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O que é jogo

sábado, 13 de junho de 2009

Aparentemente, existe uma controvérsia sobre o aspecto de “jogo” do RPG. Em algumas definições o vemos tratado como “um jogo diferente”, que o “termo jogo é infeliz quando aplicado ao RPG” e até algumas definições que negam o aspecto de jogo do RPG, classificando-o como um método ou brincadeira para criar histórias.1 Para trazermos alguma luz a esta questão é interessante fazer uma breve incursão sobre algumas definições e conceitos de “jogo” num sentido mais amplo.

Vejamos a definição de “jogo” no “Dicionário Básico de Filosofia” de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes:
Jogo
(lat. jocus: brincadeira) 1. Em seu sentido geral, o jogo é uma atividade física ou mental que, não possuindo um objetivo imediatamente útil ou definido, encontra sua razão de ser no prazer mesmo que proporciona. Esta atividade, começando na criança ou no pequeno animal como gasto de energia, tendo valor de treinamento ou de aprendizagem, muda de natureza com o desenvolvimento do subjetivo humano: jogos de imitação, nos quais a criança projeta seus desejos (bonecas etc.); jogos com regras ou socializados, nos quais o prazer se vincula ao respeito às regras, às dificuldades de vencer uma competição. (Japiassú, Marcondes, 1996: 150)

Vemos que se na definição acima trocarmos o termo “competição” pelo termo “desafio”, podemos entender o RPG como um jogo com regras ou socializado.

O filósofo holandês Johan Huizinga2 faz um estudo detalhado do jogo e suas relações com a cultura e a linguagem no livro Homo Ludens:
Parece-nos que essa noção poderá ser razoavelmente bem definida nos seguintes termos: o jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da “vida quotidiana”. (Huizinga, 1938; 2001: 33)
Huizinga enfatiza o faz de conta, a capacidade de enlevo do jogo, de arrebatar o jogador sem que ele deixe de perceber que “é apenas um jogo”, o que faz com que os jogadores tenham mais indulgência com os que tentam “roubar no jogo” do que com os desmancha-prazeres. “O desmancha-prazeres destrói o mundo mágico, portanto, é um covarde e precisa ser expulso.” (Huizinga, 1938;2001: 15)
Ele enfatiza que uma característica fundamental do jogo é ser divertido, usando para tal o termo fun em inglês.

1 (Gurps, 1991: III ; Mini-Gurps, 1999: 3)

2 Johan Huizinga (1872-1945). Professor e historiador holandês, conhecido por seus trabalhos sobre a baixa Idade Média, a Reforma e o Renascimento. O regime nazista o manteve preso de 1942 até sua morte. Para ele, a idéia de jogo é central para a civilização. Em seu “Homo Ludens”, de 1938, Huizinga afirma que todas as atividades humanas, incluindo filosofia, guerra, arte, leis e linguagem, podem ser vistas como o resultado de um jogo, ou, para usarmos a terminologia técnica, “sub specie ludi” (a título de brincadeira).

O que é Narrativa

sábado, 13 de junho de 2009

Já que estamos conversando sobre meios narrativos, resolvi colocar algumas breves definições do que seja narrativa. Temos uma noção intuitiva do que seja contar histórias, mas é bom ter alguns termos técnicos para brincar e o meu post anterior desse tipo sobre cultura fez sucesso. Logo… Como esse é um tema vasto que estudo, aguardem novos posts sobre narrativa.
Comecemos pela do professor Muniz Sodré que é bem didática:

Muniz Sodré
Professor –titular do Depto. de Comunicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Narrar: contar, expor, relatar.
Narrativa: discurso capaz de evocar, através da sucessão temporal e encadeada de fatos, um mundo dado como real ou imaginário, situado num tempo e num espaço determinados.
Na narrativa, distingue-se a narração (construção verbal ou visual que fala do mundo) da diegese (mundo narrado, ou seja, ações, personagens, tempos). Como uma imagem, a narrativa põe diante de nossos olhos, nos apresenta, um mundo. O romance, o conto, o drama, a novela, são narrativas.” (Sodré, 1988: 75)[grifos do autor; negritos meus]

SODRÉ, Muniz. Best-Seller: a Literatura de Mercado. Série Princípios. São Paulo, Editora Ática: 1988.

