me escorando na parede de uma casa, suando frio. Um menino tinha me feito aquela pergunta e parecia preocupado. Ele estava acompanhado de sua mãe. Ambos orcos, o povo mais pisado e desprezado de Terra Nova.</p>
<p class="MsoNormal">“- O senhor mora perto? Precisa de ajuda para chegar em casa?” – perguntou a mãe.</p>
<p class="MsoNormal">Fiz que não com a cabeça e murmurei que estava bem tentando não ser ríspido. Eles desceram a rua. Lembrei-me que quando eu era pequeno e acompanhava meu pai até o porto eu ficava reparando nas pessoas ricas que desciam dos navios. Uma vez ele acompanhou meu olhar, se abaixou, me olhou bem nos olhos e disse:</p>
<p class="MsoNormal">“- Desiago, nós podemos ser pobres, mas pelo menos não somos orcos. Somos humanos, tenha orgulho disso.”</p>
<p class="MsoNormal">Na hora funcionou. Enchi-me de orgulho da minha humanidade e passei a olhar os orcos de cima pra baixo. Ele era um bom homem. Por que me disse isso?</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Segui pelas ruas por horas, não sei bem por onde. Quando dei por mim, estava na birosca da Mãe Lina já perto da hora do jantar. Sentei-me. O lugar ainda estava vazio. Eu estava cansado, com sede e com fome. E por que? Por causa de um gato que eu não tinha a menor idéia de como achar. Uma p()®®@ de um gato! Resolvi mandar tudo à m&amp;®#@! Por que me esforçar tanto?</p>
<p class="MsoNormal">Surgiu um prato de comida na minha frente. Frango a passarinho, broa de milho e farofa com bastante ovo. Ao seu lado, uma mui bem recebida cerva geladinha. Ergui os olhos, era a Mãe Lina:</p>
<p class="MsoNormal">“- Eu sei que você passou o dia inteiro procurando o Otelo. Essa é por conta da casa.”</p>
<p class="MsoNormal">Não soube o que dizer. Fiquei de boca aberta.</p>
<p class="MsoNormal">“- Depois vem uma fatia de bolo de banana e um cafezinho.” – Mãe Lina piscou o olho e se foi.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Bolo de banana. Eu sempre gostei de bolo de banana e bolinho de chuvisco. Enquanto eu atacava o frango a passarinho, me lembrei da minha infância, quando Viola, eu e Rodolfo corríamos pelas ruelas perto da birosca ou pelas docas. A vovó Doca sempre gostou de mim. Ela descobriu que eu adorava bolo de banana e bolinho de chuvisco e esses quitutes nunca faltavam nos meus aniversários. Aliás, pelo menos uma vez por mês, num dos dias da Trindade, lá estavam eles esperando por mim na casa da Viola. Depois que eu entrei para Academia, minhas visitas ficaram menos freqüentes. Era um passado difícil de lidar com meus colegas. Mas, eu vinha pelo menos uma vez por mês. E quando vinha, lá estavam os bolinhos de chuva. Eu podia sentir a massa fina, o açúcar e a canela na minha boca. Bolinhos da vovó Doca.</p>
<p class="MsoNormal">Mãe Lina colocou a fatia de bolo de banana na minha frente. Eu já tinha terminado com o frango. Enquanto comia o bolo e tomava o café eu entendi porque tinha de encontrar o Otelo para a vovó Doca.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Horas depois, deitado na cama, fiquei matutando sobre como encontrar o Otelo. Repassei os métodos dos paladinos que o Dom Varano me tinha contado pra resolver crimes. A gente procura os inimigos e rivais da vítima e os interroga até que um deles confesse. A aplicação do método ao caso era bem simples e direta. Era só pegar todos os gatos, cães e ratos da área de birosca e meter a bicharada no pau de arara até um deles confessar ter dado sumiço no Otelo.</p>
<p class="MsoNormal">Brilhante!</p>
<p class="MsoNormal">Virei de lado e dormi.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><strong>Mês da Feiticeira, quarto dia dos Antepassados.</strong></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Acordei cansado, tinha dormido mal. Levantei com dor nas costas e gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Lavei o rosto, me vesti e saí.</p>
<p class="MsoNormal">Parei um pouco em frente à casa para respirar o ar da manhã. Foi quando ouvi:</p>
<p class="MsoNormal">“- Salve, Mestre Humano!”</p>
<p class="MsoNormal">Era um anão, com roupas de pedreiro. Não “anão” no sentido de um humano que sofria de nanismo, mas um dos membros daquele povo não-humano baixo e musculoso, aliado dos elfos, que tinha vindo da Terra Antiga trazendo os humanos como escravos para bater nos orcos e conquistar a Terra Nova. Mas, isso era passado.</p>
<p class="MsoNormal">“-Salve, Mestre Snifel!”</p>
<p class="MsoNormal">Ele sorriu. Os anões gostam de ser chamados pelo seu nome no idioma deles “Snifel”, daí o nome do principal reino anão “Snifelheim”. Só que o nome em língua do sul soava meio&#8230; Os snifels que se familiarizavam com a língua do sul percebiam isso e não se ofendiam de serem chamados de anões pelos humanos. Já todo cuidado tinha que ser tomado com o reino deles - deve-se falar “Snifelheim” ou “Grande Reino dos Anões” ou “Reino da Cordilheira”. Nesse assunto os anões eram muito&#8230;suscetíveis. Uma vez um guerreiro anão tinha quebrado um bar todo porque alguém chamara o reino dele de “Slifini”, que no idioma snifel soa parecido com “casa de macacos”. Tudo bem, eles eram baixos, peludos, fortes e feios, mas daí para chimpanzés tinha uma certa distância.</p>
<p class="MsoNormal">“- A parede leste da sua casa está com uma infiltração. Precisa de reparos”.– me disse o anão se aproximando.</p>
<p class="MsoNormal">“- Mas, a casa foi reformada ano passado”.</p>
<p class="MsoNormal">“- Isso pode ser, mas quem reformou fez um serviço de orco. Se deixar assim, em breve vai estragar tudo dentro da casa, a parede pode até cair”.</p>
<p class="MsoNormal">Eu olhei bem e vi que realmente, tinha uma pequena infiltração. Não parecia tão ruim quanto ele estava colocando. Não é que eu tenha preconceitos contra os anões, mas eles realmente têm uma reputação de serem um tanto gananciosos e minhas poucas experiências com eles infelizmente tinham confirmado isso. Por outro lado, eram exímios pedreiros e orgulhosos de suas obras. Casa feita por anão, não cai.</p>
<p class="MsoNormal">“- Faça-me um orçamento, mestre Snifel, e depois conversamos”.</p>
