O herói, a contadora e o leão

Há heróis e heróis. Há aqueles que são invencíveis, há os que buscam que seu nome ecoe gloriosamente pela eternidade, há os que jamais desistem, há os que representam os maiores ideais de seus povos, há os charmosos e os durões, os bondosos e os cruéis. Há heróis para todos os tipos e gostos. Dentre eles, eu decidi acompanhar Golias.

A história sobre como eu conheci Golias fica para outro dia. Creio que devo iniciar com uma breve descrição do herói. Assim, se meus leitores quiserem se lembrar de como ele é, basta voltar para o começo dessa história.
Golias é alto, forte, tem cabelos castanhos escuros na altura dos ombros e não usa barba. Ele é musculoso com uma discreta barriguinha. Costuma usar uma maça e um gibão de lã como armadura. Sobre seu caráter, julguem vocês a partir do que vou contar.
Meu nome é Selena. Se esse é meu nome verdadeiro ou meu nome artístico vocês jamais saberão. Eu sou uma contadora de histórias, épicos, romances, comédias, tragédias. Se eu mentisse mais, viveria com luxo em alguma corte, se eu mentisse menos, já teria sido morta. Creio que minto na medida certa para ser livre, leve e solta.
Esta história começa com Golias indo à caça de um leão feroz que aterrorizava as pessoas de uma região composta por três aldeias, vários sítios e fazendolas. O leão devorava ovelhas, bois e qualquer azarado que encontrasse pelo caminho. A fera se esquivara das armadilhas montadas para pegá-la e deglutira caçadores e guerreiros que tinham vindo enfrentá-la. A cada sacrifico heróico, o leão ficava dias sem comer ninguém, para alívio dos aldeões. Infelizmente para eles, essa situação desmotivou outros heróis a vir enfrentar a fera.  Portanto, não foi com pouca alegria que receberam Golias, herói que se dispunha a matar o bicho. Creio que pensaram algo como “na pior das hipóteses ganhamos uma semana de paz!” Ainda assim, não pareciam acreditar muito no meu amigo.
– Qual é sua altura? – perguntou um aldeão
– Eu tenho um metro e oitenta e nove centímetros – respondeu Golias estufando o peito
– Um herói de 1,89, a gente não tem nem um de 1,99… – resmungou o aldeão.
Golias esvaziou. Ouvimos algumas risadinhas escondidas, porque 1,89m de músculos ainda é muita coisa. Golias deixou uma boa esmola e um sanduíche generoso com o mendigo da praça da aldeia. Ele sempre fazia isso. Partimos confiantes.

Uma semana depois de buscas frustradas e armadilhas vazias voltamos para a aldeia. Golias seguia soturno, sem o sorriso costumeiro. Para nossa surpresa, encontramos os aldeões de bom humor. “Parece que não perdemos a confiança do pessoal”, observou Golias. Eu não estava tão certa e fui averiguar. Preferia ter estado errada.
Encontrei meu amigo na porta da venda local. Ele saboreava um sanduíche de linguiça, uma salada simples de alface e tomate, com uma rosquinha açucarada de sobremesa. Ele havia comprado o mesmo para mim, exceto na sobremesa que era um sonho de creme. Adoro sonho de creme. Ele sorriu quando me viu e eu retribuí com as más novas:
– Os aldeões estão empolgados porque outro herói apareceu enquanto estivemos fora. Dom Gaspar, um cavaleiro andante com seu possante cavalo e cota de malha.
Golias baixou a cabeça, contemplando o chão enquanto comia. Mastigou devagar. Então:
– Qual é a altura de Dom Gaspar?
– Disseram que ele tem 2,05m.
Golias terminou o sanduíche e a salada. Pegou então a rosquinha:
– O que importa é que as pessoas sejam protegidas, não quem matou o leão.
Ele engoliu a rosquinha, limpou as mãos e levantou-se devagar:
– Mas, ele ainda não pegou o leão.
Já estávamos saindo da aldeia quando Golias se lembrou do mendigo da praça e foi lá levar um sanduíche para ele. O velhinho não perdeu a chance de retribuir:
– Danilo, o filho da viúva Carmela, esteve aqui hoje cedo dizendo que sabia onde era a cova do leão. Vai lá ao sítio dela, Seu Golias.
Meu amigo não perdeu tempo, buscou orientações sobre chegar ao sítio da viúva Carmela e foi correndo para lá. Bom, não literalmente correndo, senão eu não conseguiria acompanhá-lo. Chegamos ao sítio em menos de uma hora pegando primeiro a estrada e depois uma trilha. Era um sitio bem humilde numa clareira junto da trilha. Tinha algumas galinhas, uma horta, um tanto de bananeiras plantadas. Golias viu uma senhora cuidando das galinhas, mas antes que pudesse se apresentar ela foi logo dizendo:

– Meu jovem, pode, por gentileza, me cortar um pouco de lenha.
Enquanto Golias cortava a lenha e depois aproveitava para construir uma lança forte para manter a fera à distância, eu aproveitei para contar a ele as histórias sobre o leão que havia coletado com os moradores:
– Dizem que o leão é gigantesco e tem pele invulnerável.
Golias apenas assentiu com a cabeça, concentrado em seu serviço. Continuei:
– Falam também que ele caiu da lua.
Ele parou, olhou para cima, era uma dessas tardes em que mesmo de dia se consegue ver a lua, e se virou para mim com os olhos arregalados:
– É possível alguma coisa cair da lua?!
Apenas dei de ombros. Sei lá. Há tanta coisa esquisita nesse mundo. Golias largou a lança, saiu da sombra das árvores e ficou olhando para o céu:
– Seria uma queda e tanto! A lua está mais alta do que qualquer montanha. A menos que…
– A menos que o que?
Golias apontou para as montanhas no horizonte e sorriu:
– Ontem de noite, a lua surgiu por detrás daquelas montanhas. Estava pouco acima delas. Se o leão caiu naquele momento, então a queda não foi tão grande quanto seria se ele tivesse caído no meio da noite. Só pode ser isso. Ainda assim, é uma grande queda!
A lógica de Golias nunca cessava de me surpreender.
Lenha cortada, a viúva Carmela nos contou o que o filho dela lhe havia contado:
– Danilo estava caçando, não o leão porque o menino tem juízo, mas caça pequena como paca, tatu, cutia não. A gente precisa de um pouco de carne de vez em quando para ter outra mistura no feijão além de ovo cozido. Foi quando ele ouviu um rugido e subiu numa árvore. Meu menino é rápido nessas horas. Já para cortar a lenha…
– Por favor, Dona Carmela, continue. – incentivei – A senhora é uma grande contadora de histórias.
A viúva ficou sorridente:
– Bom, eu costumava contar histórias para o Danilo quando ele era menino. Pela sua viola vejo que é menestrel. É a primeira mulher menestrel que eu vejo?
– Ainda somos poucas, mas cada dia há mais de nós. Se a senhora quiser mudar de profissão e virar contadora de histórias, ainda está em tempo!
Dona Carmela riu com gosto:
– Já se foi o tempo de eu fazer essas loucuras! Onde eu estava? Ah, sim. Danilo estava no alto da árvore quando viu um cavaleiro, o tal Dom Gaspar, passar a cavalo, imponente em sua armadura cavalo de guerra. Mas, o leão saltou sobre ele de uma moita, pegando-o de surpresa e derrubando-o do cavalo. A montaria morreu de uma patada só. O cavaleiro se engalfinhou com o leão, mas este pulou sobre ele levando-o ao chão. E aí é que vem a parte estranha…
Eu e Golias estávamos de olhos e ouvidos bem abertos, concentrados na história. Só faltava a pipoca. A viúva Carmela continuou:
– O leão segurou o cavaleiro com as patas. Danilo pensou que o leão ia fazer com Dom Gaspar o que gatos fazem com ratos, brincar antes de comer. Só que o leão, que é enorme, abriu a bocarra, cobriu o rosto de Dom Gaspar com ela, mas não mordeu. Parecia estar bafejando no rosto do cavaleiro que se sacudiu, se sacudiu, até que foi ficando mole e desmaiou. Daí o leão o levou embora o segurando com a boca pelo cinto. Meu menino seguiu o leão com cuidado e descobriu onde era a cova do monstro. Fica numa pedreira aqui perto. Ele justamente foi à aldeia de manhã te procurar para dizer onde fica a cova do leão, mas não te achou. Danilo foi buscar água no rio porque nosso poço secou, mas logo deve estar voltando.
– Onde fica o rio.
Com as indicações da mãe do Danilo, fomos para o rio. Golias ia em silêncio, atento a tudo. Minha mente ia longe, tentando combinar letra e melodia para compor uma balada sobre essa caçada. Por isso, trombei no Golias quando ele parou de repente. Tomei um susto. Mas, não xinguei. Tinha aprendido a tomar cuidado quando Golias parava assim. Ele fez um sinal e eu subi na árvore mais próxima e armei minha besta. Eu podia ouvir o rio correndo ali próximo. O herói se enfiou no mato e desceu por uma ravina. Fiquei esperando. Não é um bom sinal quando a floresta está em silêncio. O único movimento era o de um mosquito chato que teimava em me entrar pelos ouvidos. Já ia gritar quando Golias reapareceu. Ele trazia o corpo quebrado de um rapaz de uns dezesseis anos. Desci da árvore e meu amigo respondeu a pergunta travada em minha garganta:
– Ele estava no fundo da ravina. Encontrei rastros. Danilo deve ter encontrado com o leão, fugiu correndo, despencou na ravina e morreu com a queda. Por algum motivo, o leão não quis ir atrás.
Voltamos pela trilha em silêncio. Golias levando o rapaz nos braços. O que aconteceu depois foi tenebroso. A mãe desesperada, aos prantos, quase louca de dor, agarrando o corpo morto do filho, clamando aos céus por respostas que não vinham. Não consigo descrever. Não consigo compor. Só chorar.
No dia seguinte, lança pronta, fomos ao encalço da fera. Não foi difícil achar a pedreira, mesmo sem sermos grandes rastreadores. Não havia árvores por perto, então fomos juntos. Eu com minha besta armada, ele com a maça de guerra em punho. Entramos na caverna. Ouvimos gemidos. Tristes, doloridos. A gruta era escura, úmida, chão de terra, pedra cinza. Andamos uns dez metros quando Golias apontou para um túnel à direita. Nele havia várias ossadas humanas acumuladas, como troféus. Os gemidos vinham de mais à frente. Caminhamos. Vimos-nos diante de um buraco mais ou menos retangular. Tinha um metro de profundidade por quatro de comprimento e dois de largura. No fundo, tentando sair dali, estava um homem sem as pernas. Golias saltou e o pegou nos braços:
– Dom Gaspar?
O cavaleiro chorou. Chorou. Chorou. Saímos dali rapidamente.
– Não vai colocar armadilhas para o leão?
– A fera pode voltar a qualquer instante e sentir nosso cheiro.
Perto dali, em uma clareira, examinei os ferimentos de Dom Gaspar. Nunca tinha visto nada igual. As pernas tinham sido devoradas até o alto das coxas. Ele deveria ter sangrado até morrer. Mas, uma gosma seca e dura envolvia os ferimentos detendo qualquer sangramento. Dom Gaspar estava febril, de olhos arregalados nos contou o que tinha acontecido:
– O bafo do leão me fez desmaiar. Acordei em seu covil. Tentei fugir, mas ele saltou sobre mim, jogando-me de bruços sobre o chão. Fiquei preso sob seu peso. Então, ele começou a comer minha perna direita. Desmaiei de dor. Acordei. Minha perna latejando. O monstro percebeu e voltou a devorar minha perna. Cada vez que eu desmaiava, o leão cuspia uma baba maldita para eu não sangrar até morrer. Quando acordava, ele arrancava outro pedaço de mim com os dentes. Queria me devorar aos poucos. Queria que eu soubesse. Queria…
Gaspar desmaiou. Foi melhor assim. Eu respirava descompassada, meu coração batia torto, suava frio. Golias não falava nada, mas suava. Minha garganta estava seca:
– Você já…

Rugido! Ouvi um rugido. Meu sangue gelou até a alma. Golias ergueu a lança. Eu me virei e vi o maior leão que já tinha visto na minha vida. Não que eu houvesse visto um leão antes. A fera saltou sobre Golias, derrubando-o com uma patada. Não fosse seu gibão as garras da fera teriam rasgado seu peito. Eu podia jurar que ele havia atingido o leão com a lança, mas ela não penetrara na pele do animal Será que as histórias eram verdadeiras?
O leão abriu a bocarra para arrancar a cabeça de Golias. Eu subi pro alto da primeira árvore que vi e armei minha besta. Disparei uma seta que resvalou no couro do bicho. Não fez nem cócega. A balada de Golias ia terminar em tragédia. Senti as lágrimas no fundo dos olhos. Golias acertou a cabeça do leão com sua maça, tonteando-o por um instante. Quando o monstro se recuperou, Golias já estava de pé com a lança de novo nas mão. Se um leão algum dia sorriu, aquele sorriu. Avançou, saltou, de bocarra escancarada e garras à mostra. Golias avançou e enterrou a lança goela adentro da fera. Esta engasgou, pulou, rosnou, estrebuchou e morreu. Desci feliz da árvore.
Quando cheguei perto, Golias havia arrancado a lança de dentro do leão e examinava a fera. Eu vi marcas esverdeadas na lança junto da ponta. Como se o sangue do leão era vermelho? Só se…
– Você envenenou a lança?
– Uai! Não disseram que o couro do leão era invulnerável? Então se eu não podia matar o bicho de fora pra dentro, tinha que matar de dentro pra fora.
“A lógica de Golias nunca cessava de me surpreender”

Golias tentou cortar a pele do animal com sua faca. Não funcionou. A pele realmente era invulnerável a cortes. Ele ficou examinando as garras do leão e começou a usar uma delas para tentar tirar a pele do leão. Parecia que ia funcionar, mas seria um trabalho por demais custoso. Então, ele optou por deixar Dom Gaspar com a viúva Carmela para que esta cuidasse dele, foi até à aldeia onde alugou uma carroça de bois e com esta trouxe o corpo do leão monstro para o deslumbre dos aldeões. Foi uma gritaria seguida de algazarra e festa quando meu amigo entrou vitorioso na aldeia. As piadinhas se calaram. Ele recebeu seu pagamento: dez moedas de ouro, trinta de prata, peças de lã e couro, duas cabras. As cabras e uma peça de couro ele doou para a viúva Carmela, uma moeda de ouro ele deu para o mendigo. Uma peça de lã e uma de couro ele empregou para consertar seu gibão. Depois comemoramos na taberna rindo e eu ganhei uns trocados cantando e tocando minha viola. No fim da noite, já bem altos, cada um de nós foi para um quarto de braços dados com uma rapariga empolgada com nossa aventura.

No dia seguinte, partimos.

Encruzilhada

Encruzilhada, duas estradas, uma árvore velha e sem frutos marca o lugar de descanso onde se pode pensar sobre para qual lado ir.

A vila mais próxima não fica perto, mas dá para ouvir o sino da Igreja. Ainda falta um tanto para a meia noite, daquela que é uma noite sem lua. João do Cruzeiro se senta atrás da moita para esperar, mas sem cruzar as pernas para poder levantar rápido. Ele corta um pedaço de pão, outro de toucinho, e mastiga devagar. A mente volta para dez anos atrás.

O cirurgião barbeiro estava na cabeceira da cama examinando a menina fazia mais de meia hora. João havia gasto o que tinha e o que não tinha para trazer o homem da cidade para ver sua filha. Era sua última esperança. Curandeiro, benzedeira, padre, todos lhe tinham falhado. A menina vinha piorando com febre atrás de febre, tosse atrás de tosse, por mais de um mês. Com sua esposa enterrada no quintal e sua única filha na cama, João penhorava todos os seus dias felizes por vir por um final feliz para aquela noite.

João coloca o saco de moedas no chão, nele tem o suficiente para comprar uma parelha de bois. Depois, ele separa a pólvora, as balas devidamente benzidas, e começa a carregar seu trabuco. Enquanto a noite avança, João masca fumo e continua a se lembrar.

O cirurgião barbeiro foi embora sem dar boa notícia, mas sem deixar de cobrar a visita. Os olhos de João estão secos de tanto chorar. A menina respira com dificuldade. Ela abre os olhos e vê João:
– Papai?
– Estou aqui, minha filha.
João acaricia a testa quente da filha.
– Papai, eu vou ficar boa, não vou? – A menina pergunta sorrindo confiante em seus sete anos que se o pai está ali tudo vai dar certo.
João não sabia que ainda tinha lágrimas para chorar.