Criar um mundo, representar, interessante para nós que lidamos com RPGs, histórias interativas, HQs. Etc. Mas, não pára aí. Não basta contar a história, há o como ela é contada e os 3 agentes da narrativa. Vejamos um clássico- Todorov:

TZVETAN TODOROV
“O termo VISÃO ou PONTO DE VISTA, refere-se à relação entre o narrador e o universo representado. Categoria ligada, portanto, às artes representativas (ficção, pintura figurativa, cinema; num grau menor: teatro, escultura, arquitetura); (…) A visão (narrativa) é inerente a todo discurso representativo”.(2001,pg. 293) [negrito meu]
O processo narrativo possui três protagonistas pelo menos: a personagem (ele), o NARRADOR (eu) e o LEITOR (tu); ou ainda: aquele de que se fala, aquele que fala, aquele a quem se fala. (…) Em outros termos, tão logo o narrador é representado no texto, devemos postular a existência de um AUTOR IMPLÍCITO ao texto, aquele que escreve e que não deve em caso algum confundir com a pessoa do autor, em carne e osso: apenas o primeiro está presente no próprio livro. O autor implícito é aquele que organiza o texto, que é responsável pela presença ou ausência de determinada parte da história. (…) Quanto ao leitor, não deve mais ser confundido com os leitores reais: trata-se também aí de um papel inscrito no texto. O leitor real aceita ou não esse papel: lê (ou não lê) o livro na ordem que lhe foi proposta, associa-se ou não aos julgamentos de valor implícitos do livro, que são feitos sobre as personagens ou os incidentes etc. Por vezes a imagem do narrador e a do leitor coincidem; outras vezes, o narrador se encontra do lado das personagens”.
São as relações entre: autor implícito, narrador, personagens e leitor implícito que definem, em sua variedade, a problemática da visão.”(2001, pg. 294)”.

A narrativa se constitui na tensão de duas forças. Uma é a mudança, o inexorável curso dos acontecimentos, a interminável narrativa da “vida” (a história), onde cada instante se apresenta pela primeira e última vez. É o caos que a segunda força tenta organizar; ela procura dar-lhe um sentido, introduzir uma ordem. Essa ordem se traduz pela repetição (ou pela semelhança) dos acontecimentos: o momento presente não é original, mas repete ou anuncia instantes passados e futuros. A narrativa nunca obedece a uma ou a outra a força, mas se constitui na tensão das duas.” (2004, pg. 22, negrito meu, itálico do autor)

HISTÓRIA E DISCURSO. Ao nível mais geral, a obra literária tem dois aspectos: ela é ao mesmo tempo uma história e um discurso. Ela é história, no sentido em que evoca uma certa realidade, acontecimentos que teriam ocorrido, personagens que, deste ponto de vista, se confundem com os da vida real. Esta mesma história poderia ter-nos sido relatada por outros meios; por um filme, por exemplo; ou poder-se-ia tê-la ouvido pela narrativa oral de uma testemunha, sem que fosse expressa em um livro. Mas, a obra é ao mesmo tempo discurso: existe um narrador que relata a história; há diante dele um leitor que a percebe. Neste nível, não são os acontecimentos relatados que contam, mas a maneira pela qual o narrador nos fez conhecê-los.”(1973, pg. 211) [Grifos meus]

TODOROV, Tzvetan et DUCROT, Oswald. Dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem. Tradução: Alice Kyoko Miyashiro, J. Guinsburg, Mary Amazonas Leite de Barros e Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001 [1972]
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2004. [1964-1969]
__________________. As Categorias da Narrativa Literária. In Analise Estrutural da Narrativa. (pg. 209-254). Tradução: Maria Zélia Barbosa Pinto. Petrópolis: Editora Vozes, 1973. [1966]

Ou seja, meus caros, a História é O QUÊ é contado na narrativa, o Discurso é o COMO é contado. O Como aqui inclui também o clima da história, a personalidade das personagens, este COMO do Discurso tem de ser preservado quando uma história é contada em outro meio narrativo. A menos que estejamos falando de reinterpretação em vez de adaptação ou interpretação (intérprete).