<p class="MsoNormal">Deixei-o examinando a parede e fui para a birosca tomar café.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A caminhada foi rápida, a birosca da Mãe Lina fica perto da minha casa. O local estava movimentado, trabalhadores a caminho de seus serviços, milicianos terminando ou começando a ronda etc. Por sorte, consegui logo um banco para sentar junto de uma das três mesas grandes e fiquei esperando meu pão com manteiga e ovo acompanhado de um bom cafezinho. Diverti-me vendo a fauna local. O Robledo já estava lá curando uma ressaca da noite anterior, o velho Breno “Beleza” contando suas histórias dos deuses para quem quisesse ouvir e brincando com as crianças, o mui simpático miliciano Mileno filando um desjejum de graça&#8230; Eu estava tão distraído que pra mim o prato apareceu na minha frente do nada. Virei-me e a Viola seguiu lépida como uma cabrita e graciosa como uma raposa, uma veloz bundinha redonda se agitando sob o controle de uma cabeça esperta e cobiçada por olhares invejosos. Mordi o pão com ovos de gema ainda meio mole, como eu gosto. Escorre pelo rosto, faz uma bagunça, mas é bom&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">Não sei por que, ali em meio aquele povo e comendo pão com ovo, a minha mente voltou para o meu almoço da véspera. Bom vinho, companhia culta, doce puff, carne de ogro&#8230;Não deixava de ser curioso que a carne daqueles gorilões de três metros de músculos e pelos se tornasse tão tenra e saborosa quando bem preparada. Havia quem protestasse afirmando que se os ogros usavam clavas, caçavam em grupos e faziam emboscadas, eles deviam ser seres com alguma inteligência. Portanto, devorá-los seria um ato de canibalismo. Porém, o fato de que quase todos nós crescemos ouvindo histórias terríveis de pessoas devoradas por ogros e que muitas delas eram verdadeiras, não ajudava os defensores dos monstrengos. A maioria das pessoas não tinha dinheiro para a iguaria, logo não ligava pro assunto. Os que podiam pagar consideravam que comer carne de ogro era o mesmo que comer carne de tubarão ou de onça ou de&#8230;sei lá, vacas carnívoras? Elfos não comiam carne de ogro, pelo menos não em público. Sei que os ogros de Terra Nova eram bem diferentes dos da Terra Antiga, assim como os nossos orcos são bem diferentes dos de lá, mas acabou ficando o termo derivado do élfico. Os nossos orcos chamavam os ogros de quibungos em sua língua e comiam sua carne numa boa. Anões também. Pequeninos então, estes como eram os que mais sofriam com os ogros eram verdadeiros entusiastas e já inventavam novas receitas. Aliás, foi o senescal pequenino de Tiana de Bertáquia quem inventou a culinária a base da carne de ogro. Tinha que ser.</p>
<p class="MsoNormal">Estava divagando nesses assuntos, já terminando meu cafezinho, quando Viola se aproximou de Robledo e sorriu. Ele segurou a mão dela, ela alisou-lhe os cabelos com a outra. Levantei-me, paguei e saí dali.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Fui andando rápido, entrei em casa e tranquei a porta. Sentei-me, suei, bebi vinho. Eu tremia. O que havia de errado? O gato, eu tinha que me concentrar na m&amp;®#@ do gato. Onde estaria Otelo?</p>
<p class="MsoNormal">A procura simples e direta, a oferta de recompensas, nada disso tinha dado certo para Mãe Lina e Robledo. Eu não tinha a quem interrogar. O jeito era usar a cabeça, como quando a gente vai criando novas poções ou investigando os sintomas de um paciente para chegar na doença. Eu vira minha mãe fazer isso diversas vezes. Meu pai buscava ler os sinais do mar antes de sair para pescar. Era o que eu faria.</p>
<p class="MsoNormal">Por que Otelo não voltava para a birosca? Só havia duas possibilidades: ele não queria voltar ou ele não podia voltar.</p>
<p class="MsoNormal">A primeira hipótese não fazia sentido algum. Otelo era bem tratado, querido, bem alimentado e protegido na birosca. Ele não estava mais em idade de se aventurar para longe, se não era velho demais, também não era mais moço. Não podia ser isso.</p>
<p class="MsoNormal">A segunda hipótese era o caminho a investigar. Por que ele <em>não podia</em> voltar? A primeira hipótese derivada desta linha de raciocínio era a de que Otelo estaria morto, por isso não voltava. Teria sido morto por um cão ou mendigo que o teria devorado ou por outro gato e o corpo teria sido mastigado por porcos. Nesse caso, eu nunca o acharia. Depois de pensar um pouco, conclui que era melhor descartar essa hipótese. Primeiro, porque vovó Doca sentia em seu coração que Otelo estava vivo. Segundo, porque nunca poderia ser averiguada e certamente não levaria esta história a um final feliz. Portanto, não me era útil.</p>
<p class="MsoNormal">Bom, se Otelo não estava morto, por que não podia voltar? A resposta era tão óbvia quanto tola: porque estava preso em algum lugar. Otelo tinha sido seqüestrado. Quem faria isso? Quem precisasse das habilidades de um gato, ou seja, caçar ratos. Portanto, Otelo estava preso em algum lugar do qual não podia sair e onde se precisava de um gato para caçar ratos.</p>
<p class="MsoNormal">Caminhei pela casa, fazia sentido. Lindo, lógico, bonitinho. Lembrei-me de uma lição de silogismo na Academia: corvos são pássaros, corvos são pretos, logo pássaros são pretos.</p>
<p class="MsoNormal">Eu cheguei a pegar na garrafa de vinho, mas parei. Eu não raciocinava melhor bêbado. Talvez, um golinho&#8230;Parei. Em cima da minha mesa tinha um pão fatiado. Pão&#8230;Um armazém! Otelo provavelmente estava preso no depósito de algum armazém onde deveria caçar ratos. Mas, como fora parar lá? Eu pensaria nisso depois! Abri a porta e saí em campo para percorrer os armazéns de Ervantes!</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Resumo da história. Gastei a manhã toda e metade da tarde percorrendo os armazéns que tinham depósitos e nada. Pela hora da Senhora Guerreira eu caminhava desanimado pelas docas.</p>
<p class="MsoNormal">Eu havia crescido ali perto, numa vila de pescadores. Estava acostumado com o cheiro de peixes, com navios atracando ou partindo, marinheiros bêbados, prostitutas, o odor fétido das docas, acostumado até demais. Entrei na taberna da Sereia Sorridente. Lugar amplo e razoavelmente limpo para a área.</p>
<p class="MsoNormal">A Sereia Sorridente pertencia à cafetina Velasca, portanto era uma proveitosa combinação de bordel e taberna. Ainda era cedo para o movimento que costumava esquentar pelo meio da hora do caçador, quando a maioria das pessoas chegava do serviço. As mesas grandes estavam vazias, apenas algumas das mesas menores tinham ocupantes. Algumas meninas e rapazes descansavam antes de começar o serviço. Dois sujeitos faziam um lanche. Numa das mesas estava um paladino abraçado com uma das moças da Velasca. Firmei a vista. Era o Alexandre. Alto, forte e loiro daquele jeito ele era inconfundível. Cabelos loiros e olhos azuis&#8230; A pele queimada de sol e uma grande simpatia amenizavam aquela infeliz herança élfica ancestral. Ele me viu e sorriu, cumprimentei com a cabeça e me sentei longe dele. Gostava das minhas relações com o Alexandre assim, cordiais e distantes. Eu o conhecia de vista desde menino, ele também fora criado nas docas, mas era quase cinco anos mais novo que eu, logo nunca brincamos juntos. Agora era um Paladino Miliciano, um dos campeões de Augur oriundos do povo, e tinha um entendimento com Velasca. Algum acordo do qual eu não fazia questão de saber. Esses PMs&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Pedi uma cerveja e fiquei matutando. Onde poderia estar Otelo? Haveria jeito de eu levar outro gato como se fosse o Otelo? Fiquei imaginando a tristeza da Vovó Doca com o fracasso da minha busca, o desapontamento da Viola&#8230; A cerveja esquentava em minhas mãos, o taberneiro me olhava de lado, eu devia ter pedido um vinho. Foi me dando uma vertigem, um tremor nas pernas, um frio nas costas, um mal-estar, um desânimo, uma sensação de ser um m&amp;®#@. <span> </span>Pra que eu servia, afinal?</p>
