O que é Narrativa

Já que estamos conversando sobre meios narrativos, resolvi colocar algumas breves definições do que seja narrativa. Temos uma noção intuitiva do que seja contar histórias, mas é bom ter alguns termos técnicos para brincar e o meu post anterior desse tipo sobre cultura fez sucesso. Logo… Como esse é um tema vasto que estudo, aguardem novos posts sobre narrativa.
Comecemos pela do professor Muniz Sodré que é bem didática:

Muniz Sodré
Professor –titular do Depto. de Comunicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Narrar: contar, expor, relatar.
Narrativa: discurso capaz de evocar, através da sucessão temporal e encadeada de fatos, um mundo dado como real ou imaginário, situado num tempo e num espaço determinados.
Na narrativa, distingue-se a narração (construção verbal ou visual que fala do mundo) da diegese (mundo narrado, ou seja, ações, personagens, tempos). Como uma imagem, a narrativa põe diante de nossos olhos, nos apresenta, um mundo. O romance, o conto, o drama, a novela, são narrativas.” (Sodré, 1988: 75)[grifos do autor; negritos meus]

SODRÉ, Muniz. Best-Seller: a Literatura de Mercado. Série Princípios. São Paulo, Editora Ática: 1988.

Criar um mundo, representar, interessante para nós que lidamos com RPGs, histórias interativas, HQs. Etc. Mas, não pára aí. Não basta contar a história, há o como ela é contada e os 3 agentes da narrativa. Vejamos um clássico- Todorov:

TZVETAN TODOROV
“O termo VISÃO ou PONTO DE VISTA, refere-se à relação entre o narrador e o universo representado. Categoria ligada, portanto, às artes representativas (ficção, pintura figurativa, cinema; num grau menor: teatro, escultura, arquitetura); (…) A visão (narrativa) é inerente a todo discurso representativo”.(2001,pg. 293) [negrito meu]
O processo narrativo possui três protagonistas pelo menos: a personagem (ele), o NARRADOR (eu) e o LEITOR (tu); ou ainda: aquele de que se fala, aquele que fala, aquele a quem se fala. (…) Em outros termos, tão logo o narrador é representado no texto, devemos postular a existência de um AUTOR IMPLÍCITO ao texto, aquele que escreve e que não deve em caso algum confundir com a pessoa do autor, em carne e osso: apenas o primeiro está presente no próprio livro. O autor implícito é aquele que organiza o texto, que é responsável pela presença ou ausência de determinada parte da história. (…) Quanto ao leitor, não deve mais ser confundido com os leitores reais: trata-se também aí de um papel inscrito no texto. O leitor real aceita ou não esse papel: lê (ou não lê) o livro na ordem que lhe foi proposta, associa-se ou não aos julgamentos de valor implícitos do livro, que são feitos sobre as personagens ou os incidentes etc. Por vezes a imagem do narrador e a do leitor coincidem; outras vezes, o narrador se encontra do lado das personagens”.
São as relações entre: autor implícito, narrador, personagens e leitor implícito que definem, em sua variedade, a problemática da visão.”(2001, pg. 294)”.

A narrativa se constitui na tensão de duas forças. Uma é a mudança, o inexorável curso dos acontecimentos, a interminável narrativa da “vida” (a história), onde cada instante se apresenta pela primeira e última vez. É o caos que a segunda força tenta organizar; ela procura dar-lhe um sentido, introduzir uma ordem. Essa ordem se traduz pela repetição (ou pela semelhança) dos acontecimentos: o momento presente não é original, mas repete ou anuncia instantes passados e futuros. A narrativa nunca obedece a uma ou a outra a força, mas se constitui na tensão das duas.” (2004, pg. 22, negrito meu, itálico do autor)

HISTÓRIA E DISCURSO. Ao nível mais geral, a obra literária tem dois aspectos: ela é ao mesmo tempo uma história e um discurso. Ela é história, no sentido em que evoca uma certa realidade, acontecimentos que teriam ocorrido, personagens que, deste ponto de vista, se confundem com os da vida real. Esta mesma história poderia ter-nos sido relatada por outros meios; por um filme, por exemplo; ou poder-se-ia tê-la ouvido pela narrativa oral de uma testemunha, sem que fosse expressa em um livro. Mas, a obra é ao mesmo tempo discurso: existe um narrador que relata a história; há diante dele um leitor que a percebe. Neste nível, não são os acontecimentos relatados que contam, mas a maneira pela qual o narrador nos fez conhecê-los.”(1973, pg. 211) [Grifos meus]

TODOROV, Tzvetan et DUCROT, Oswald. Dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem. Tradução: Alice Kyoko Miyashiro, J. Guinsburg, Mary Amazonas Leite de Barros e Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001 [1972]
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2004. [1964-1969]
__________________. As Categorias da Narrativa Literária. In Analise Estrutural da Narrativa. (pg. 209-254). Tradução: Maria Zélia Barbosa Pinto. Petrópolis: Editora Vozes, 1973. [1966]

Ou seja, meus caros, a História é O QUÊ é contado na narrativa, o Discurso é o COMO é contado. O Como aqui inclui também o clima da história, a personalidade das personagens, este COMO do Discurso tem de ser preservado quando uma história é contada em outro meio narrativo. A menos que estejamos falando de reinterpretação em vez de adaptação ou interpretação (intérprete).

Paul Ricoeur
First, I am not characterizing narrative by its “mode” that is, by the author’s attitude, but by its “object”, since I am calling narrative exactly what Aristotle calls muthos, the organization of the events. I do not differ from Aristotle, therefore, on the plane he places himself on, that of the “mode”. To avoid any confusion, I shall distinguish narrative in the broad sense, defined as the “what” of mimetic activity, and narrative in the narrow sense of the Aristotelian diégésis, which I will henceforth call diegetic composition.” (1990: 36) [negrito meu]
Paul Ricoeur considera a narrativa a representação da ação, uma organização dos eventos numa mimética criativa e transformadora.

Janet H.Murray
“É claro, a razão pela qual o livro é relevante para profissões tão diferentes tem a ver com o uso amplamente difundido da narrativa como maneira de organizar o mundo, assim como a reconhecida capacidade do computador de reunir diversos campos de atividades humanas sob uma mesma estrutura”.
“Em parte, questões sobre conteúdo e forma dos videogames são, de fato, indagações sobre o próprio poder da narrativa. A narrativa é um de nossos mecanismos cognitivos primários para a compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidades, desde a tribo agrupada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante do aparelho de televisão. Nós contamos uns aos outros histórias de heroísmo, traição, amor, ódio, perda, triunfo. Nós nos compreendemos mutuamente através dessas histórias e, muitas vezes vivemos ou morremos pela força que elas possuem”. (Murray, 2003:9) [negritos e itálicos meus]

A narrativa estrutura nossa forma de ver o mundo, a arte imita a vida e vice-versa. Se a literatura não tivesse esse poder de pensar, de questionar o real a partir do ficcional, por que os governos ditatoriais se preocupariam tanto em censurar os livros? Não que as pessoas confundam real com imaginário, mas pela fantasia podem imaginar como o real poderia ser e agir para transformar a imagem em ação – eis o poder da imaginação.

Próximo post…Jogo.

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