Paul Ricoeur
First, I am not characterizing narrative by its “mode” that is, by the author’s attitude, but by its “object”, since I am calling narrative exactly what Aristotle calls muthos, the organization of the events. I do not differ from Aristotle, therefore, on the plane he places himself on, that of the “mode”. To avoid any confusion, I shall distinguish narrative in the broad sense, defined as the “what” of mimetic activity, and narrative in the narrow sense of the Aristotelian diégésis, which I will henceforth call diegetic composition.” (1990: 36) [negrito meu]
Paul Ricoeur considera a narrativa a representação da ação, uma organização dos eventos numa mimética criativa e transformadora.

Janet H.Murray
“É claro, a razão pela qual o livro é relevante para profissões tão diferentes tem a ver com o uso amplamente difundido da narrativa como maneira de organizar o mundo, assim como a reconhecida capacidade do computador de reunir diversos campos de atividades humanas sob uma mesma estrutura”.
“Em parte, questões sobre conteúdo e forma dos videogames são, de fato, indagações sobre o próprio poder da narrativa. A narrativa é um de nossos mecanismos cognitivos primários para a compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidades, desde a tribo agrupada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante do aparelho de televisão. Nós contamos uns aos outros histórias de heroísmo, traição, amor, ódio, perda, triunfo. Nós nos compreendemos mutuamente através dessas histórias e, muitas vezes vivemos ou morremos pela força que elas possuem”. (Murray, 2003:9) [negritos e itálicos meus]

A narrativa estrutura nossa forma de ver o mundo, a arte imita a vida e vice-versa. Se a literatura não tivesse esse poder de pensar, de questionar o real a partir do ficcional, por que os governos ditatoriais se preocupariam tanto em censurar os livros? Não que as pessoas confundam real com imaginário, mas pela fantasia podem imaginar como o real poderia ser e agir para transformar a imagem em ação – eis o poder da imaginação.

Próximo post…Jogo.

Conto, novela, romance crônica

sábado, 13 de junho de 2009

Breve definição desses gêneros literários

Conto: história curta com poucas personagens com uma idéia central que é desenvolvida ao longo da narrativa. O conto tem um ou no máximo dois temas.

Novela: história de maior extensão que o conto, com mais personagens. A narrativa é rápida, com episódios que se sucedem em arcos curtos de história que podem se conectar ou não a um arco maior envolvendo as personagens principais. Costuma ter algumas personagens mais bem desenvolvidas e muitas bem simples, apenas “cumprindo um papel na trama”. A novela não precisa ter um final claro, por isso sempre pode continuar. Daí termos séries de livros que são novelas de personagens.
Deu origem ao folhetim e à telenovela, mas não se resume a eles.

Romance: história de grande extensão com grande número de personagens, sendo que muitas são bem desenvolvidas. Há grande preocupação com a psicologia das personagens, a verossemelhança, a coerência narrativa etc. Costuma ser uma narrativa com começo, meio e fim, por isso não costuma ter continuações. A grande trama pode ser dividida em três ou mais livros, mas uma vez contada está contada.

Crônica: inicialmente relato de eventos em ordem cronológica, a crônica evoluiu para conter críticas, reflexões ou narrativas – caso em que se aproxima do conto.

