A Dama do Lago

Lago, sereno e profundo. De dia, com o sol batendo em cheio, até parece de um verde escuro. Qualquer outra hora são águas escuras, tão escuras que não dá para ver o fundo. Tem vida ali. Peixinhos, sapinhos, tantas plantas aquáticas… Tem gente que imagina o que tem no fundo. Imagina, mas não mergulha. Porque quem entra no lago, não sai. Quando muito, grita antes de afundar. É o que dizem os moradores da vila. Confie em mim.

Por essas e por outras, se imagina que nas profundezas do lago há muitos esqueletos. Perto da superfície, se sabe, está a dama do lago. Está lá há anos, mas não desde sempre. O idoso mais velho da aldeia era um meninote quando ela surgiu. Até então se pescava e nadava no lago.

Primeiro sumiu um rapaz. Depois outro. Depois outro. Depois uma criança. Depois outra. Quem mergulhava para procurar nada achava. Ou não voltava. Uma noite a viram. Cabelos de um verde escuro, pele branca esverdeada, olhos negros, dentes muito brancos. Muitos rapazes galantes tentaram conquistá-la. A dama do lago comeu bem. Finalmente, o povo aprendeu sua lição.

Problema resolvido você diz. Basta evitar o lago. Só que a terra aqui é seca. Muito seca. Para viver se precisa da água dos poços. Quando a dama do lago passa fome, a água dos poços fica salobra, depois fica venenosa. Por isso, não tem jeito, uma vez por mês, alguém vai se encontrar com a dama do lago. Primeiro foram os velhos e doentes. Depois foram outros. Por que as pessoas não se mudam dali, você pergunta? Bom, aos poucos, algumas foram se mudando. Mas, há uma guerra correndo o mundo ao redor da aldeia. Então para onde ir? Muitas foram ficando. Sempre morria alguém de doença, não morria? Então morrer alguém uma vez por mês não parecia tão ruim. Sempre tinha um doente, um vagabundo, um inútil, um criminoso. Só que nem sempre tinha. Este mês não teve e a água ficou venenosa de novo. Muitas pessoas adoeceram. Os aldeões começaram a escolher uma dentre as crianças órfãs. Por isso, eu estou aqui.

– Muito nobre da sua parte.

A dama do lago nadou preguiçosamente pelo lago observando o homem na margem.

– Eu imaginava que você não conhecia a história dos aldeões dos quais vem se alimentando.

A dama riu, afundou numa cambalhota e voltou à superfície ainda rindo:

– Você se preocupa com a história dos frangos dos quais se alimenta? Dos porcos?

Ela nadou para a margem, seus olhos fixos no homem, famintos, vorazes. Ela parecia prestes a dar o bote e puxá-lo para o fundo:

– Será que sua bondade o deixou mais saboroso?

– Veja por si mesma.

O homem cortou o dedo mindinho da mão esquerda com uma faca e o jogou na direção da dama do lago. Surpresa, ela saltou das águas como um tubarão engolindo o dedo no ar. As águas ficaram calmas, então ela ressurgiu:

– Delicioso! Quero mais.

A dama do lago saltou para fora do lago derrubando o homem no chão. Da cintura para baixo seu corpo era o de uma serpente marinha.

– Então você pode sair da água.

A dama do lago sorriu com dentes afiados. Então atacou. Mordeu o homem no ombro, arrancou um pedaço e… Recuou enojada.

– O que é isso? O que está acontecendo?

Então ela viu o sangue do homem. Era de um vermelho escuro, enegrecido.

– Eu tenho a peste. – respondeu ele – Bom, não sei se “a peste”, mas pelo menos uma peste. Contágio só pelo sangue, mas é letal. Pelo visto também para seres como você.

A dama do lago começou a ter convulsões. Ela rosnou furiosa:

– Maldito!

Ela avançou com movimentos desordenados. Ele esquivou saltando de lado e enfiou sua adaga na nuca da dama do lago. A criatura estrebuchou e morreu. Não virou água, não virou gente, morta continuou como estava: monstro. O homem coletou amostras de cabelo e sangue, presas e garras. Então fez uma anotação em seu diário:

“A dama do lago era uma serpente da cintura para baixo e não peixe como inicialmente suspeitei. Talvez sua natureza serpentária explique como ela envenenava os poços. Suspeito que o lago se comunique com um lençol subterrâneo de água que também abastecia os poços locais. A criatura mostrou-se vulnerável tanto à peste quanto ao aço comum, não sendo preciso usar prata ou armas abençoada. Aparentemente a contaminação de meu sangue pela peste não chegou até as extremidades, pois ela não a sentiu quando devorou meu dedo, apenas quando me mordeu no ombro”

“Victor, primeira lua cheia da primavera”

 

Victor então enfaixou o toco de seu dedo mindinho e o ferimento causado pela mordida em seu ombro. “Teria sido mais fácil se ela tivesse morrido ao comer meu dedo. Acabei me arriscando.” Victor suspirou, tudo levava a crer que a marca da peste ainda não tinha atingido suas extremidades, dedos das mãos, provavelmente também os dedos dos pés, orelhas. Bom, isso indicava que ele ainda devia ter cerca de um ano de vida. Victor não suspirou. De que adiantava suspirar? Ele reuniu suas coisas e foi dar às boas novas aos aldeões. Não pediria recompensa além do necessário: comida, bebida, bandagens, remédios e um dinheirinho para seguir em frente. Victor precisava de muitas boas ações para compensar as coisas que tinha feito nos anos passados e conseguir um lugar melhor no que quer que espere por ele no Além.