<p class="MsoNormal">&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">Tomei a cerveja de um trago! Reage, Desiago!</p>
<p class="MsoNormal">Pedi uma caneca de vinho, meia broa de milho e um queijo branco. Comia nervoso e tentava pensar, mas a mente rodava, rodava e não se achava.</p>
<p class="MsoNormal">Entraram na taberna três homens, marinheiros de Astela pelo jeitão deles. Pediram cerveja, um deles se virou para as moças e gritou:</p>
<p class="MsoNormal">“- Podem se preparar para faturar, meninas! Três navios atracaram com muitos marinheiros cheios de amor para dar!”</p>
<p class="MsoNormal">Os três gargalharam.</p>
<p class="MsoNormal">Olhei para as moças com simpatia. Quem as chama de “mulheres de vida fácil” nunca experimentou esse ofício para ver que ele não tem nada de fácil. Quem as chama de “mulheres da vida” sei lá o que pensa da vida.</p>
<p class="MsoNormal">Os três sentaram perto de mim e começaram a falar alto:</p>
<p class="MsoNormal">“- Que m&amp;®#@! Que perda de tempo!”</p>
<p class="MsoNormal">“- O capitão também é uma besta, né? Ele não sabia que Victória e Bertáquia estavam em guerra com a Monarquia Góia? Agora taí!”</p>
<p class="MsoNormal">“- Mas, como é que ele ia saber do bloqueio? Só sendo adivinho!”</p>
<p class="MsoNormal">“- De Sabel para Ervantes, de Ervantes para a cidade do Canal e agora de volta para Ervantes.”</p>
<p class="MsoNormal">“- Ainda bem que a gente ficou sabendo do bloqueio na Cidade do Canal. Imagina se a gente chega até a Monarquia à toa?”</p>
<p class="MsoNormal">“- Será que não dava para furar o bloqueio? Não era a Caveira Negra que estava fazendo o bloqueio lacustre e marítimo? Eles são uma companhia mercenária, de repente dava para negociar&#8230;”</p>
<p class="MsoNormal">“- Você é burro, mesmo! A Caveira Negra pertence a Tiana, que é a Senhora de Bertáquia, foi assim que ela começou. E se ela afundou uma esquadra da República Zula não íamos ser nós que íamos furar o bloqueio. Se o capitão tentasse ia haver um motim!”</p>
<p class="MsoNormal">Marinheiros revoltados e se embebedando falam demais. Estavam revoltados porque sem vendas perderiam a parte da comissão que era distribuída entre eles, mas esse era o risco dos navios mercantes. Paguei a conta e fui saindo. Eles continuavam falando:</p>
<p class="MsoNormal">“- Armas, suprimentos, tecidos finos, jóias, até carne de ogro salgada! Tudo para os soldados e a nobreza da Monarquia. Encalhado! Estragando nos porões!”</p>
<p class="MsoNormal">“- E se a companhia falir com isso?”</p>
<p class="MsoNormal">“- Maldita bruaca!”</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Eu saí para respirar o ar do entardecer. A hora da Senhora Guerreira terminava, o sol se aproximava do horizonte, marcando o início da hora do Caçador. As pessoas começavam a cantar, enrolando no final do expediente, batendo papo enquanto elas esperavam ansiosamente o badalar dos sinos do Templo marcando o fim do dia de serviço. Tudo normal. Nem parecia que milhares de quilômetros dali milhares de pessoas estavam morrendo numa guerra.</p>
<p class="MsoNormal">Andei até o bebedouro. Caneletas abasteciam um poço com águas das cisternas. Um balde estava lá à disposição para quem quisesse beber. Beber. Era proibido usar a água para lavar objetos. Mas, sempre tinha um engraçadinho que tentava. A milícia normalmente fazia vista grossa se o abuso fosse pequeno. Mas, um dia eu vi o paladino Alexandre espancando um babaca que tinha começado a mijar no poço de sacanagem. A burrice humana desconhece fronteiras, mas os elfos e anões não ficam muito atrás.</p>
<p class="MsoNormal">Eu puxei a corda, o balde subiu, abri minha bolsa, peguei minha caneca e a enchi. Enquanto eu sorvia a água fresca, um ratinho subiu pela parede externa até a borda do poço. Um gato veio sorrateiramente por trás dele e deu um bote. O rato, graças a um instinto fantástico, deu um pulo de lado esquivando do gato, mas caiu dentro do balde que caiu dentro do poço. Enojado, mas com medo de tomar uma surra, puxei a corda rapidamente para subir o balde antes que o rato morresse afogado no poço empestando a água. Eu olhava em volta nervoso, puxei a corda, joguei o balde no chão, o rato saiu meio tonto e foi conhecer a barriga do gato por dentro. Observei a cena, parado. O gato lambia os beiços. Olhei para o balde, depois para o poço e me levantei. Se a minha intuição estava certa, eu sabia onde Otelo estava e não havia tempo a perder!</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Taberna do Tritão. Um lugar de desordeiros e mulheres airadas. Eu estava sentado num canto, observando a fauna fedida de marinheiros, malandros, prostitutas e gigolôs. Já estava cansando de me esquivar de pulgas e piolhos quando ele chegou. Sozinho, feliz, meio alto. Sentou num banco diante de uma das mesas, gritou querendo uma cerveja. Levantei, fui até lá e me sentei diante dele. O sem vergonha me reconheceu e rosnou:</p>
<p class="MsoNormal">“- O que você quer aqui, Desiago? Se perdeu?” – e riu do que julgava ter sido um deboche engraçado.</p>
<p class="MsoNormal">“- Encontrei Otelo.”</p>
<p class="MsoNormal">Enquanto ele arregalava os olhos, comecei a beber minha cerveja.</p>
<p class="MsoNormal">“- Eu levei um tempo quebrando a cabeça, mas tive a inspiração hoje de tarde. Navios mercantes que levam suprimentos tem problemas com ratos em seus porões. Ratos que podem querer devorar grãos ou comer a carne de ogro salgada, estragando a mercadoria. Ter clientes insatisfeitos na nobreza e nas forças armadas é muito ruim. Gatos são muito úteis para evitar esse tipo de problema. Com a vantagem que um gato no porão de um navio não tem como sair, não é? O navio partiu, o gato fica a bordo e tem que comer os ratos.”</p>
<p class="MsoNormal">Ele estava tenso. Bebi mais um gole e continuei:</p>