Um homem branco de cabelos e barba castanhos vem caminhando pela estrada. João se abaixa atrás da moita. O homem chega até a encruzilhada e se põe a esperar. Depois, ele acende uma vela no chão e começa a balbuciar todo tipo de bobagens desnecessárias para o que ele pretende. O homem parece ter pouco mais de vinte anos, nem rico e nem pobre, nem alto e nem baixo, nem gordo e nem magro. João se pergunta o que ele quer: dinheiro? Terras? Título de nobreza? Curar alguém que ele ama? Encontrar uma pessoa perdida?

João se lembra daquilo que mais quis na vida, a razão pela qual faria qualquer coisa.

A respiração da menina é um fiapo. Há uma hora que ela não abre os olhos. O sino da igreja dá meia-noite. João está imóvel, insensível pelo desespero. Foi nessa hora que ele veio. João nem precisava abrir os olhos para saber que tinha alguém ali, mas abriu assim mesmo. Nas sombras, um homem de pele branca, cabelos loiros e olhos verdes, o fitava, usando roupas finas. Ele sorriu e se aproximou da menina.
– Ela está mal mesmo. – disse o homem loiro com uma voz doce.
João se levantou de um pulo para junto da filha:
– Tire as mãos dela!
O homem recuou com um sorriso:
– Calma. Isso são modos de tratar quem quer ajudar?
João ficou em silêncio.
– Você sabe quem eu sou? – perguntou o homem loiro.
João, em silêncio, assentiu com a cabeça.
– Eu posso curá-la.
João olhou para a filha, depois olhou para o homem:
– Você pode mesmo curá-la?
– Certamente, mas isso tem um preço e você sabe qual é.

Deu meia-noite. O homem de cabelos castanhos já estava rouco de tanto falar quando ele apareceu. Foi então que ele veio. Desta vez como um homem grande e forte de cabelos negros, barba cerrada e pele bem morena. O cão tinha muitas formas, mas João conseguiria reconhecer o chifrudo em qualquer uma delas. O homem de cabelos castanhos se aproximou do capeta e começou a negociar. João apurou os ouvidos:
– Ela tem que ser minha!!! Minha! Eu a amo e sei que ela será feliz comigo. Só eu posso fazê-la feliz, entende? Eu sei que no fundo ela me ama também! – dizia o homem de cabelos castanhos nervoso, suando e de olhos arregalados.
– Claro, eu posso fazer isso, mas minha ajuda tem um preço!
– Eu pago o preço que for!
Antes que o caramunhão respondesse, João saltou de trás da moita e matou o homem castanho com um só golpe de facão. Ele caiu morto sem entender o que tinha acontecido.
– Cedo ou tarde esse doido ia acabar matando a coitada que estava perseguindo – resmungou João.

João acariciou a testa da filha, olhando-a com ternura.
– Então, temos um acordo? – perguntou o homem loiro.
– Eu confio em Deus – respondeu João
– Deus –ironizou o coisa ruim – onde está Deus agora? Que ajuda Ele deu pra você?
– A promessa de Deus é a do Paraíso depois dessa vida – respondeu João beijando a filha na testa – se você existe então essa promessa existe também. Não vou negar o Paraíso para minha filha.
João se virou então para o capeta com ódio nos olhos:
– Mas, você…você faz promessas nesse mundo e não salvou minha filha porque não quis! Por isso, eu juro que vou dedicar minha vida a desfazer sua obra na terra!

Frustrado, sem a alma que queria levar, o senhor das trevas olhou com raiva para João, mas, antes que ele abrisse a boca, João disparou o trabuco fazendo-o sumir numa explosão de enxofre.
– Promessa é dívida. – sussurrou João do Cruzeiro.

Entre a Cruz e a Espada

– Perdoe-me, padre, porque vou pecar.
Padre Fernão piscou os olhos sem entender direito. Depois tossiu e perguntou:
– Você quer dizer “perdoe-me, padre, porque pequei”, não é meu filho?
– Não padre, isso eu disse na minha confissão da semana passada. É do que eu ainda vou fazer que eu estou falando.
Padre Fernão ficou em silêncio enquanto fitava as paredes de madeira do confessionário. “Quando cheguei nessa terra depois da expulsão dos flandrinos tudo era novidade. Depois de vinte anos nos Brasis pensei que nada mais me espantaria…”
– Está tudo bem, padre Fernão?
A pergunta foi feita num tom gentil, quase amistoso, mas Padre Fernão sentiu um calafrio lhe correr pela espinha. Suor desceu-lhe pela testa. O que era aquilo? Por algum motivo, lembrou-se de hoje cedo viu um ratinho seguir desconfiado pela Igreja, atento ao gato. Por que ele lembrara daquilo? A voz. Fernão não conhecia a voz do homem. A igreja estava em silêncio, vazia àquela hora da noite. Por que a voz o assustava. Por quê? E se ele não reconhecia a voz, como aquele homem sabia seu nome?
– A minha dúvida, meu filho, é por que você precisa pecar? Se ainda não pecou, por que vai pecar?
– Eu tenho uma dívida com uma pessoa que salvou minha vida, padre. E João do Cruzeiro sempre paga suas dívidas.
– E que pecado é esse?
– Há coisa de uns dez anos, numa vila longe daqui, tinha uma família que tinha fazenda na roça e casa na cidade. Um dos escravos era de ganho, ganhava uns trocados consertando sapatos para o povo. O pai economizou o que pôde para comprar a liberdade da família. Ele confiou no padre com o qual se confessava para comprar a alforria com o dinheiro suado que ele ganhou. O safado do padre sumiu pelo mundo levando o dinheiro e a coitada da família de escravos foi separada quando a fazenda quebrou. Pai, mãe, irmãos e irmãs vendidos para diferentes fazendas. Então…
Padre Fernão correu para fora do confessionário, atravessou a igreja bufando e saiu pela porta principal com João Cruzeiro no seu encalço. O padre foi alcançado na escadaria do lado de fora, de frente para a Praça da Matriz.
– Calma, aí seu padre. Não envergonha ainda mais a batina!
Padre Fernão se virou e cuspiu em João:
– Me solta seu sem-vergonha! Você acha que estou sozinho?
Dois homens apareceram, um de cada lado da igreja, cada um com um facão na mão e morte nos olhos.
– Vejo que o senhor é precavido, padre Fernão. Não era para menos já que aprontou muitas por aí. Tem muita vila por aí com raparigas que o odeiam. Não é a toa que o senhor não passa duas quaresmas na mesma paróquia.
João do Cruzeiro soltou padre Fernão que alisou a batina. Então João puxou o facão com a mão direita e sorriu:
– Só que eu também sou precavido.
Das sombras surgiu uma mulher negra usando um gibão de algodão e couro, e com um facão em cada mão. O ódio no olhar da mulher era tão forte que padre Fernão caiu sentado no pátio na frente da Igreja.
– Essa é Maria das Dores, não pelas dores que sente, mas pelas que causa.
Os dois matadores de Fernão ficaram na dúvida sobre o que fazer, e depois confusos quando João do Cruzeiro recuou e ficou encostado na parede junto da porta da Igreja. Maria das Dores avançou sobre eles com um salto atacando com os facões. Ver Maria das Dores lutar era assistir um espetáculo da mortalidade do maculelê em ação. Em menos de um minuto, os dois matadores estavam mortos. Padre Fernão chorou, pediu piedade, ameaçou Maria das Dores e João do Cruzeiro de excomunhão.
-Logo, logo o senhor vai estar com Deus, padre. Daí se ele o perdoar o senhor fala de nós, mas eu acho que o senhor vai é pro outro lugar. – sorriu João.
Maria das Dores enviou padre Fernão para os mistérios do Além com um golpe.
– A sua dívida comigo está paga, João.
– Dívidas é coisa de mercador e bandido, Maria. Eu sou seu amigo.
Maria começou a sorrir, mas um tropel a interrompeu. Alguma besta de carga vinha pela rua de terra na direção da Igreja. Logo, eles avistaram uma labareda que antecedia uma mula preta de sete palmos de altura. Uma mula cuja cabeça João e Maria não conseguiam ver.
– Padre safado – murmurou Maria das Dores segurando os facões.
– Deixa essa comigo, Maria – falou João puxando da sela do cavalo um facão virgem benzido com cera de vela no altar de Nossa Senhora – esse é meu trabalho.

