Terra Nova: fantasia antropofágica – SIPAD 2014

Resumo do experimento apresentado no Seminário Interno de Produção em Artes e Design do IAD-UFJF, no primeiro semestre de 2014.

OBJETIVOS

O experimento teve como objetivo geral verificar a eficácia do método proposto no desenvolvimento da criatividade. Essa verificação se deu no decorrer das atividades do grupo de pesquisa de preparação do material para uma oficina realizada na Semana de Artes e Design do IAD, envolvendo professores e estudantes de graduação do BIAD e colaboradores externos ao IAD. O método norteou a vivência lúdica de um cenário de role-playing game (RPG) de fantasia de origem européia e a materialização dos suportes desse cenário, suportes esses que foram utilizados na oficina.
Os suportes narrativos multilinguagem (o blog, os cadernos de jogo e os baralhos do cenário) resultaram da costura entre as narrativas e as produções visuais individuais de cada participante. Deste modo, objetivamos que o método facilitesse o processo de aprendizagem, a construção de competências e conhecimentos por meio de uma produção “a partir” de um tema e suas transversalidades.

PREMISSAS DE AVALIAÇÃO DA CRIATIVIDADE: PILHAGEM E ANTROPOFAGIA

As regras do RPG (o ato de jogar) para vivenciar e construir coletivamente uma história (o ato de narrar) trabalham as seguintes competências:
>> Criatividade: recombinação crítica de repertórios a partir das fantasias pré-existentes e/ou das necessidades de aplicação para a solução dos desafios.
>> Ética: reflexão crítica sobre o tema, responsabilidade através da relação de causalidade narrativa (atos e suas conseqüências), cooperação e competição na hora certa, vislumbre ou efetivação de transformações individuais e coletivas, responsabilidade pela produção pela noção de autoria.
>> Gestão: capacidade de utilizar os métodos, seja para expressão criativa, por meio do desenvolvimento e incorporação de seu material, seja permitindo-lhes criar histórias interativas para desenvolver em outros jogadores as características citadas anteriormente e, portanto, qualificá-los no seu uso como método didático e/ou projetual, liderança, trabalho em equipe.

Para avaliar essas competências, tomamos como premissas um conceito originário da literatura e um conceito originário das artes plásticas: pilhagem narrativa e antropofagia visual.

Premissa Narrativa: Pilhagem
Roland Barthes (1977) observa que a literatura, por extensão as narrativas, tem os poderes de mathesis (vários saberes se entrelaçando) e mimesis (representação do real), destacando seu potencial na educação. As narrativas permitem o encontro lúdico de diversos saberes em sua fruição, facilitando a concretização de um trabalho multidisciplinar ou interdisciplinar. E é nessa leitura crítica que queremos tocar: uma leitura entendida como uma leitura do mundo (YUNES, 2002) capaz de promover uma refiguração do sujeito leitor e de seu contexto (RICOEUR, 1983), levando-o a produzir novos significados, ou seja, produzindo “a partir de”, e não apenas “sobre” (BARTHES, 1992).
A pilhagem pode ser entendida como um recurso narrativo contemporâneo de apropriação de repertórios coletivos que são costuradoss a partir dos repertórios individuais. Sendo os RPGs formas de construção e narração coletiva de histórias, nos seus suportes texto e imagem existem não para serem consumidos acriticamente, mas para serem, como diria Sonia Mota Rodrigues (1997), “pilhados” pelo sujeito a fim de serem reconstruídos de acordo com suas experiências cotidianas, permitindo a concepção de novas imagens e novos textos e a recriação da realidade.