<p class="MsoNormal">“- Conversei com alguns marinheiros hoje no fim da tarde. Um deles, veja você que coincidência, era o mestre de suprimentos do “Gaivota Branca”, navio mercante de Astela, e me confirmou que teve um problema uns dias atrás. O gato do navio comeu o que não devia ou ficou doente, o fato é que morreu e o navio tinha que zarpar à primeira hora da alvorada. Felizmente, ele conheceu nesta taberna um sujeito prestativo que arranjou um gato para ele a um bom preço. O bichano já tinha uma certa idade, mas ainda era forte e naquela emergência não dava para escolher muito. Ele comprou o gato e partiu.”</p>
<p class="MsoNormal">O cara estava cada vez mais tenso, deu uma olhada em volta. Eu prossegui:</p>
<p class="MsoNormal">“- Imagino que você tenha atraído Otelo com alguma sardinha ou um ardil parecido. O meteu num saco, levou para as docas, o vendeu para o marinheiro e foi feliz para casa achando que ninguém jamais saberia do ocorrido. Mas, a vida dá voltas. A frota mercante astelana soube do bloqueio lacustre da Caveira Negra contra a Monarquia e teve que voltar da Cidade do Canal. Estão aí. Eu saí indagando, encontrei o tal Mestre de Suprimentos e através dele, o Otelo. Então vendi para o bom marujo um dos gatinhos da ninhada da gata do Vlado. Ele ficou feliz e eu recuperei o velho gato da Vovó Doca. Ele me contou quem tinha vendido o Otelo para ele, mas eu já sabia.”</p>
<p class="MsoNormal">Com essa ele não contava e ficou espantado. Ele tomou um gole da sua cerveja que tinha chegado há pouco e perguntou:</p>
<p class="MsoNormal">“- Como assim, já sabia que fui eu?”</p>
<p class="MsoNormal">Sorri satisfeito:</p>
<p class="MsoNormal">“- Simples. Por que alguém se daria ao trabalho de seqüestrar Otelo para vendê-lo ao Mestre de Suprimentos do “Gaivota Branca”? Não seria mais fácil comprar ou pegar algum gatinho de alguma gata que tivesse dado ninhada por aí, como eu fiz. Por que ter esse trabalhão com um gato mais velho, que certamente valeria menos que um novinho. Só podia ser por uma vingança mesquinha, para fazer a Vovó Doca sofrer e por tabela a Viola. Só podia ser coisa de um babaca covarde e cruel como você, Medronho!”</p>
<p class="MsoNormal">Ele se levantou furioso, mas logo sentou. Medronho falou devagar:</p>
<p class="MsoNormal">“- Você quer dinheiro? É melhor você não contar nada pra eles ou vai se arrepender, Desiago! Eu sei que você não pode mais fazer feitiços e te arrebento a cara!”</p>
<p class="MsoNormal">“- Guarde suas ofertas, Medronho. Eu vou ganhar pelo menos um ano de comida de graça e ajudar amigas ao mesmo tempo, você não tem como superar isso. Quanto à sua ameaça, ela não vai me impedir de contar ao pessoal, porque eu já contei.”</p>
<p class="MsoNormal">Ele recuou no banco, nervoso. Abriu a boca, mas eu o interrompi:</p>
<p class="MsoNormal">“- Nós não temos mais nada para conversar, Medronho. Mas, eles querem bater um papo contigo.” – apontei para trás dele.</p>
<p class="MsoNormal">Medronho se virou e deu de cara com Rodolfo e Robledo.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: Wingdings;"><span>J</span></span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A gente tem que dar o crédito a quem merece. Eu estava saindo quando ouvi Medronho gritar ao ser puxado pelo colarinho por Rodolfo:</p>
<p class="MsoNormal">“- Esse luteciano imundo ofendeu o rei Erdinando!”</p>
<p class="MsoNormal">Que presença de espírito. Tão admirável quanto inútil. Alguns homens se levaram gritando “Viva o Rei”, “Longa Vida ao Rei Erdinando!” etc. Tenho certeza que Sua Majestade ficaria emocionado, com lágrimas nos olhos, com tanta devoção naquela taberna imunda enquanto ele sorvia seu vinho numa caneca prateada deitado entre lençóis de seda. Enfim&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">Virei-me. Robledo não tinha vindo sozinho: seus companheiros lutecianos se meteram na refrega que começava. Rodolfo deu tal soco na cara do Medronho que o nariz dele deve ter ido parar na nuca. Um marinheiro avançou na minha direção, mas arremessei minha caneca de cerveja na cara dele e o pobre rapaz afundou me meio a turba. Esquivei-me, corri, cheguei na porta tentando manter alguma dignidade quando senti que me puxavam pelo braço. Ao me virar vi que era uma das garçonetes que bradava furiosa algo como “você não vai sair assim” ou algo parecido. Joguei um pequeno sache com pó do sono na cara dela que caiu zonza. Ela estava brava e sei lá se era boa de briga, só sei que eu não sou. Se fosse não teria precisado do Rodolfo e do Robledo. Talvez na cobertura&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">Saí, respirei o ar da noite e fui para casa. Missão cumprida.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><strong> </strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><strong>Mês da Feiticeira, quinto dia do Mensageiro.</strong></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Acordei satisfeito, tinha dormido divinamente. Levantei com fome, engoli uma das bananas que tinham sobrado na minha mesa e saí para curtir o sol do penúltimo dia do mês.</p>
<p class="MsoNormal">Fiz outro caminho para a birosca e passei primeiro na casa da Mãe Lina. A porta estava aberta, entrei. Vovó Doca estava sentada numa cadeira acolchoada com almofadas, no seu colo Otelo dormia satisfeito, ronronando. Cheguei a pensar que ela ronronava também. Ela sorriu para mim e olhou para o lado. Acompanhei seu olhar e vi, em cima da mesinha, uma fornada de bolinhos de chuvisco acompanhada de um bolo de banana. Sorri.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Satisfeito com meu desjejum, fui para a birosca para&#8230;tomar uns ares, ver o povo, essas coisas. Lá estava Ariana satisfeita. Primeiro ela sorriu pra mim, depois fez um ar sério, um “hum-hum” e olhou para Rodolfo que tinha um olho roxo. Porém, estava bem satisfeito, cantava com alegria e sorriu para mim. Nem imagino a surra que o Medronho levou. Peguei um café com leite, encostei-me no balcão e olhei em volta.</p>
<p class="MsoNormal">Robledo estava sentado tomando café e contando histórias. Viola estava sentada ao lado dele. Ela acariciou-lhe os cabelos e o beijou.</p>
<p class="MsoNormal">O café esfriou na minha mão. Era natural. Ele era o homem alto, elegante e valente que tinha dado uma surra no sem vergonha, punido o miserável. Eu era apenas o sujeito baixo e magro que tinha encontrado o gato.</p>
<p class="MsoNormal">Eles se beijaram novamente. Deixei o café intocado. Saí da birosca e fui pela rua. Meu coração saiu pela boca e correu pela sarjeta.</p>
<p class="MsoNormal">Eu?</p>
<p class="MsoNormal">Desci a rua e fui tomar um copo.</p>
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		</item>
		<item>
		<title>A Grande Aliança tem uma ArquiRainha esperada e um Arquiduque inesperado!</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 01:55:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[SEÇÕES]]></category>