A Dama do Lago

Lago, sereno e profundo. De dia, com o sol batendo em cheio, até parece de um verde escuro. Qualquer outra hora são águas escuras, tão escuras que não dá para ver o fundo. Tem vida ali. Peixinhos, sapinhos, tantas plantas aquáticas… Tem gente que imagina o que tem no fundo. Imagina, mas não mergulha. Porque quem entra no lago, não sai. Quando muito, grita antes de afundar. É o que dizem os moradores da vila. Confie em mim.

Por essas e por outras, se imagina que nas profundezas do lago há muitos esqueletos. Perto da superfície, se sabe, está a dama do lago. Está lá há anos, mas não desde sempre. O idoso mais velho da aldeia era um meninote quando ela surgiu. Até então se pescava e nadava no lago.

Primeiro sumiu um rapaz. Depois outro. Depois outro. Depois uma criança. Depois outra. Quem mergulhava para procurar nada achava. Ou não voltava. Uma noite a viram. Cabelos de um verde escuro, pele branca esverdeada, olhos negros, dentes muito brancos. Muitos rapazes galantes tentaram conquistá-la. A dama do lago comeu bem. Finalmente, o povo aprendeu sua lição.

Problema resolvido você diz. Basta evitar o lago. Só que a terra aqui é seca. Muito seca. Para viver se precisa da água dos poços. Quando a dama do lago passa fome, a água dos poços fica salobra, depois fica venenosa. Por isso, não tem jeito, uma vez por mês, alguém vai se encontrar com a dama do lago. Primeiro foram os velhos e doentes. Depois foram outros. Por que as pessoas não se mudam dali, você pergunta? Bom, aos poucos, algumas foram se mudando. Mas, há uma guerra correndo o mundo ao redor da aldeia. Então para onde ir? Muitas foram ficando. Sempre morria alguém de doença, não morria? Então morrer alguém uma vez por mês não parecia tão ruim. Sempre tinha um doente, um vagabundo, um inútil, um criminoso. Só que nem sempre tinha. Este mês não teve e a água ficou venenosa de novo. Muitas pessoas adoeceram. Os aldeões começaram a escolher uma dentre as crianças órfãs. Por isso, eu estou aqui.

– Muito nobre da sua parte.

A dama do lago nadou preguiçosamente pelo lago observando o homem na margem.

– Eu imaginava que você não conhecia a história dos aldeões dos quais vem se alimentando.

A dama riu, afundou numa cambalhota e voltou à superfície ainda rindo:

– Você se preocupa com a história dos frangos dos quais se alimenta? Dos porcos?

Ela nadou para a margem, seus olhos fixos no homem, famintos, vorazes. Ela parecia prestes a dar o bote e puxá-lo para o fundo:

– Será que sua bondade o deixou mais saboroso?

– Veja por si mesma.

O homem cortou o dedo mindinho da mão esquerda com uma faca e o jogou na direção da dama do lago. Surpresa, ela saltou das águas como um tubarão engolindo o dedo no ar. As águas ficaram calmas, então ela ressurgiu:

– Delicioso! Quero mais.

A dama do lago saltou para fora do lago derrubando o homem no chão. Da cintura para baixo seu corpo era o de uma serpente marinha.

– Então você pode sair da água.

A dama do lago sorriu com dentes afiados. Então atacou. Mordeu o homem no ombro, arrancou um pedaço e… Recuou enojada.

– O que é isso? O que está acontecendo?

Então ela viu o sangue do homem. Era de um vermelho escuro, enegrecido.

– Eu tenho a peste. – respondeu ele – Bom, não sei se “a peste”, mas pelo menos uma peste. Contágio só pelo sangue, mas é letal. Pelo visto também para seres como você.

A dama do lago começou a ter convulsões. Ela rosnou furiosa:

– Maldito!

Ela avançou com movimentos desordenados. Ele esquivou saltando de lado e enfiou sua adaga na nuca da dama do lago. A criatura estrebuchou e morreu. Não virou água, não virou gente, morta continuou como estava: monstro. O homem coletou amostras de cabelo e sangue, presas e garras. Então fez uma anotação em seu diário:

“A dama do lago era uma serpente da cintura para baixo e não peixe como inicialmente suspeitei. Talvez sua natureza serpentária explique como ela envenenava os poços. Suspeito que o lago se comunique com um lençol subterrâneo de água que também abastecia os poços locais. A criatura mostrou-se vulnerável tanto à peste quanto ao aço comum, não sendo preciso usar prata ou armas abençoada. Aparentemente a contaminação de meu sangue pela peste não chegou até as extremidades, pois ela não a sentiu quando devorou meu dedo, apenas quando me mordeu no ombro”

“Victor, primeira lua cheia da primavera”

 

Victor então enfaixou o toco de seu dedo mindinho e o ferimento causado pela mordida em seu ombro. “Teria sido mais fácil se ela tivesse morrido ao comer meu dedo. Acabei me arriscando.” Victor suspirou, tudo levava a crer que a marca da peste ainda não tinha atingido suas extremidades, dedos das mãos, provavelmente também os dedos dos pés, orelhas. Bom, isso indicava que ele ainda devia ter cerca de um ano de vida. Victor não suspirou. De que adiantava suspirar? Ele reuniu suas coisas e foi dar às boas novas aos aldeões. Não pediria recompensa além do necessário: comida, bebida, bandagens, remédios e um dinheirinho para seguir em frente. Victor precisava de muitas boas ações para compensar as coisas que tinha feito nos anos passados e conseguir um lugar melhor no que quer que espere por ele no Além.

Escolhas

O bebê chora com fome. A mãe o pega nos braços, cantarola, senta-se à cadeira e o coloca no peito para mamar. O bebê acalma. A guerreira acaricia a cabecinha em seu colo e murmura:
– Você não é toda minha vida.

Meses depois. Um meninote de um ano corre aos tropeções com a alegria das crianças pela tenda. Mexe com almofadas, rola em tapetes, morde o cavalinho de madeira. A guerreira acompanha tudo, enquanto afia sua espada, atenta a qualquer risco. O menino sorri para ela, a mãe sorri de volta, deixa a espada de lado e pega o filho nos braços. Os dois riem um pro outro até que um conhecido aroma a faz perceber que é hora de trocar a fralda do menino.
A mulher, guerreira e mãe, troca habilmente a fralda do filho. Mãos calejadas pela guerra movem-se com destreza marcial e amor maternal.
O processo está quase terminado quando um homem de estatura mediana, cabelos, barba e olhos castanhos, envergando uma cara túnica azul escura, entra na tenda. A guerreira reconhece Dom Eudônio Severo. Ela termina de prender a nova fralda:
– Meu Senhor Conde de Estival tem um timing perfeito. José está limpinho agora.
Dom Severo pega a criança no colo, sorri para ela e recebe um sorriso de volta:
– Então já escolheu um nome?
– José Corneteiro.
– O que?!
– Tivesse sido menina, seria Maria Batalhão. São nomes tradicionais pra quem…
– Eu sei.
Dom Eudônio brinca um pouco com o José, depois dá um biscoito para o menino mastigar. A mãe sorri. Ela se serve de uma caneca de vinho e entrega a garrafa para Eudônio:
– Tire as botas. Você está sujando o tapete de lama.
Obediente, Eudônio logo tira as botas se desculpando. Em seguida, senta no catre, bebe um gole, sorri para o menino, enquanto a guerreira pensa “Se ele continuar doce assim vai me dar uma cárie”. Eudônio faz um gesto para ela, a guerreira se aproxima e ele segura a mão dela:
– Está tudo bem por aqui?
– Não mudou nada desde quando você esteve aqui dois dias atrás. A tenda é confortável, estamos longe do fedor das latrinas, seu pessoal tem trazido comida e meus colegas da companhia de mercenários do “Patinho Feio” vem me visitar.
Eudônio sorri.
– Mas, nós estaríamos melhores se estivéssemos na sua tenda que é ainda mais larga e segura, e com comidas e bebidas melhores.
Eudônio fecha a cara:
– Você sabe o porquê disso não ser possível.
A guerreira bufa de frustração:
– Você acha que tem alguém nesse acampamento que não sabe que você é o pai do menino, Eudônio?! Todo mundo sabe. Eles até duvidam que eu seja a mãe, desconfiam que é a curandeira que tratou dos seus ferimentos ano passado e que eu fui contratada como guarda-costas do bebê. Mas, que você é o pai ninguém duvida!
Eudônio riu e tomou um gole de vinho. Quando ergueu os olhos viu que não tinha sido piada. Subitamente ficou consciente de que ela tinha quase sua altura, era grande e forte. Apesar dos longos cabelos negros e pele morena, poucos diriam que a guerreira era bonita, mas tinha um carisma, uma petulância que o atraía…
– Eudônio! Está com a cabeça na lua?
O conde se levantou e a abraçou:
– Não, só penso em você!
-Ah, me poupe!
Os dois riram, se beijaram e depois que o bebê adormeceu eles…