Arquétipo, estereótipo, padrão

sábado, 13 de junho de 2009

Desculpem a longa demora em escrever, estou com muito serviço e pouquíssimo tempo livre. Eu queria pesquisar antes de escrever, mas demorei tanto que o Rod nem deve se lembrar de que me pediu um post para clichês e estereótipos. Então vamos pela minha memória, pois extrapolando de um provérbio kung-fu: “antes feito que perfeito”.

Brevemente:
Arquétipo é um termo derivado da teoria do psicanalista suíço Carl Jung que se utilizou de várias mitologias para entender o processo psicológico inconsciente dos seres humanos. Jung acreditava num inconsciente coletivo, compartilhado pela humanidade, onde estariam armazenados os arquétipos. Daí as similaridades, os padrões recorrentes nas várias lendas, mitos e religiões. Arquétipos então são essas idéias, conceitos comuns, evocações presentes em cada um de nós.
Uma outra maneira de trabalhar com os arquétipos é considerá-los como conceitos compartilhados, consciente ou inconscientemente, pelos membros de uma cultura.

Podemos considerar que os estereótipos são as “formas” dadas a esses conceitos. Por exemplo, para o arquétipo “mago” temos o estereótipo “velho sábio de longas barbas que usa um manto”. Gandalf e Dumbledore são estereótipos de magos.

Clichê é um termo que como estereótipo se deriva da tipografia. Ele tem um alcance um pouco mais amplo que o estereótipo, apesar de se confundir com ele no que se refere a personagens, caso do mago acima. Clichês também são aplicados a narrativas. Por exemplo, triângulos amorosos são um elemento recorrente das novelas e filmes brasileiros. Assim com ter uma personagem prostituta. Podemos dizer que são clichês. Romances entre a moça pobre e o rapaz rico, ou vice-versa, também são clichês. Um cara bronzeado que gosta de praia e festa e não é muito chegado ao trabalho seria um clichê ou um estereótipo de “carioca”.

Quando bem usados clichês e estereótipos são elementos facilmente reconhecíveis, dão algum chão, alguma sensação de conhecimento e conforto para o leitor/expectador, principalmente se o ambiente for inusitado, diferente – caso de histórias de terror, fantasia ou ficção científica.

O perigo ocorre quando os estereótipos começam a fazer com que as pessoas tomem por “naturais” coisas que são na verdade “culturais”. Nesses casos, o chão vira areia movediça. Essa é a fonte de diversos preconceitos.
Lembremos que: um carioca pode ser trabalhador, um mago pode ser jovem, uma mulher pode ser policial, um homem heterosexual pode ser estilista e um homosexual pode ser fuzileiro naval, um paulista pode ser farrista, um jogador de futebol pode ser culto, um negro budista e um branco do candomblé e por aí vai.

Conhecimento: racionalismo X empirismo

sábado, 13 de junho de 2009

Este post é sobre duas fontes básicas de conhecimento: o racionalismo e o empirismo.

O racionalismo desconfia das informações fornecidas pelos sentidos, crendo que essas são por demais falíveis, que é muito fácil se enganar “ouvindo errado” ou “vendo o que não estava lá”. O caminho correto para o conhecimento seria o bom uso da razão. Um sistema racional elaborado a partir de premissas válidas traria o conhecimento real, a verdade.
Essa corrente é de matriz européia continental, com muita força na França e Alemanha, seus primórdios são marcados pela frase de Renée DEscartes “penso, logo existo”. Descartes começou a questionar todas as verdades fundamentadas na tradição, no “é porque sempre foi assim”, desmontando superstições, misticismo, conceitos sem base sólida etc. Chegou a ponto de duvidar de tudo e então estabeleceu suas premissas. A primeira é de que se duvidava de certezas milenares, não duvidava que ele estava ali duvidando. “Penso, logo existo” “Cogito ergo sum”. Esta virada fundamental dá ao sujeito, o indivíduo, o direito de questionar as tradições mantidas pela coletividade.
Entre outras premissas de Descartes estavam a existência de Deus e o primado da razão. Ele constrói então um sistema racional que inclui o método científico e nega a existência de bruxas e monstros, enfraquecendo as “caças às bruxas” na Europa. As leis passam então a ter necessidade de uma base lógica.
Sabendo do sistema racional que tudo engloba, você pode investigar os casos individuais na natureza e na sociedade. Vai-se do todo para as partes, o método dedutivo.