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		<description><![CDATA[Gazeta de Ervantes

 

1ª semana do mês da Senhora Guerreira

Ano 4005 da Era Livre]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--[if gte mso 9]&gt;  Normal 0   21   false false false  PT-BR X-NONE X-NONE              MicrosoftInternetExplorer4              &lt;![endif]--><!--[if gte mso 9]&gt;                                                                                                                                            &lt;![endif]--><!--[if gte mso 10]&gt;--></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">1ª semana do mês da Senhora Guerreira</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Ano 4005 da Era Livre</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"><br />
</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">A cidade estava em polvorosa com a chegada da Rainha Diveine II, de Alistae, sempre acompanhada da Duquesa Aliena, sua embaixadora, do Rei Durandaus I, do Monarca Ramon I, da Monarquia Góia, da princesa Ximena, trazida às pressas de Astela e da princesa Míriam, herdeira do trono de Orana. A presença dos governantes do Eixo Sul era motivo de inúmeras controvérsias e boatos. Finalmente, soubemos a verdade!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Em uma cerimônia formal, foi consagrada a Grande Aliança, uma confederação com pactos de ajuda mútua, ação conjunta em política externa e acordos tarifários entre esses grandes reinos. Cada membro deve contribuir para uma bolsa de ajuda mútua financeira e para uma pequena força especial de defesa. Trata-se da formalização do Eixo Sul diante da ameaça do Império Varini e dos elfos da terra antiga.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Para coordenar os esforços políticos e militares, dois novos cargos foram criados: ArquiRei e Arquiduque. Ambos tem um mandato de 9 anos e só podem ser exercidos uma única vez a cada 100 anos. Os seus membros são eleitos com votos da alta nobreza e das guildas (proporcional a seu número de membros e capital).</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Para surpresa de ninguém, a nossa formidável Rainha Tiana 1 foi eleita para o posto de ArquiRainha. A surpresa veio na eleição do Barão Dom Severo, Senhor de Invernal, para o posto de Arquiduque. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Dom Severo tem reputação de ser honrado e destacou-se em diversas batalhas na antiga disputa entre Valência e Alistae pelo canal de Sarina, lutando por Astela.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Invernal fica nas Montanhas do Destino, pertencendo à Cidade do Canal, sendo antes vassala de Astela, agora pertence diretamente à nossa rainha. Apesar da escolha fazer sentido pela honradez e competência de Dom Severo e evitar ressentimentos entre os monarcas, visto o candidato mais natural ser Dom Ednardo, alguns cogitam que o Arquiduque possa dever por demasiado sua indicação ao apoio da rainha Tiana.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: right; text-indent: 1cm;" align="right"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Jorge Maldonado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Paladino de partida.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">O paladino palaciano Finlir Dalael está de partida de Ervantes, devendo ir para Avilar cumprir novas funções. Ele deixará saudades, pois apesar de ser um elfo da terra antiga, ganhou a amizade de alguns e o respeito de muitos por sua dedicação e seriedade. A despedida contou com uma festa organizada por seu amigo, o paladino miliciano Alexandre Santos. A forte amizade entre um elfo e um humano demonstra para todos o acerto da mestiçagem e camaradagem que marca nosso povo. </span><em></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Triste notícia</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">O nosso correspondente em Astela nos informou da passagem do estimado comerciante Rugnélio Rugnar que havia recentemente alcançado o título de Barão. A notícia ainda não está confirmada, mas, desde já a Gazeta deixa aqui seus pêsames à ilustre figura do anão que soube conquistar a estima de muitos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Editores-Chefes: Senhor K &amp; Mestra L.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Chargistas: Dom Marco de Bym &amp; Mestre Aguiar</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 1cm;"><span style="font-family: &quot;Century&quot;,&quot;serif&quot;;">Colunistas: Dona Diva Calheiros</span></p>
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		<title>Podemos dormir em paz em Ervantes</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 14:29:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[3ª semana do mês da Rainha
Ano 4005 da Era Livre

A paz parece ter voltado às nossas ruas, pois há um mês não se registram eventos violentos dignos de nota em nossa cidade. Tudo indica que as áreas da 3ª Muralha próximas as docas estão razoavelmente seguras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>3ª semana do mês da Rainha<br />
Ano 4005 da Era Livre</em></p>
<p>A paz parece ter voltado às nossas ruas, pois há um mês não se registram eventos violentos dignos de nota em nossa cidade. Tudo indica que as áreas da 3ª Muralha próximas as docas estão razoavelmente seguras.</p>
<p>Dom Aldrar, paladino palaciano enfatizou que o trabalho sério, dedicado e inteligente dos paladinos trouxe a paz para a cidade.<br />
“- Os paladinos e milicianos são pessoas dedicadas. Nossos sucessos nem sempre são conhecidos, mas o problema foi resolvido. Destaco a atuação da paladina Marinara e do paladino Finlir nas docas.”<br />
O paladino palaciano Finlir destacou a importância da atuação do paladino miliciano Alexandre na pacificação das docas, o qual teria calado a boca de seus detratores.<br />
Duque Ednardo de Seilar, Dux Lacustris e Grão Mestre da Ordem do Sol e da Ordem do Alvo Rosto, fez um discurso agradecendo a dedicação de paladinos e milicianos onde afirmou contar sempre com sua lealdade e anunciou um aumento de 10% nos vencimentos desses profissionais que também passaram a ter três refeições por dia na sede da Ordem do Sol.<br />
A única perda registrada na pacificação foi o desaparecimento do miliciano Zeca Virote, o qual se acredita tenha sido vítima de uma retaliação das guildas criminosas atingidas pela ação conjunta de paladinos e milicianos.</p>
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		<title>Unificados os pesos das moedas de cobre.</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 14:28:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[3ª semana do mês da Rainha
Ano 4005 da Era Livre


O processo de unificação iniciado pelo decreto real 14 que padronizou pesos e medidas para produtos líquidos e sólidos, distâncias, moeda e afins nos Reinos de Valência, Astela, Bertáquia, cidades estado de Draco e Marina, bem como na cidade do Canal, pelo sistema universal da Caveira Negra continua. A cidade-estado de Lutécia e a monarquia Góia aderiram ao sistema universal da Caveira Negra.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>3ª semana do mês da Rainha<br />
Ano 4005 da Era Livre</em></p>
<p>O processo de unificação iniciado pelo decreto real 14 que padronizou pesos e medidas para produtos líquidos e sólidos, distâncias, moeda e afins nos Reinos de Valência, Astela, Bertáquia, cidades estado de Draco e Marina, bem como na cidade do Canal, pelo sistema universal da Caveira Negra continua. A cidade-estado de Lutécia e a monarquia Góia aderiram ao sistema universal da Caveira Negra.</p>
<p>Aproveitando a descoberta das minas de cobre em Bertáquia, a necessidade de combater a falsificação, as moedas de cobre de Bertácchia, Valência, Astela, cidades estado de Draco e Marina, bem como na cidade do Canal e a cidade-estado de Lutécia passarão a ser cunhadas em Beráquia.<br />
O Grão-Senescal Dibny explica que esses Estados não nomearam suas moedas de cobre, chamando-as apenas de “cobres”, diferindo das moedas de prata e ouro que tem nomes próprios. Portanto, as identidades nacionais serão preservadas com os ganhos em padronização e combate a falsificação.<br />
A medida foi oficializada pelo decreto real 16 de Sua Majestade Tiana I, Rainha de Bertácchia, Valência e Astela, Protetora de Draco, Marina e Lutécia, Senhora da Caveira Negra.</p>
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		<title>A generosidade do Duque Ednardo</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 14:24:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[3ª semana do mês da Rainha
Ano 4005 da Era Livre
As crianças dos orfanatos Mãe Aiala e Piedosa Rainha, os velhinhos do Asilo Trindade e os enfermos da Santa Casa de Altéa têm em comum o fato de terem se acostumado com uma carga de sofrimentos em suas vidas. Porém, esta semana também tiveram em comum uma grata surpresa. O nosso mui estimado Dux Lacustris, Duque Ednardo de Seilar doou uma grande quantidade de brinquedos, doces e roupas para as crianças, roupas e remédios para os idosos e enfermos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>3ª semana do mês da Rainha<br />
Ano 4005 da Era Livre</p>
<p>As crianças dos orfanatos Mãe Aiala e Piedosa Rainha, os velhinhos do Asilo Trindade e os enfermos da Santa Casa de Altéa têm em comum o fato de terem se acostumado com uma carga de sofrimentos em suas vidas. Porém, esta semana também tiveram em comum uma grata surpresa. O nosso mui estimado Dux Lacustris, Duque Ednardo de Seilar doou uma grande quantidade de brinquedos, doces e roupas para as crianças, roupas e remédios para os idosos e enfermos. Além disso, contadores de histórias e menestréis apresentar-se-ão mensalmente nos orfanatos, asilos e na santa casa para trazer um pouco de alegria para essas pessoas tão sofridas. Os locais também passarão por uma ampla reforma, ganhando novos móveis e pinturas, troca de móveis, com novas roupas de cama.</p>
<p>Não fosse isso o bastante, Sua Alteza decidiu que as despesas decorrentes dessas medidas serão bancadas por ele, sem recorrer aos cofres públicos.<br />
“-Eu estou tão feliz com meu casamento com a nossa incomparável rainha Tiana I, que me senti no dever de compartilhar minha felicidade com essas pessoas, trazendo um pouco de alegria para essas pessoas”.<br />
O Duque enfatizou Valência está passando por um grande momento de prosperidade que deve ser compartilhada entre todos os seus cidadãos. Tudo indica que o futuro de nosso reino é bem promissor. Estamos todos felizes com o próximo enlace. Longa vida ao vindouro casal real de Valência!<br />
<em>[Xilogravura do Duque Ednardo com uma criança no colo</em>]</p>
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		<title>O baile de noivado real foi um sucesso!</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jul 2010 14:19:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[SEÇÕES]]></category>