No dia seguinte, a mãe acorda com os choramingos do filho. Faz massagem na barriguinha, prepara uma papinha enquanto dá um chutinho na perna do pai:
– Eudônio, vai pedir um café pra gente!
Dom Eudônio Severo, Conde de Estival, se levanta, sai da tenta e ordena que tragam o café da manhã para eles. Minutos depois, estão desfrutando de frutas, ovos mexidos, pão, manteiga, bolo de fubá, café, leite um suco de laranja. A mãe sorri:
– Quando você está aqui o café da manhã é bem melhor.
José se lambuza com a papinha e depois com um pão com ovo. Enquanto o menino está entretido tentando se decidir entre o bolo de fubá e o cavalinho de brinquedo, a guerreira aponta para o jogo de caxangá, jogo de tabuleiro estratégico de Terra Nova, e sorri para Eudônio:
– uma partidinha antes de você ir embora?
Eudônio ajeita as peças no tabuleiro. Ele prefere iniciar a partida:
– Você sabe que não posso pegar o menino nos braços diante de pessoas da nobreza.
– Senão você o estará reconhecendo como filho, ainda que bastardo. Sei…
– Essas coisas precisam ser pensadas com calma, com…
– Estratégia…

Muitos meses antes. A guerreira ajeita o gibão de batalha de lã e olha em dúvida para a cota de malha. Será que ele consegue vestir aquilo sozinha? Ainda não está muito pesada.
– O que você pensa que está havendo?
Eudônio a observa aturdido, se chifres de touro tivesse brotado na cabeça dela ele não estaria mais espantado. A guerreira sentiu o sangue ferver, irritação queimando a garganta:
– O que parece que estou fazendo? Estou me vestindo para a batalha. É meu trabalho!
A guerreira segurou a cota de malha com as mãos, avaliando seu peso. Eudônio a observou por alguns instantes, então caminhou até a mesa e ajeito as peças do jogo de caxangá e ficou esperando-a. Ela bufou, mas largou a cota de malha no baú e foi jogar. Ele preferia começar, para ela a preferência mudava de acordo com o adversário. Ainda assim, ela vinha aprendendo muito com aquele comandante experiente. Peças seguiram em movimentos táticos pelo tabuleiro. Eudônio moveu a peça representando “guarda de elite”:
– Guerreiros são fundamentais para uma batalha: arqueiros, cavaleiros, infantes, todos tem seu papel. Mas, quem faz a diferença decisiva são os comandantes.
A guerreira moveu a peça representando o General:
– Então você está dizendo que eu devo ficar ao seu lado e do Egberto, no comando.
– Dom Egberto, o Duque da Cidade do Canal.
– Que seja, mas é lá que eu devo ficar?
– Se você insiste em ir para a batalha, sim, é lá que deve ficar. A menos que a batalha chegue até nós. Se isso acontecer você terá que recuar para a retaguarda.
A guerreira tomou uma das peças de guarda de elite de Eudônio com seu General com tanta força que a peça voou longe:
– Vai se ferrar, Eudônio! Eu sou guerreira! É minha profissão, é o que eu gosto!
Eudônio suspirou:
– Se você entrar em combate não estará arriscando somente a sua vida.
A guerreira ficou em silêncio. A mãe sentiu o feto se mexer no útero. Eudônio moveu seu General no tabuleiro:
– Xeque-mate.

A mãe coloca o meninote nos braços da babá e sorri para ele:
– Agora você vai ficar com a Velena porque a mamãe tem que ir trabalhar.
José esticou os bracinhos para a mãe, os olhos rasos de lágrimas. A mãe o beijou. A babá o beijou e falou em tom carinhoso:
– Nós vamos nos divertir muito Zezinho.
A mãe sorriu e afagou o filho. A guerreira sussurrou no ouvido da babá:
– Se algo acontecer com meu filho eu arranco suas tripas!

Dom Eudônio Severo observa atentamente o mapa colocado à mesa na tenda de comando. Dom Egberto de Cavala, Duque da Cidade do Canal resmunga:
– Diabos me levem se eu encontro um jeito de tomar esse maldito castelo.
– Não blasfeme, meu Senhor Duque.
A voz de Dona Helena, sacerdotisa de Sarina, a Matriarca, chega suave e gélida aos ouvidos dos presentes na sala. Dom Egberto esvazia sua caneca de cerveja de um gole só:
– Pelos peidos de Bóreas! Temos que dar um jeito de invadir logo ou o cerco falhará e tudo irá para casa do caralho!
O rosto de Dona Helena fica vermelho como um tomate, seu olho esquerdo começa a tremer, Dom Eudônio não sabe se ri ou teme que ela tenha um ataque apoplético. Na dúvida fica quieto. A voz dela sai trêmula:
– Vossa Mercê…Vossa Mercê deveria evitar desagradar às divindades.
Dom Egberto gargalha. Dom Eudônio sorri por dentro.
– Brotei!

Eudônio se vira surpreso ao reconhecer a voz da guerreira. Egberto gargalha ainda mais e a abraça com vigor, esquecido de qualquer protocolo:
– Minha mercenária favorita! Quem sabe você não tem uma ideia para tomar esse maldito castelo e mandar aquele bastardo pro inferno!
A guerreira sorri se lembrando do dia em que conheceu Egberto.

Dois anos atrás. Dia de chuva. O acampamento das tropas mobilizadas para o cerco do castelo era uma confusão de lama, bosta, gente molhada, fedor de lama, bosta e gente molhada sem banho. Logo começariam as pipocar doenças de todo tipo com tosses, vômitos, diarréias e pústulas, ferindo guerreiros e prostitutas, atarantando curandeiros e afugentando mercadores.
Em meio a essa balbúrdia em que de alguma forma as coisas ainda funcionavam, a guerreira andava decidida em direção à tenda de comando. Estava quase chegando lá quando parou diante da tenda azul – pelo menos até onde a lama não havia alcançado – da sacerdotisa de Sarina. Mas, não fora a beleza do tecido da tenda que parara a guerreira. Ela tinha esperado ver tendas finas nas tendas dos nobres. O que ela não esperara era o lindo vaso de flores do campo do lado de fora da tenda da sacerdotisa. O vaso era de pedra lindamente entalhada com a representação de uma hera florida que o contornava. As flores estavam num arranjo de muito bom gosto, desafiantes em sua beleza e esperança colorida naquele oceano cinza de lama e nuvens carregadas.
A guerreira estava com pressa, estava com fome, estava molhada, mas estava fascinada. Ela ficou minutos na chuva apreciando o arranjo de vaso e flores. Depois voltou a caminhar até a tenda de comando, já que esta não viria até ela. Diante da entrada da tenda estava um guarda grande e mal encarado de sentinela:
– O que você faz aqui?!
– Dom Egberto de Cavala mandou me chamar. Eu sou…
– Ah, claro! E eu sou a princesa de Valência!
A guerreira se curvou numa mesura:
– Vossa Alteza…
O guarda fechou a cara:
– Saia daqui antes que eu te arrebente!
A guerreira pôs as mãos na cintura e ergueu o queixo:
– Tente!
O guarda rosnou. A guerreira sorriu feroz. Uma voz veio de dentro da tenda:
– O que está acontecendo aí fora?
O guarda se virou para responder, a guerreira aproveitou para entrar correndo. Ela deu de cara com um surpreso Dom Eudônio, Ao lado dele, um homem gordo e barbudo vestido num gibão de batalha caiu na gargalhada:
– Quem é a atrevida, Eudônio?
O guarda parou na entrada, sem saber o que fazer. A guerreira cruzou os braços. Eudônio engoliu em seco, depois firmou a voz:
– Esta é a guerreira da qual lhe falei, Vossa Mercê. Ela é membro da Companhia de Mercenários “Patinho Feio”, creio que se chama…
– A guerreira que arrumou uma confusão ontem de noite e enfiou a porrada em dois marmanjos?! Era essa mesma que eu queria conhecer! Vem cá mulher, quero ver se a sua cabeça é tão boa quanto os seus punhos.
Dom Egberto mostrou o mapa para a guerreira e pediu a opinião dela sobre o que estavam pensando para a próxima batalha. Ainda pouco experiente, mas astuta e atrevida, ela fez ótimas observações e boas recomendações. Até Dom Eudônio ficou impressionado. Dom Egberto riu:
– Quero essa mulher nos nossos conselhos militares a partir de agora.
Dona Helena, sacerdotisa de Sarina, deixou a sala indignada com aquela quebra de protocolo.
 