O empirismo, de matriz inglesa com John Locke, vai pelo caminho inverso. Considera que o ser humano nasce uma “tábula rasa” sem nada saber, todo o conhecimento vem pelos sentidos e só depois é trabalhado pela razão. Assim, deve-se ter rigor e cuidado nas observações, mas algo só é verdadeiro se for comprovado na experimentação. É “ver para crer”. Sem essa validação da experiência perde-se o contato com o real, pois a teoria racional pode-se perder em elocubrações sem sentido ou desviar-se da realidade.
Assim, de observação em observação chega-se ao funcionamento do sistema, vai-se das partes para o todo pelo método indutivo.
O empirismo foi fundamental para a ciência, para o conhecimento técnico e para a democracia. Através dele se questionará o direito divino dos reis, levando à Revolução Gloriosa na Inglaterra e à independência e democracia americanas. Um forte de que as coisas tem de funcionar na prática impulsionará o desenvolvimento da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Ambos são válidos e devem tomar cuidado. O racionalismo pode se perder em discussões sobre “o sexo dos anjos” ou “a natureza do tempo” ou ainda “não estrague minha bela teoria com seus ridículos fatos” e deduzir algo totalmente errado.
O empirismo pode cometer erros primários senão escolher bem suas amostras ao somar informações para chegar ao todo. Por exemplo:
correto: urubu é pássaro, corvo é pássaro. Urubus e corvos tem penas, logo pássaros tem penas.

errado: urubu é pássaro, corvo é pássaro. Urubus e corvos são pretos, logo pássaros são pretos.

Interatividade pede que se reconheça o outro

sábado, 13 de junho de 2009

Interatividade é um termo muito usado atualmente e com vários sentidos. Qual seria a diferença entre interatividade e interação, por que precisamos de uma nova palavra. Entendo, seguindo a definição do professor Marco Silva, que interatividade é uma interação em que há uma co-criação,  uma produção conjunta entre as duas ou mais partes envolvidas. Isso implica em ver o outro, uma mudança de paradigma forte para nós.

Um dos motivos dos muitos acidentes de trânsito no Rio de Janeiro é que muitas pessoas dirigem ou andam na rua muito autocentradas, pensando apenas em si mesmas, sem reconhecer adequadamente…os outros. São pessoas que tentam entrar no elevador antes que as outras pessoas consigam sair de dentro dele. Que não seguram a porta. Como as que me atrapalharam ao ajudar uma senhora cega a atravessar a rua e chegar na parede de uma loja porque não queriam se desviar de seu caminho.

Em outra medida, são pessoas que usam aulas expositivas para expor o conteúdo sem ter muita certeza ou mesmo preocupação se os alunos as estão entendendo, se estão aprendendo. Assim, inibem curiosidade e inventividade.

Quem é o outro? Quem não é você.  O estranho. Que pode ser o próximo ou o inimigo, dependendo do “bom samaritano” que existe em você.

Sem reconhecer o outro para convidá-lo ao diálogo, à co-criação, não há interatividade. Este é o nosso grande desafio para nos integrarmos neste novo paradigma que cada vez mais, democraticamente, toma o lugar do outro. DEpende de nós torná-lo fraterno ou frio, amigável ou invasivo.

O que é Crítica

sábado, 13 de junho de 2009

É comum termos uma visão negativa do termo “fulano só sabe criticar” , por isso surgiu a expressão “crítica construtiva”, mas criticar não é o mesmo que falar mal.
Vamos primeiro à definição do termo:

Críticaa palavra crítica (do grego crinein) significa separar, julgar. A crítica é uma avaliação que julga o mérito estético de uma obra de arte, a lógica de um raciocínio, a moralidade de uma conduta etc.