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		<description><![CDATA[3ª semana do mês da Rainha
Ano 4005 da Era Livre
No quarto dia da Rainha do mês do Menestrel, foi realizado o baile dos noivados da Duquesa Ximena, Governadora de Ervantes, com o Príncipe Pedro de Astela, do Duque Rodrigo Freston, Dux Magicus, com a Marquesa Selane, filha da embaixadora Aliena de Alistae, e o noivado ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>3ª semana do mês da Rainha<br />
Ano 4005 da Era Livre</em></p>
<p>No quarto dia da Rainha do mês do Menestrel, foi realizado o baile dos noivados da Duquesa Ximena, Governadora de Ervantes, com o Príncipe Pedro de Astela, do Duque Rodrigo Freston, Dux Magicus, com a Marquesa Selane, filha da embaixadora Aliena de Alistae, e o noivado</p>
<p>Os rumores persistem que após a realização do casamento, D. Pedro e D. Ximena serão coroados rei e rainha de Astela.<br />
O evento foi realizado na tabela Plataforma, com a qualidade e o requinte que lhe são peculiares. Belíssima decoração, acepipes de primeira, música de excelente qualidade, deslumbraram nobres, burgueses e plebeus. O congraçamento entre as classes foi consagrado na tradição de Valência com a realização de uma grande festa no porto, onde 144 noivados foram custeados pela coroa.<br />
Agora, fica o desafio para o sacerdote de Soluna dono da Plataforma: diante de tão bela festa feita para noivado de duques, como superá-la para a tão esperada festa de noivado da Rainha Tiana I com o Duque Ednardo?</p>
<p>Jorge Maldonado</p>
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		<title>Tristeza, não tem fim&#8230;</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Aug 2009 01:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[CONTOS, MITOS E LENDAS]]></category>

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		<description><![CDATA[Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.

 

Tristeza, não tem fim...

 

A cidade de Ingá era pequena, porém decente. Seu povo era trabalhador, batalhando contra a terra árida, pestes, animais perigosos ou nocivos e as indesejadas visitas de bandoleiros. A água do rio tinha que ser bem usada na irrigação, no consumo e nos banhos. Não havia fartura, mas com cuidado vivia-se bem. Apesar dos pesares, era um povo danado para gostar de festas. Logo, foi com grande animação que viram a chegada do Menestrel.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: right;" align="right"><span style="font-size: 10pt;">Terra Nova<br />
Ano 2000 da Era da Servidão.</span></p>
<p class="MsoNormal"><strong> </strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong>Tristeza, não tem fim&#8230;</strong></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><img class="alignright" src="http://www.historias.interativas.nom.br/incorporais/tnova/soluna.jpg" alt="" width="236" height="400" />A cidade de Ingá era pequena, porém decente. Seu povo era trabalhador, batalhando contra a terra árida, pestes, animais perigosos ou nocivos e as indesejadas visitas de bandoleiros. A água do rio tinha que ser bem usada na irrigação, no consumo e nos banhos. Não havia fartura, mas com cuidado vivia-se bem. Apesar dos pesares, era um povo danado para gostar de festas. Logo, foi com grande animação que viram a chegada do Menestrel.</p>
<p class="MsoNormal">Ele não era alto, não era forte, nem era tão bonito quanto os boatos faziam crer, se bem que nenhuma das mulheres, e mesmo alguns dos homens, viu-lhe qualquer defeito. Mas, que simpatia. Seus olhos acariciavam, suas mãos beijavam e sua voz embalava. A música vinha em ondas suaves que refrescavam aquele povo ressecado. Logo vieram os pedidos:</p>
<p class="MsoNormal">“- Toca para alegrar meu irmão que está doente!”</p>
<p class="MsoNormal">“- Toca para animar minha mãe que está velhinha e não pode mais dançar!”</p>
<p class="MsoNormal">E o Menestrel tocava carinhosamente, enquanto as pessoas traziam os idosos e doentes para a praça. Logo, trouxeram comida e água para o homem, que ninguém é de ferro. O Menestrel agradeceu, comeu bem e guardou o resto no seu farnel. Foi quando uma moça se animou e pediu:</p>
<p class="MsoNormal">“- Está tudo muito bem, a canção foi linda. Mas, música também é para se dançar. Toca aí pra gente balançar o esqueleto!”</p>
<p class="MsoNormal">O Menestrel sorriu, limpou os lábios com as costas da mão e logo engatou uma música das mais animadas no seu alaúde. As pessoas riam e dançavam, enquanto ele tocava músicas ora no alaúde, ora na flauta, ora nos tamboretes. E foi assim a noite toda.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">No dia seguinte, novos pedidos e novas canções. O Menestrel só se recusou quando o prefeito da cidade pediu-lhe que tocasse uma canção mágica para afastar os ratos que empestavam a cidade:</p>
<p class="MsoNormal">“- Isso não. Lamento, mas fiz uma vez e me deram calote!”</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Logo depois, o Menestrel foi procurado por duas pessoas com pedidos difíceis. Primeiro, um rapaz:</p>
<p class="MsoNormal">“- Ouvi dizer que sua música é mágica, que traz a pessoa amada de volta em três dias! Por favor, me ajude! Helena terminou o namoro comigo e sem ela não tenho luz!”</p>
<p class="MsoNormal">Uma mulher, desesperada, aos prantos, aproximou-se do Menestrel:</p>
<p class="MsoNormal">“- Menestrel, por favor, me ajude com sua arte! Meu bebê, meu filho Vítor, morreu de doença. A dor está que me destroça, o coração está vazio e os olhos cheios. Já não tenho forças para viver.”</p>
<p class="MsoNormal">Soluna olhou-os compadecido, conhecia bem o que era o sofrimento. Quem não conhece a dor, não compõe música, verso ou imagem. Ele sorriu para eles e disse:</p>
<p class="MsoNormal">“- Há algo que posso fazer por vocês. Mas, para que o encanto se cumpra, precisam me ajudar. Há itens que só vocês podem obter”. Virou-se então para o rapaz e disse:</p>
<p class="MsoNormal">“- Corra essa cidade e as vizinhas perguntando e me traga os nomes de duas pessoas, de sua idade ou mais velhas, que nunca tenham sofrido uma desilusão amorosa.”</p>
<p class="MsoNormal">O Menestrel olhou a mãe nos olhos com ternura e disse:</p>
<p class="MsoNormal">“- Você também deve correr as casas desta cidade e das vizinhanças, mas me traga um grão de feijão de uma casa em que nenhum dos moradores tenham perdido um parente ou amigo”.</p>
<p class="MsoNormal">Os dois partiram cheios de esperança, cada um pro seu lado.</p>
<p class="MsoNormal">Uma semana depois, voltaram. Nem o rapaz tinha conseguido os nomes, nem a mulher o grão de feijão.</p>
<p class="MsoNormal">O Menestrel viu fundo nos olhos dos dois e convidou-os a se sentar. Eles lhe contaram seu périplo e que agora se conformavam. Era a vida. Ele sorriu:</p>
<p class="MsoNormal">“- Vocês estão certos e errados ao mesmo tempo. Dor e Morte são as promessas que a Vida sempre cumpre. É assim. Mas, a Vida também é o que fazemos dela, da vida só se leva a vida que se leva. Por isso que a Alegria é tão mais meritória que a Tristeza, porque é um direito nosso pelo qual lutamos diariamente. Ser feliz na vida é algo que se conquista!”</p>
<p class="MsoNormal">Ele dedilhou o alaúde, preparando uma canção:</p>
<p class="MsoNormal">“- História triste e adulta, traz sabedoria e consolo. História de final feliz, história alegre, traz outra sabedoria e dá força para erguer a enxada.”</p>
<p class="MsoNormal">O Menestrel tocou com notas que beijavam as faces dos ouvintes e depois voavam com o vento. O rapaz deixou a tristeza ir embora e sonhou acordado novamente. A mulher sentiu o frio vazio se encher com um calor gostoso e imaginou outra criança em seu colo. Os dois ouviam a música e mal percebiam que suas mãos se tocavam, enquanto outras pessoas se sentavam em volta do casal.</p>
<p class="MsoNormal"><strong><a href="http://historias.interativas.nom.br/gazeta/?page_id=150" target="_self">&lt;&lt;Volta</a></strong></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Antepassados: sangue ou coração?</title>
		<link>http://historias.interativas.nom.br/gazeta/?p=144</link>
		<comments>http://historias.interativas.nom.br/gazeta/?p=144#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2009 00:57:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>klimick</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[CONTOS, MITOS E LENDAS]]></category>