Dom Eudônio e a guerreira observam os preparativos para a batalha no dia seguinte. As máquinas de guerra, catapultas, balestras foram colocadas em posição. Havia uma animação das tropas com o fim do interminável cerco finalmente chegando à batalha. Até Eudônio, o Severo, parecia estar animado. A guerreira observou as muralhas do castelo com a luneta:
– Onde vão ser colocadas as trebucheiras?
– Trebucheiras?
– As catapultas grandes que operam por contrapeso para jogar pedras maiores e mais longe. Acho que você chama de “trabucos”
– Ah, vão ficar ali.
– O que dizem os feiticeiros?
– Ah, sabe como é. Eles vem com aquela conversa que os contra-feitiços do inimigo os impedem de adivinhar seus planos. Eles enviam doenças pra eles, bloqueiam as que eles mandam pra cá. Evocam espíritos, exorcizam espíritos. Para completar, sacerdotes e sacerdotisas dizem que os deuses não tomarão partido na batalha, logo restou para nós guerreiros resolver a questão.
A guerreira deu de ombros. Baixou a luneta. Tomou um gole de água e perguntou:
– Como vai o túnel de solapamento para derrubar as muralhas?
– Segundo os mineiros chegamos à muralha, amanhã devem queimar as pilastras de madeira que sustentam o túnel para solapar tudo.
– Então amanhã partimos pra dentro do castelo – sorriu a guerreira
Eudônio suspirou. Ela o olhou desconfiada: Eudônio mordia o lábio inferior, sinal de que temia uma discussão. A guerreira sentiu a tensão subindo. Tinham que brigar na véspera da batalha? Ele tossiu. Então:
– Eu já te falei da minha ideia para nós? Depois que essa guerra terminar, você e José podem vir comigo. Há uma casa de pedra de bom tamanho disponível nas terras de Estival. Você e ele podem ir morar lá, há uma vila perto que pode suprir vocês com comida, tecidos. Colocarei uma serva à sua disposição. Poderemos nos ver frequentemente. No começo talvez só uma vez por mês, mas depois…
A raiva cresceu num nó tão forte que ela mal conseguia respirar. Cravou as unhas nas palmas das mãos. A voz saiu num rosnado:
– Você quer que eu fique como sua amante numa casinha de pedra para você nos visitar sempre que for conveniente? É isso?!
Eudônio suspirou:
– Eu não estou falando para você deixar sua carreira de guerreira de lado…
– Ainda bem!
– Mas, um menino precisa de sua mãe. Pelo menos até o José fazer nove anos. Então podemos mandá-lo, como reza a tradição, para ser educado como escudeiro por uma família nobre…
– Você quer que eu abra mão do meu trabalho por nove anos?!
– Querida, há o seu trabalho e há o nosso filho, logo…
– Se você me disser que a grande realização da vida de uma mulher é criar um filho, eu arrebento a sua cara!
Eudônio suspirou. A guerreira trancou os dentes com tanta força que sentiu gosto de sangue na boca. Ela respirou fundo para manter a calma:
– Depois da batalha conversamos sobre isso!
Eudônio parecia muito infeliz, mas resoluto. Ele falou com uma voz tão calma que dava raiva:
– Eu vou estar na linha de frente, no comando tático, logo você precisa estar atrás, junto ao comando, longe da batalha.
– Como é? Eu não estou grávida e o José tem babá! Eu sou guerreira Eudônio, é o que eu nasci pra fazer! Nem pensar! Eu vou para linha de frente!
– Não é justo o José correr o risco de perder a mãe e o pai ao mesmo tempo. E uma criança pequena precisa muito mais da mãe do que do pai!
A guerreira girou os calcanhares e foi embora deixando Eudônio falando sozinho, antes que a raiva a cegasse e ela desse na cara dele. Caminhou com a cara tão fechada que ninguém se atreveu a falar com ela. Entrou bufando na tenda, jogando a espada no chão. A babá, Valena, se encolheu num canto, mas José veio correndo sorrindo de braços abertos:
– Mamãe!
A guerreira o viu, a mãe o pegou no colo. Sorriu, brincou, logo estavam rindo. Horas depois, José dormia no berço. A mãe afagou a cabecinha dele. Ela se sentou exausta no banco, tomou um gole de vinho e ficou olhando as chamas do braseiro dentro da tenda. A vontade que ela tinha era de pegar arma e armadura e sumir dali, deixando o menino para Eudônio criar como pudesse. A guerreira sorriu.  O menino fez um barulhinho no berço. A mãe sorriu, depois sentiu uma dor no peito, uma tristeza na alma. A mente da mulher voltou para oito anos atrás.

A menina só tem um ano de vida e não entende o que está acontecendo. Criança de colo, ela se agarra chorando ao peito da monja que tenta acalmá-la. Chora. A criança estica a mãozinha para a mulher que se afasta:
– Mãe!
A mãe não olha para trás. Sabe que sua filha estará segura no mosteiro. Criada pelas monjas, a criança terá uma vida melhor do que a que ela poderia lhe oferecer. Mulher, guerreira, segue em frente tentando não ouvir os gritos, o choro da criança.

Eu gostaria de escrever que ela nunca esqueceu, que todas as noites ela se lembrava do rostinho da filha. Mas, não foi assim. Muitas vezes é fácil esquecer. Entre batalhas e tabernas, dor e vinho, sexo e morte, a vida continua. Mas, às vezes, especialmente agora, a memória volta e a mãe olha para o novo bebê,  sua segunda criança, e suspira.

Dom Eudônio observa as muralhas do castelo. Ele está tenso. As catapultas por si só não conseguirão derrubá-las. Por que a muralha ainda não desabou com o solapamento? Terão os mineiros falhado?
Então acontece. Um trecho da muralha cai. Estrondo. Dom Eudônio dá o brado de guerra. As tropas avançam com o louco do Dom Egberto as liderando. Sem saída, Dom Eudônio deixa o comando e vai apoiar o amigo. Se ele morrer como ficará a Cidade do Canal sem seu duque?