Podemos ver então que o trabalho de um crítico é trazer uma avaliação a partir de seus conhecimentos de uma determinada obra ou teoria. Isso permite que pessoas com menos tempo ou conhecimentos avaliem se querem ou não ler o livro, ver o filme, assistir a peça ou palestra etc.

Normalmente, mesmo que seja muito respeitado, o crítico não pode apresentar uma avaliação puramente subjetiva, mas deve embasar sua opinião com determinados aspectos objetivos. Isso é importante, porque alguns críticos de renome podem levantar ou arruinar carreiras artísticas com suas avaliações, e devem usar esse tipo de poder com critério e seriedade. Por esses motivos, muitas empresas que produzem ou comercializam essas obras tentam cooptar o crítico para obter avaliações positivas sobre seus “produtos”. As estratégias vão desde a legítima tentativa de persuasão, através de explanações e conversas, às ofertas de presentes e outras barganhas ao jornalista, o que envolve questões éticas.

A crítica tem duas vertentes: a objetividade e a subjtividade.
A subjetividade se aproxima do que chamamos de “gosto”, um sentimento, um prazer ou asco que temos com algo que se refere a uma identificação interior. Por isso que se diz que gosto não se discute etc.

Critérios objetivos buscam uma racionalidade, uma avaliação a partir de um padrão com o qual a narrativa, obra de arte, teoria, é comparada. Os critérios desse padrão são uma decisão histórica e variaram muito ao longo do tempo. Basicamente são determinados por uma elite que os estipula de acordo com a tradição ou postulados teóricos vigentes em sua época. Isso para determinar se uma obra é “arte”, “marcante”, “significativa”, “de qualidade” etc e merece receber verbas do governo. As obras ditas “comerciais” bem tem sua legitimidade dada por suas vendas, o que implica que agradaram ao público. Mas, como muitos membros da elite consideram que o povo em geral é inculto, de gostos simples e facilmente manipulável pela mídia, esse sucesso não é sinônimo de qualidade.

Exemplos de critérios objetivos para um filme, por exemplo, são:
Enredo bem construído: os eventos se encaixam numa sequencia lógica de causa e efeito, são significativos e não há “furos”;
Personagens densas: tem personalidade e motivações bem definidas, escapando dos clichês quando são centrais para o enredo;
Bons atores e atrizes: expressam convincentemente diferentes emoções e personalidades no seu uso da voz e da linguagem corporal;
Boa direção: enredo, personagens e atores são articulados de forma a dar o máximo possível do filme; cenas de ação, humor e drama são convincentes; belas imagens; os recursos disponívels em cinema ou TV são bem utilizados etc.

Uma possibilidade é avaliar a obra em relação ao fim ao qual ela se destina. Por exemplo, uma comédia romântica da Sandra Bullock ou um filme de ação do Vin Diesel que tem como objetivo principal fazer com que um determinado público se divirta no cinema e por algum tempo esqueça seus problemas cotidianos e saia animado depois do filme, pode ser considerado bom se atingiu esse objetivo. Já um filme do Coppola, David Lynch, que tenha como meta levar a questionamentos profundos pessoais e sociais um outro público e não consegue fazer isso, pode ser considerado um filme ruim.

Por fim, devemos lembrar sempre nas críticas em sermos gentis. Se alguém gostou de um filme, HQ, música, livro, etc e você não, não diga que tal obra é uma m###. Primeiro, é uma m### para você e não para aquela pessoa. Segundo, se ela gostou é porque uma parte dela se identificou com o filme e sua opinião estará indiretamente dizendo que aquela parte dela é uma m### ou pelo menos que gosta de m###s. Ser gentil, usar de eufemismos, não é hipocrisia ou ser “politicamente correto”, é respeitar os sentimentos do outro.