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		<description><![CDATA[Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.

 

A cidade. Altas muralhas para proteger dos que estão fora. Guardas para proteger dos que estão dentro. As ruas uma mistura de gente sem fim, de odores de perfumes baratos, incensos e fétida presença de esgotos. Humanos, anões, orcos, elfos e mestiços se acotovelando entre comerciantes espertos, lavradores deslumbrados, guerreiros sonsos e ladinos se ocupando de sua falta de ocupação. Gosto do mercado, gosto dos banhos.

 

A guerreira caminha pelas ruas, alta e forte para uma mulher, suja e cansada como quem veio da batalha, pensativa e atenta. Armadura de escamas, alfanje na cintura, grevas, brafoneira, em uma das mãos traz as rédeas do cavalo, na outra, a corda atada ao pescoço do prisioneiro de cabeça baixa. As pessoas instintivamente se afastam de seu caminho, os ladinos recuam para as sombras lançando olhares desesperançados para seu saco de moedas. Acostumada e indiferente aos olhares de medo e respeito que lhe eram voltados, a guerreira caminha resoluta em direção à taverna a que estava acostumada. Ela só pára quando uma mulher cruza seu caminho com um bebê embrulhado nos braços, alheia a tudo, a mulher é a única a não reparar na guerreira que parou para observá-la.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: right;" align="right"><!--[if gte mso 9]&gt;  Normal 0   21   false false false  PT-BR X-NONE X-NONE              MicrosoftInternetExplorer4              &lt;![endif]--><!--[if gte mso 9]&gt;                                                                                                                                            &lt;![endif]--> <span style="font-size: 10pt;">Terra Nova<br />
Ano 2000 da Era da Servidão.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: &quot;Book Antiqua&quot;,&quot;serif&quot;;"> </span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-family: &quot;Book Antiqua&quot;,&quot;serif&quot;;"><img class="alignright" src="http://www.historias.interativas.nom.br/incorporais/tnova/zinga.jpg" alt="" width="236" height="400" />A cidade. Altas muralhas para proteger dos que estão fora. Guardas para proteger dos que estão dentro. As ruas uma mistura de gente sem fim, de odores de perfumes baratos, incensos e fétida presença de esgotos. Humanos, anões, orcos, elfos e mestiços se acotovelando entre comerciantes espertos, lavradores deslumbrados, guerreiros sonsos e ladinos se ocupando de sua falta de ocupação. Gosto do mercado, gosto dos banhos.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A guerreira caminha pelas ruas, alta e forte para uma mulher, suja e cansada como quem veio da batalha, pensativa e atenta. Armadura de escamas, alfanje na cintura, grevas, brafoneira, em uma das mãos traz as rédeas do cavalo, na outra, a corda atada ao pescoço do prisioneiro de cabeça baixa. As pessoas instintivamente se afastam de seu caminho, os ladinos recuam para as sombras lançando olhares desesperançados para seu saco de moedas. Acostumada e indiferente aos olhares de medo e respeito que lhe eram voltados, a guerreira caminha resoluta em direção à taverna a que estava acostumada. Ela só pára quando uma mulher cruza seu caminho com um bebê embrulhado nos braços, alheia a tudo, a mulher é a única a não reparar na guerreira que parou para observá-la.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Há trinta e sete anos atrás, como há séculos, era, e ainda é, costume deixar crianças indesejadas na roda. Alguns as criavam como filhos, outros como escravos, por fim algumas eram simplesmente devoradas por cães ou porcos que zanzavam pelas ruas. As pessoas no mercado comentavam que este seria o provável fim daquela criança feia deixada na roda: uma menina grande, escura e de cabelo ruim. Ruim? Claro, os humanos copiavam os seus senhores élficos da Terra Antiga que acreditavam que o valor interno de uma pessoa se refletia na sua aparência, se era feia, era ruim e pronto. E quais meninas eram belas para os elfos? As de pele clara, pequenas e bem feitas de corpo, com cabelos lisos da cor do mel. Não aquela coisa enrolada na cabeça que nem dá para pentear. Foi quando o caçador Rollo passou, pegou a criança e seguiu seu caminho para a floresta onde morava.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size: 13pt;"> </span></p>
<p class="MsoNormal">A guerreira relaxa na tina cheia de água quente e ervas aromáticas. Os músculos descontraem, a agradável sensação de estar limpa. Ela olha para trás, o prisioneiro está sentando no chão, comendo do cozido, com o braço esquerdo preso por grilhões à perna esquerda. O comprimento da corrente lhe permite ficar sentado com algum conforto, mas não o deixa andar senão bem curvado. Os grilhões foram uma boa compra, pensa ela. A guerreira afunda na Tina, deixando a água cobrir seus cabelos, ela relembra o combate em que o capturara, rápido e decisivo como tantos outros&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Por que não a deixavam em paz? Pensava a guerreira enquanto chutava um dos meninos. Ela tinha nove anos, eles dez, mas eram tolos, gordos e lentos. O segundo a agarrou pela cintura, mas logo estava no chão com ela por cima, segurando-o bem. Os socos vinham ritmados, a mente dela estava ali e não estava.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">A cabana de seu pai era acolhedora, ele a havia ensinado a andar no mato sem se perder, a caçar, a nadar, a fazer seu arco e borduna. Ela já o havia acompanhado em algumas caçadas. Ela havia odiado quando seu pai a forçara a ir à escola ouvir as lições do velho xamã. Havia poucas crianças, pois poucas cabanas havia na floresta entre caçadores e lenhadores, mas implicavam com ela, chamavam-na de “filhote de ogro”. Uma vez seu pai havia recolhido um guerreiro ferido na floresta e cuidara dele. Agradecido, o guerreiro atendeu o pedido do pai e ensinou várias técnicas de luta para a filha. Disso ela havia gostado. Seu pai a chamava de “pequena guerreira”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Um dia ela havia voltado com o coração apertado, haviam-lhe dito que seu pai não era seu pai de verdade. Subitamente, ela havia se sentido ainda mais diferente do que as outras crianças, ainda mais só. Dos seus poucos amigos, apenas Breno continuou a brincar com ela. O pai a abraçou e contou-lhe que era seu pai verdadeiro porque a amava de verdade. No dia seguinte, ao acordar, ela havia encontrado um colar de osso que ele passara a noite esculpindo para ela. Nele podia-se ver a figura de uma onça e na língua dos xamãs, o nome dela. A guerreira não se separava daquele colar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Um dia, tomando banho no rio, viu dois dos meninos rindo e fugindo com seu colar. Ela correu atrás deles, os alcançou e assim a luta havia começado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">A guerreira reparou que o menino embaixo de si havia parado de reagir, ela parou de bater. Levantou-se, o outro tentava se levantar. Ela pôs-lhe o pé no peito forçando-o a se deitar no chão. Ele cobriu o rosto e chorou. Bem-feito! Foi quando se deu conta: ela, uma menina de nove anos havia surrado dois meninos de dez! Não pôde deixar de sorrir.