O que começou com Dom Egberto confusamente liderando uma carga de infantaria pela brecha na muralha logo vira uma confusão total. Dom Eudônio tentou liderar uma carga de infantaria, mas teve que parar quando viu que seus cavaleiros iriam atropelar sua infantaria que estava embolada com os soldados inimigos logo depois da brecha. Ele seguiu atacando com a espada, comandando o cavalo sobre as tropas inimigas pelo pátio do castelo. Sangue e poeira se misturavam numa cacofonia de gritos. Olhos ardendo com poeira e suor. Gosto de sangue na boca. O braço cansado, atacando e defendendo com a espada. Dom Eudônio procura a figura larga de armadura dourada que seria Dom Egberto. Uma pancada forte na cabeça o faz cair do cavalo. Ele cai torno, cabeça e ombro atingem o chão e o resto do corpo cai atrás como um saco de batatas. O ombro explode de dor. Tudo gira. Cabeça dói. Vontade de vomitar. Dom Eudônio se levanta confuso. Não consegue respirar. Tira o elmo ficando somente com a coifa de cota de malha na cabeça. “O que me atingiu?” Ele olha em volta. “Foi uma flecha?” Eudônio sente o movimento e se vira. Um homem enorme usando um gibão de batalha avança atacando com um martelo de guerra. Dom Eudônio esquiva saltando de lado. O golpe do inimigo é tão forte que ele jura que o chão tremeu e o piso rachou. Eudônio sua. “Não quero morrer!” Ele ataca com um golpe circular, tentando cortar os braços nus do inimigo. Este recua, depois avança atingindo Eudônio no peito com o cabo do martelo de guerra. Eudônio fica sem ar. Não consegue respirar. Os braços estão pesados. Outra estocada com o cabo do martelo o atinge no rosto. Ele cai tonto. “Não posso morrer! Preciso voltar para minha mulher e minha filha!” O inimigo ergue o martelo de guerra num rosnado. Eudônio não consegue se mexer “Minha mulher! Minha filha!” Um soldado vem correndo e se joga contra o peito do inimigo. A trombada mais o peso do martelo de guerra fazem o homem enorme cair ao chão. O soldado aproveita para cravar sua espada no pescoço dele. O inimigo morre golfando o sangue. Quando o soldado estende a mão para ajudar Eudônio a levantar, o Conde de Estival o reconhece: não é ele, é ela; não é um soldado, é a guerreira.
Dom Eudônio rosna furioso:
– O que você está fazendo aqui?! Devia estar com nosso…
– Vai se fuder, Eudônio!
A guerreira e o conde avançam lutando lado a lado, matando inimigos, salvando a vida um do outro algumas vezes. Finalmente, ouvem brados de alegria e vêem a bandeira de Dom Egberto tremulando no alto do castelo. A batalha está vencida. Entre mortos e feridos, aquela pequena guerra está terminada. Quem vive, chora ou comemora.

Horas depois, na tenda principal, nobres que lutaram, e que não lutaram, estão comemorando a vitória e contando seus feitos. As gargalhadas de Dom Egberto podem ser ouvidas de longe. Ele mata uma caneca de cerveja de um gole só e abraço o amigo:
– Grande vitória, Dônio! Arrasamos!
Dom Eudônio mal consegue respirar naquele abraço de urso, mas sorri de volta:
– Foi, Beto. Estou feliz de essa guerra infernal ter terminado.
-Ah, você deve estar louco pra voltar para sua esposa e…é uma filha não é?
– Sim, uma menina. Anelisa. Quando eu parti Cecília estava grávida. Já faz dois anos.
– Ah, Ceci! Grande mulher. Beleza clássica e linhagem impecável.
Egberto abraça Eudônio e sussurra em tom conspiratório:
– Como você vai fazer pra explicar pra Ceci esse filhote que você teve com a curandeira? Vai levá-lo pra casa junto com a mãe e a guarda-costas?
– Se eu fizer isso, a Ceci me mata. Nesses dois anos meu tio morreu sem herdeiros e eu fiquei com o castelo de Primaveril. Vou alojar o menino num casarão perto da divisa com Outonal.
Dom Egberto ri e toma mais uma caneca de cerveja:
– Todo mundo faz besteira, até você Dônio que gosta das coisas todas planejadinhas!
Aproveitando uma pausa, Dom Eudônio sussurra ao pé do ouvido do amigo:
– Beto, os nobres e mestres de guilda que apoiaram a revolta de Dom Renato estão presos aguardando julgamento…
– Julgamento? São todos traidores e serão executados amanhã!
– Talvez seja melhor mostrar misericórdia para…
– Não!
A voz de Dom Egberto sai tão alta que todos olham para ele. Dom Eudônio fica mortificado, mas o Duque da Cidade não se importa e vocifera como um javali:
– Misericórdia! De jeito nenhum! Eu te ouvi da outra vez, Dônio! Dois anos atrás, na primeira revolta daquele bastardo do Renato. Poupei quase todo mundo. Fui bonzinho! E o que eu ganhei com isso?! Dois anos depois os traidores se aliam novamente ao Renato numa nova revolta! Dessa vez vou passar todo mundo na espada!
Primeiro silêncio, todo mundo na tenda olhando para os dois. Então aplausos. Dom Egberto gargalha. Dom Eudônio dá um sorriso amarelo. Risos. Então silêncio. Egberto ri:
– Minha guerreira favorita! Seja bem vinda!
Dom Eudônio se vira e vê que a guerreira entrou na tenda. Ela está segurando algo. Será? Ela coloca o menino no chão. José olha em volta um pouco assustado. Reconhece Eudônio, sorri e corre de braços abertos. Eudônio fica congelado.
– Papai!
O menino abraça as pernas de Eudônio. Silêncio. Egberto observa a cena com um sorriso divertido. Dona Helena está mortificada. A guerreira está impassível. A mãe esperançosa. Eudônio olha para o menino que sorri para ele. O mais sensato a fazer seria ralhar com o menino. Afastar aquela criança com os braços. Gentilmente, mas firmemente. Ele olha sério para a criança e abaixa a mão. O sorriso do menino vai murchando. Primeiro confuso, depois com olhos cheios de água. Voz fraca “papai?” Eudônio sente o coração apertado. Mas, ele tem que pensar na esposa, tem que pensar na filha. Ele afasta levemente o menino com a mão:
– Eu não sou…
Lágrimas descem no rosto de José. Egberto baixa os olhos. Olhar duro da guerreira. Eudônio olha para a criança. Ele pega José nos braços. O menino sorri. Eudônio o beija. Egberto gargalha. A mãe se retira.

Duas horas depois, a guerreira está guardando sua arma e armadura quando Dom Eudônio entra em sua tenda:
– Você está maluca?! Tem ideia do que fez?!
Eudônio está furioso como uma tormenta, a guerreira está inflexível como uma montanha. Ele ergue a voz antes que Eudônio pense em erguer a mão:
– Ele é seu filho, não é? Você me prometeu que sempre cuidaria dele.
– Prometi, mas…
– Mas, o quê?
O menino está dando cabeçadas de sono no colo de Eudônio. O pai coloca a criança na caminha dela e se vira para a mãe:
– Você foi irresponsável. Agora que eu reconheci o José como meu filho, o que minha esposa vai pensar? Você só pensou…
– No nosso filho!
Eudônio fica em silêncio. A guerreira o encara firme:
– Você realmente vai me culpar porque eu procurei fazer o que achava melhor para o nosso filho?
Eudônio bufa. Ele caminha até um baú, serve duas canecas de vinho. Toma uma e entrega a outra para a guerreira:
– Não. Você tem razão. Felizmente eu já tenho tudo planejado. Meu tio faleceu ano passado e agora eu sou Conde de Estival e também de Primaveril. Vocês poderão ficar num casarão em Primaveril, lá ninguém me conhece. Vou cuidar de tudo. Você e José ficarão muito bem instalados.
A guerreira morde os lábios. Toma sua caneca de vinho. Agarra Eudônio pelos cabelos e o beija. Os dois se abraçam e vão para a cama. Beijos e mordidas, carícias e arranhões. Muitos minutos de paixão seguidos por poucas horas de sono.

Horas depois, Eudônio está dormindo e a mãe está andando pela tenda com o pequeno José no colo tentando fazê-lo dormir. Ela canta, canta e canta. Finalmente, o menino dorme. A mãe o coloca na cama e o cobre com carinho. A guerreira olha para sua espada e armadura. A mãe olha para o menino. A mulher chora.

De manhã, Eudônio acorda com o choro de José. O menino o agarra:
– Mamãe?!
Eudônio se levanta de um salto. Onde está a mãe? Ele vê um pote na mesa coberto com um pano. É papinha. Ele serve a comidinha para José e sai procurando. “Será que ela saiu para esvaziar o penico?” Eudônio vê o tabuleiro de caxangá sobre a mesa. Debaixo da peça do regente branco há um bilhete: “Deixo nosso filho em suas mãos. Amo vocês.”
Eudônio olha em volta e não vê sinal da arma e armadura da guerreira. Ele sai da tenda. O guarda de sentinela disse que ela saiu antes do nascer do sol. Não sabe para onde ela foi. Sul? Leste? Oeste? Eudônio volta para a tenda. O menino olha para ele e sorri “papai” e ele o abraça. José pergunta choros:
– Mamãe?

Já léguas dali, montada numa mula, a guerreira segue sem olhar para trás. Ela sabe que dali a companhia de mercenários do Patinho Feio irá para o sul, então não deverá ser difícil encontrá-los. Ela aprendeu muito e espera que em alguns anos possa ter a sua própria companhia de mercenários, ou então quem sabe liderar a própria companhia do Patinho Feio?
A guerreira planeja seu futuro, a mãe chora pelo seu presente, a mulher fez sua escolha.