Premissa Visual: Antropofagia
Em palestra proferida no dia 16/12/12, durante o I FAC: Reperformance, na Casa de Cultura/UFJF, o artista performático e professor Lucio Agra buscou demonstrar a necessidade de se construir não uma definição, mas diferentes definicões de performance dentro do ponto de vista da nossa cultura latino-americana de mestiçagem. Da fala de Lucio Agra, tomamos posse da proposta de contaminação do colonizador pelo colonizado, juntamente com outras propostas, lançadas durante a discussão, como a de tradiçoes móveis, de Mario de Andrade, e a de experimentar de fato a antropofagia, movimento tocado pelo tropicalismo, mas não de todo incorporado ao pensamento poético brasileiro, apesar de muito presente em outros setores da cultura, sobretudo a música e a street art (http://novo.itaucultural.org.br/materiacontinuum/fevereiro-2012-saga-modernista-completa-90-anos/ em 07/02/2013).
Em 1929, Oswald de Andrade escreve o Manifesto Antropófago no qual “reelabora o conceito eurocêntrico e negativo de antropofagia como metáfora de um processo crítico de formação da cultura brasileira. […] Como antropófagos somos capazes de deglutir as formas importadas para produzir algo genuinamente nacional, sem cair na antiga relação modelo/cópia, que dominou uma parcela da arte do período colonial e a arte brasileira acadêmica do século XIX e XX.” (http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=74&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=8 em 07/02/2013). E que ainda domina certos setores de produção visual, como das ilustrações para os meios de comunicação de massa, sobretudo os da indústria do entretenimento.

Assim, acompanhando a pilhagem narrativa, propusemos a concepção antropofágica do elo de ligação formal entre os suportes do cenário, sua organização compositiva e estrutural, em cada um dos suportes, considerando suas especificidades técnicas e materiais e sua capacidade de significar, de se relacionar com o conteúdo narrativo de modo hipertextual, ou seja, capaz de abrir vários “links” de informação, permitindo a abertura deste processo de significação.

O CENÁRIO TERRA NOVA: FANTASIA ANTROPOFÁGICA
http://www.historias.interativas.nom.br/incorporais/pdfs/terranova-conceito.pdf

DESENVOLVIMENTO DO EXPERIMENTO

As primeiras vivências com o método e com o cenário aconteceram em uma sala de aula de projetos do IAD entre dezembro de 2012 e março de 2013, com um grupo de 12 estudantes e dois professores, todos membros do grupo de pesquisa.

1. Conceituação: a partir da leitura do conceito do cenário, disponível aos participantes no AVA do grupo de pesquisa, fizemos as seguintes atividades:
– Montar PERSONAGENS e jogar aventuras de RPG ambientadas no cenário Terra Nova.
– Registrar, por meio de diários manuscritos ou virtuais, a história da personagem e os EVENTOS vividos por ela durante as aventuras.
– Materializar a personagem e seu contexto por meio de CONCEPT ARTS registradas em cadernos de esboços personalizados.
2. Levantamento: atividade em formato de fórum no AVA com links disponíveis para pesquisa que consistiu de:
– Com base na conceituação da sua personagem, pesquise Estilos Visuais que você gostaria de “canibalizar” e mestiçar com a Arte Nova.
– Faça também um levantamento iconográfico de locais e culturas que ache interessantes para misturar ao histórico e contexto da sua personagem.
3. Concepção: alternância de sessões de TNI e Design Poético com atividades de postagem de produção na forma de tarefas de envio de arquivo ou texto online e de apresentação presencial dos cadernos de esboços, entre 11/01/13 e 22/03/2013.
De julho a outubro de 2013 preparamos o material para a oficina ministrada na SEMAD, já com base na mencionada reestruturação. Organizamos a produção anterior (concept arts, textos e cadernos personalizados) de modo a dela extrair uma identidade visual para os baralhos e para os cadernos, atividade que se deu na forma de um fórum  no AVA.
Finalizamos a produção com a elaboração de artes finais para cada personagem, que passaram a figurar no baralho de coadjuvantes, além de serem postadas no blog (http://historias.interativas.nom.br/gazeta/?page_id=559).
Montamos 14 cadernos, 2 para os mestres e 12 para jogadores, tamanho A5 (fechado) utilizando impressões um preto e branco sobre papel offset 75g, encadernados com papelão e corvim creme, amarrados com barbante.