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><span> </span>Por entre as barracas do mercado, a guerreira caminha e compra os itens que precisa para sua oferenda. A gamela, as ervas, os legumes, a ave favorita de seu pai. Ela reúne tudo e procura um lugar, pois os templos dos elfos e as clareiras dos druidas não a aceitam. Ela caminha e lembra do dia que o pai morreu. Uma saudade surda, a dor de não mais poder abraçar, o pedaço que falta.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Ela estava com os mercenários há cinco anos quando soube da notícia. Voltou para a aldeia o mais rápido que pôde, pedia à Natureza que lhe desse asas. Quando chegou à cabana, os amigos do pai já estavam lá. Um deles falou baixinho:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“- Há dias que ele murmura seu nome”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Ela entrou, ele estava na cama, parecia tão frágil, tão velho, mas seus olhos ainda estavam vivos. Ela apenas disse:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“-Pai. Cheguei”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Ele abriu os olhos, sorriu e falou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“- Te amo. Seja feliz”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">O pai expirou. Ela o pegou nos braços, braços que já haviam estrangulado guerreiros, mãos acostumadas a empunhar espadas e machados na guerra, erguiam aquele fiapo de homem com uma gentileza insuspeitada. A guerreira caminhava lentamente para a fogueira cerimonial, por fora, seus olhos estavam úmidos, por dentro tempestades castigavam cachoeiras. Ela acendeu a fogueira.</span></p>
<p class="MsoNormal">A guerreira faz a oferenda nas rochas. Ela ergue os braços e faz uma prece a seus antepassados para que cuidem de seu pai e outra a ele para lembrá-lo de seu amor. Uma tempestade se forma no horizonte. É de seu gosto.</p>
<p class="MsoNormal">A guerreira se sente observada, pousa sua mão no cabo do alfanje e se vira rapidamente. Assustada, uma menina de uns sete anos fica congelada. Ela murmura:</p>
<p class="MsoNormal">“-Só estava olhando.”</p>
<p class="MsoNormal">A guerreira se levanta, passa por ela fazendo-lhe um cafuné no topo da cabeça e segue seu caminho.</p>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">A guerreira seguia com sua oferenda para o rio, pensava no pai. Entre os mercenários, a curandeira havia se tornado uma mãe para ela. Pena que ele não a havia conhecido. Pena que ela não pudera estar presente para curá-lo. Foi quando ouviu seu nome, virou-se e viu o líder da aldeia, o xamã e alguns rapazes. O aldeão-mor se aproximou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“-Sabemos das suas boas intenções, mas não pode fazer uma oferenda aos ancestrais em nome de seu pai. Ele não era seu pai de verdade, você não tem o sangue dele.”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“-Uma oferenda assim desagradará aos espíritos da natureza e atrairá desgraça sobre a aldeia.” – completou o xamã.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“- Ela era meu pai de verdade. Foi ele quem me criou, quem me acolheu e amou. Não se diz que pai e mãe são os que criam?”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">O aldeão-mor olhou para o xamã que ficou parado, todos se entreolhavam constrangidos. A guerreira, impassível, esperava uma solução. O xamã falou baixinho:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“-Provérbio é provérbio, sangue é sangue!”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">A guerreira suspirou, balançou a cabeça e disse:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“-Se é assim, farei minha oferenda aos antepassados longe da aldeia e do rio, longe dos costumes. Serei a única responsável. Deixe que os espíritos venham se haver comigo”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“- Ainda assim não podemos permitir&#8230;”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">A guerreira olhou para os rapazes, eram seis, alguns tinham sido suas vítimas na infância e pareciam querer a revanche agora que eram homens feitos. Um era maior do que ela. Aquilo era tão desnecessário&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Um único movimento, um chute rápido no rosto, o maior dos rapazes, o campeão da aldeia caiu desacordado. Espanto geral.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">“- Eu vou fazer minha oferenda aos antepassados longe daqui. Por favor, não criem problemas”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent: 0cm;"><span style="font-size: 13pt;">Ela partiu, foi até o alto de um monte e entre as rochas fez sua oferenda.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A guerreira bebe seu vinho na taverna, sentada no banco e recostada na mesa. Um vinho honesto, a bom preço. Algumas pessoas olham para ela, outras para o prisioneiro sentado no chão a seus pés. Ela espera. Finalmente, eles chegam. Três homens, dois guardas e um negociador. O prisioneiro levanta a cabeça, esperançoso. Negociam. O homem tenta baixar o preço, ela se mantém irredutível:</p>
<p class="MsoNormal">“- Tenho filhos para criar, não posso baixar o preço.”</p>
<p class="MsoNormal">As pessoas na taberna se surpreendem. Há murmúrios:</p>
<p class="MsoNormal">“-Filhos? Quem teria filhos com essa bruaca?!”</p>
<p class="MsoNormal">“- É estratégia de negociação&#8230;”</p>
<p class="MsoNormal">“- Devem ser adotivos!”</p>
<p class="MsoNormal">“- Ou então, foi algum prisioneiro que ela molestou!”</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Ouvindo tudo, se divertindo e aparentando indiferença, a guerreira bebe da sua taça de vinho enquanto o negociador sua. Por fim, ele cede e paga o valor que ela quer.</p>
<p class="MsoNormal">O ex-prisoneiro parte e a guerreira pede uma taça de vinho de primeira. Ela se ergue, faz sinal para um jovem profissional e sobre para o quarto.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">No dia seguinte, ela deixa a cidade. Ao passar pelos portões, observa um grupo de crianças, liderado pela menina da véspera, levando oferendas para os rochedos. A guerreira então se lembra que é dia dos Antepassados. Ela sorri e segue seu caminho.</p>
<p class="MsoNormal"><strong><a href="http://historias.interativas.nom.br/gazeta/?page_id=150" target="_self">&lt;&lt;Volta</a></strong></p>
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