Adaptações de um meio narrativo para outro

Adaptações de uma história de um meio narrativo para outro, mais tradicionalmente de um livro para um filme, são muito mais complexas do que simplesmente “filmar as cenas do livro”, mantendo os diálogos. Isso é sabido há mais de 2.000 anos.

Aristóteles, na Poética, fala de dois modos narrativos: o diegético que se constitui do poeta declamando o épico, e o dramático, interpretado por atores numa peça de teatro. Ele observa que os meios narrativos diferentes impõe modos diferentes de contar a história. O exemplo que ele dá é a cena do poema épico de Homero “Ilíada” em que Aquiles persegue Heitor em três voltas ao redor das muralhas de Tróia. No poema, podemos acompanhar os pensamentos de Heitor que percebe que seu fim está próximo. Comovente e emocionante quando declamada, tal cena seria ridículoa se interpretada num palco de teatro com dois homens correndo ao redor de uma maquete representando Tróia ou entrando e saindo de cena correndo.

Em tempos recentes, tanto Bryan Singer, ao adaptar os X-Men das HQs para o cinema, quanto Peter Weir, ao adaptar a série de livros Master&Comander para o filme Mestre dos Mares, fizeram observações similares: a pessoa responsável pela adaptação tem que compreender e aprecisar a história em seu meio narrativo original para então contá-la reinterpretando-a para o novo meio narrativo. Foi assim que as HQs de X-Men se tornaram um filme de ficção-científica. O importante é que os grandes temas da história e suas personagens sejam respeitados. Claro que nenhuma reinterpretação será perfeita, principalmente do ponto de vista dos fãs atentos aos mínimos detalhes. Mas, como disse Peter Jackson sobre sua versão do “Senhor dos Anéis”, o empenho, carinho e respeito em relação à obra original tem de ser sentidos pelo público.

Vejamos mais um exemplo:

trecho de livro fictício: “Eduardo entrou na sala. Ele se vestia de forma sóbria, demonstrando um gosto refinado para roupas, mas sem exageros. Sua expressão era cortês, mas sem grande abertura para intimidades, suas passadas confiantes, nota-se que era um homem acostumado a comandar. Seus olhos negros pararam um instante sobre eles e Eduardo os saudou com um “bom-dia” grave, porém polido.

OK. Cinema: figurino: o personagem tem que usar uma roupa que remeta as pessoas a idéia de um gosto refinado, porém sóbrio; Linguagem corporal: o ator tem que ter uma expressão facial e um andar que remetam as idéias acima colocadas sobre o personagem. Não temos um narrado explicando isso para os expectadores. E… ainda tem a voz.

Além desses pontos óbvios. Que pontos da trama original são realmente importantes? Como selecioná-los?

Isso tudo não quer dizer que uma história contada num livro será sempre melhor que a de um filme. Num livro tende-se a ter mais espaço para desenvolver enredo e personalidade das personagens, mas algumas pessoas preferem mais imagens e trilha sonora, sentem mais empatia com as personagens assim e por isso preferem os filmes.

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