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“TESTE ANTROPOFÁGICO”: ANÁLISE DOS RESULTADOS

Concentramos a análise nas artes finais das cartas de coadjuvantes, produzidas pelos membros do grupo de pesquisa e por uma participante da oficina e na produção dos outros dois participantes da oficina que resultaram em textos escritos.

Premissas do cenário:
– Antropofagia visual: recombinação de repertórios iconográficos e estilísticos do cenário com repertórios iconográficos e estilísticos do/a participante, mobilizados e/ou apropriados.
– Pilhagem Narrativa: recombinação de repertórios narrativos do cenário para com repertórios narrativos do/a participante, mobilizados e/ou apropriados.

Repertórios mobilizados narrativos, iconográficos e estilísticos: são todos os repertórios dos participantes anteriores à oficina.
Repertórios apropriados narrativos, iconográficos e estilísticos: apresentados e/ou adquiridos no decorrer da e após a oficina.

Perguntas respondidas após observação da produção (as artes finais das cartas de coadjuvantes) em relação ao conceito do cenárioe aos conceitos de cada personagem criada:
1. Houve mobilização e/ou apropriação de estilos visuais que não apenas o estilo de base (art noveau) disponível? Quais?
2. O estilo visual da carta apresenta satisfatoriamente o conceito do cenário?
2. Houve mobilização e/ou apropriação de iconografia que não apenas a iconografia tolkieniana disponível? Quais?
2. A iconografia da carta descreve satisfatóriamente o conceito da personagem?

Oficina na Semana de Artes e Design do IAD-UFJF

9a SEMAD – IAD-UFJF [http://9semad.blogspot.com.br/]

Objetivo geral: desenvolver criatividade entendida como capacidade de apropriação e recombinação de repertórios próprios dos participantes e repertórios apresentados pelos oficineiros para configuração de objetos inovadores, entendidos como diferentes e relevantes, capazes de promover refigurações subjetivas, ou seja, objetos com potencial poético.

A oficina apresentou um método lúdico pedagógico criado para facilitar uma análise crítica e mobilizar uma produção criativa dos participantes. Foram realizadas três sessões em três dias seguidos com cada uma tendo a duração estimada de três horas. A dinâmica da oficina envolveu uma narrativa participativa cooperativa que se valeu de suporte impresso e digital. Durante a dinâmica os participantes foram instados a produzir e incorporar suas criações nesses suportes e nos próprios cenários criados para a narrativa. Uma produção inovadora, ou seja, diferente e relevante, demanda justamente uma análise crítica e criatividade aplicada, competências que a oficina buscou construir por meio de uma narrativa que é enriquecida pela intervenção direta dos participantes. A oficina buscou estimular uma perspectiva de atuação profissional e pessoal inovadora e gerar multiplicadores desse enfoque.

A produção dos participantes está disponível no blogue do cenário Terra Nova.

MASH 2013: Witchcraft Tales

Witchcraft Tales [http://historias.interativas.nom.br/witchcrafttales/]

Is a scenario based on 19th-century Brazil, inspired by the fictional characters of the Brazillian writer Machado de Assis, his historical and literary contemporaries and elements of the Victorian age. It is a world permeated by Brazillian fantastic realism with secret societies, sorcery cabals, supernatural creatures and legends, all side by side with a fascination for Science and progress. In this reality, based on the historical Brazillian monarchy, the narrative elements and characters of Machado de Assis’ works encounter figures such as Aleister Crowley, Tolstói, Masters Mason, João do Rio, Lawrence of Arabia, Annie Besant, Rui Barbosa and many other personalities that compose this eccentric universe.
This setting was developed by the Cia Imperial Ludica, founded in 1808 and re-founded in 2012. Its mission is to create, experiment and research games, disseminate ludic ideas and distract he court and its subjects to free them from the yokes of boredom and sadness.

The setting and the Incorporeal Fast System were presented in a workshop at MASH 2013 [http://mash2013.wordpress.com/]