Arte não é uma democracia? Depende da proposta.

George RR Martin, autor da série de livros “A Song of Ice and Fire” que gerou a bem sucedida série de TV “Game of Thrones”, declarou em uma entrevista que a “arte não é uma democracia” (https://www.youtube.com/watch?v=Upka7Kc-Dpw). O ponto de Martin é que o autor não pode sempre escrever o que seria mais popular, que há personagens e eventos que podem ser desagradáveis para os fãs no momento em que lêem, mas que no longo prazo se provarão como as decisões mais acertadas. Ele dá como exemplo (SPOILER ALERT) a morte de Ned Stark ao final do 1º livro, ou 1ª temporada. Se os fãs pudessem ter votado ele crê que Ned teria ficado vivo, mas que isso seria o caminho errado para a história. Richard e Wendi Pini tem posicionamento similar em relação à sua série de HQs “Elfquest” sobre a qual tem total controle autoral. Em entrevista, o casal responde que recebe cartas de fãs furiosos com a direção que a história toma, enquanto outros estão empolgados. Wendy responde que em ambos os casos eles não se importam, a história é deles e estão levando as personagens para onde elas devem ir. (“We don´t care either way. The story´s ours. We´re taking the characters where they have to go right now”. The Elfquest Gatherum. Volume Two. Father Tree Press, a division of Warp Graphics Inc. 1988. Pg.61. NY/USA) . Por fim, posso mencionar a decisão de Kurt Sutter, showrunner da série de TV “The Bastard Executioner” que foi cancelada após uma temporada. Sutter entende que seu papel como contador de histórias é compartilhar sua visão com a audiência, engajá-la e entretê-la e se isto não está acontecendo ele prefere cancelar a série por não ter interesse em escrever algo que ninguém está assistindo (https://www.hollywoodreporter.com/live-feed/kurt-sutter-cancels-bastard-executioner-841296 ) .
George RR Martin, Richard e Wendi Pini, afirmam ter grande carinho e respeito por seus fãs. Martin é elogiado pela entrevistadora pelo bom relacionamento que tem com seus fãs. Em ambos os casos, os autores afirmam a importância que os autores tenham uma “visão” para sua obra e que não é possível permitir que os fãs interfiram nessa visão, ditando os rumos que a história deva seguir. Kurt Sutter também coloca a importância de se manter fiel à sua visão, preferindo cancelar a série a alterá-la.
Contudo, ignorar os fãs pode ter efeitos danosos como parece estar acontecendo atualmente com a franquia de Star Wars no cinema em que o episódio VIII foi sucesso de crítica, mas com bilheteria abaixo da esperada, e o fracasso de “Solo”. Teríamos uma situação similar a da série de Sutter? A Disney não pode cancelar a série de filmes e simplesmente partir para um reboot, ou pelo menos não parece querer fazê-lo. Como fica o equilíbrio entre os desejos dos fãs e a integridade da visão autoral numa época em que narrativas com maiores graus de interatividade vêm se mostrando mais populares nos videogames RPGs, incluindo a série “Black Mirror: Bandersnatch” da Netflix.  Para quem é veterano de RPG de mesa interatividade e criação colaborativa de histórias não é novidade. Mestres e jogadores criam a história junta e se o/a mestre tentar impor suas ideias o grupo de jogo tende a colapsar. Séries com Bandersnatch e videogame RPG como “Witcher 3”, “Dragon Age: Inquisition” ou “Mass Effect:2” permitem que jogadores escolham dentre opções pré-determinadas, como os antigos livros-jogos ou aventura-solo. (RPGs de mesa dão um passo a frente estimulando os participantes a criarem alternativas imprevistas.) A vivência desses jogos narrativos, em que a história ocorre por algum nível de interação, bem como o fato de que são criados em equipe, pode ter influenciado o modo de agir desses criadores. David Gaider, roteirista-chefe da série Dragon Age, valoriza o feedback dos fãs sobre os jogos, afirmando ser horrível trabalhar num vácuo em que não se sabe se o jogo está sendo envolvente ou não. (https://www.rockpapershotgun.com/2013/03/29/biowares-gaider-on-dragon-age-iis-flaws-dragon-age-iii/#more-147728). Ainda assim, é impossível agradar a todos os fãs, até porque muitos têm visões opostas, por isso em algum nível é preciso fazer o que se achar certo. Retornamos aqui à visão sobre a obra? Talvez uma visão diferente em que se admite que o feedback dos fãs altere os rumos da narrativa a ser criada, mas somente até certo ponto, sem violar conceitos e até valores fundamentais. Este é o posicionamento que eu considero mais interessante para mim, para minha proposta enquanto contador de histórias. Não o vejo necessariamente como sendo mais comercial ou de menor integridade que o de George RR Martin ou Richard e Wendi Pini. Explico. Esses autores têm uma visão pré-definida da história que querem conta e, assim como Kurt Sutter, esperam e desejam que o público se interesse por ela, se não fosse assim não publicariam suas histórias, mas esse desejo não inclui mudar a história a partir do feedback dos fãs. Por isso Wendi Pini declarou que não se importava se os fãs estavam amando ou odiando o rumo escolhido por ela e Richard para a história. De uma forma ou de outra, iam contar o que desejam contar.
David Gaider considera o feedback dos fãs como sendo um elemento para se decidir os rumos de evolução do cenário e das tramas a serem contadas, ainda que não seja o elemento decisivo.
Eu creio que tudo depende de quem escreve e das características do projeto. Há projetos em que se abre mais espaço para os fãs, em que se convida para a co-criação, como numa sessão de RPG de mesa. Em outros, esse espaço é mais limitado, como ao se escrever um romance, ainda que o feedback de leitores-beta e editor/a não possam ser ignorados. Essa relação de interatividade e narratividade me fascina e pretendo explorá-la mais.

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