O príncipe audaz ou a princesa adormecida

Frio. Muito frio. Noite de inverno. Daquelas em que a garganta e as pontas dos dedos ficam doendo. Um vento gelado de cortar os ossos corria pela planície. A paisagem? Árvores sem folhas, galhos desnudos esticados para o céu em desespero. Colina cinza que se estivesse coberta de neve ao menos seria bonita. Pelo menos é o que eu penso. Apenas um cavaleiro ousava desbravar aquela terra erma. Mas, não era um cavaleiro qualquer. Era um príncipe!
Sua Alteza ao contrário de mim achava que aquela paisagem combinava com os habitantes locais: uma terra feia para uma gente feia que nem o demo.
Observei que a vida ali era dura. Os camponeses criam cabras e galinhas, plantam trigo e cevada, colhem frutas. Poucas alegrias e muitas durezas.
O príncipe respondeu que certamente não era culpa deles serem assim, mas que assim o eram. Pessoas que não tem tempo para ver as flores ou ouvir poesia. Será que sonham, perguntou.
Respondi que sim, mas sonhos pequenos e curtos como suas vidas. O príncipe sorriu e disse que sempre se perguntou por que os camponeses normalmente vivem menos que os nobres. Em minha opinião o motivo era a rudeza de suas vidas em contraste com a riqueza dos nobres. Sua Alteza retrucou que cães de caça têm vidas duras e nem por isso vivem menos que os ociosos cãezinhos das damas. Ele dava crédito aos sábios que dizem que a resposta está na estirpe, na linhagem, nobres vivem mais pela pureza de seu sangue. Sendo que a sua família era ainda mais longeva do que a maioria da nobreza. Apenas dei de ombros, não cabe a um menestrel questionar seu patrono.
Continuamos em passo cadenciado, o príncipe em seu corcel, eu em minha mula. Ele me regalou com relatos de suas aventuras, recomendando que eu atentasse bem, pois seria meu dever relatá-las com os devidos embelezamentos nas trovas que comporia.
Houve a ocasião em que o príncipe chegou a uma aldeia que vivia atemorizada por conta de um ogro faminto. Sua Alteza seguiu o rastro da fera, localizou sua gruta e subiu numa colina próxima para tocaiá-la. Quando o bruto saiu para caçar ele o flechou. A besta era tão bruta que ficou atarantada sem saber de onde vinha o ataque! Assim, o príncipe conseguiu cravar três flechas nele antes que o ogro o percebesse. Então o fidalgo terminou o serviço com um golpe certeiro de espada. Inteligência venceu força, disse-me ele com um sorriso. Quando o príncipe voltou com a cabeça do ogro os aldeões festejaram e o recompensaram como puderam com comes e bebes, e moedas de prata. Quiseram os tristes fados que ele não pudesse ter a rapariga que desejava para aquecê-lo à noite. A vida põe e dispõe, disse resignado.
Em outra ocasião, o príncipe teve a glória de matar um dragão. Não era um dos maiores que já se viu, mas era maior que seu cavalo de guerra! O monstro tinha um hálito venenoso que contaminava o riacho do qual a aldeia dependia para seu sustento. Iam sacrificar uma moça ao monstro. Graças aos bons fados o heroico príncipe chegou a tempo de impedir a tragédia! Daquela feita matou o dragão dando carga com seu cavalo. A fera abriu a boca para cuspir sua peçonha e ali mesmo ele enfiou sua lança! Salvou a moça e ficou com o tesouro.
A última aventura do príncipe não era tão memorável, por isso talvez eu tenha que mudar a ordem em que ela aparece na trova a ser composta sobre seus feitos. Ele bateu-se com um gigante deformado de uns dois metros e meio de altura com braços longos demais e cabeça em forma de ovo. Que seja! O resultado final é que o príncipe podia contar três monstros mortos desde que começara a se aventurar como cavaleiro errante. Nada mal para o mais novo de quatro filhos sem qualquer chance de herdar o principado paterno. Ele sorriu para mim:
– Já sou conhecido por um menestrel, logo estarão cantando trovas em meu nome.
Foi então que o cavalo e a mula pararam ao mesmo tempo. Teríamos chegado? O príncipe perguntou se eu ouvia algo, mas não havia som algum além do vento. Ele observou que havia floresta dos dois lados da estrada, ótimo para emboscadas e pousou a mão no cabo da espada. Como nada se passou, seguimos em frente, ainda que com cautela. A lua surgiu no céu, cheia, grandiosa, clareando tudo. Foi quando a vimos. Em meio a uma clareira, exatamente como o viajante na taberna havia descrito: um esquife de cristal com uma princesa adormecida dentro! “Calma, pode haver traição aqui, emboscada”, disse-me o príncipe para em seguida circular a clareira com seu cavalo. O compasso do vento marcava então momentos muito tensos. Finalmente satisfeito, o príncipe apeou do cavalo e se aproximou do esquife. Um grupo de anões (seis? Sete?) nos observava da floresta. O príncipe os encarou com firmeza e como eles não se mexeram, se aproximou do caixão de cristal e eu o segui.
Lá estava ela, a princesa parecia dormir. As histórias então eram ao menos em parte verdadeiras. A princesa tinha pele branca como a neve, cabelos negros como o ébano, lábios vermelhos como o sangue. Se bem que chamá-la de “a mais bela de todas” parecia um exagero. Não se pode acreditar em tudo que se ouve. Um anão se aproximou do príncipe:
– Meu senhor…
– O tratamento correto é “Vossa Alteza”, anão.
– Sim, perdão. Vossa Alteza, eis a princesa prometida. Guardamo-la por longo tempo à espera do príncipe que irá quebrar a maldição. Seria demais ter a esperança de sermos recompensados por nossos esforços?
O príncipe suspirou:
– Fazer o bem é sua própria recompensa, mas vá lá, anão. Eis o que posso lhe pagar.
O príncipe jogou um saquinho com moedas de prata para os anões e quando os viu olhando para seu cavalo e os alforjes que levava, puxou sua espada. Os anões fugiram correndo, o príncipe teve que rir. Então ele abriu o caixão, levantando a tampa de cristal. Cristal? Parecia mais vidro. Quem conta um conto…
A princesa estava imóvel, nem parecia respirar. Era como se estivesse morta. O príncipe apreciou aquela imagem serena uma última vez antes de despertá-la: pele branca como a neve, cabelos negros como o ébano, lábios vermelhos como o sangue.
O príncipe beijou a princesa nos lábios. Ela inspirou subitamente, como se despertasse de um sono profundo. Abriu os olhos e agora o príncipe podia ver que também eram negros. Ele a beijou novamente e ela correspondeu ao beijo. Abraçaram-se na noite. A princesa beijou-o no pescoço e o príncipe pareceu sentir uma breve vertigem. Eu o vi sorrir como se ondas de prazer estivessem a percorrer-lhe o corpo conforme ele se deitou com a princesa no caixão. Ela o beijava sem parar no rosto e no pescoço, ele adormeceu. Eu fiquei em silêncio.
Silêncio.
A lua continuou a caminhar pelo céu. Lobos uivaram na noite. Anões retornaram à clareira.
– Está terminado?
A vampira limpou o sangue dos lábios e sorriu tocando no corpo exangue do príncipe:
– Incrível como eles sempre caem nessa.
Ela saiu do caixão, examinou o cavalo, examinou os alforjes e as armas:
– Vocês podem ficar com esse saco de moedas de ouro. Eu fico com o cavalo, as roupas, a espada e essa jóia.
Os anões concordaram sem discutir. Foi quando ela se virou para mim. Eu sussurrei:
– Sou um humilde menestrel. Essa é uma história para ser contada uma noite, minha senhora?
A vampira assentiu com a cabeça.
– Mas, qual título eu devo dar à história? O príncipe ou a princesa adormecida?
– Você decide.

Isegoria – não desconsiderar a fala dos outros.

Esta coluna dialoga com a minha anterior “Arte não é uma democracia? Depende da proposta“. A democracia demanda respeito a alguns princípios como a isonomia, igualdade de todos diante da lei, a isocracia (igualdade entre os cidadãos de acesso ao poder), a isegoria (igualdade do direito de manifestação na assembleia), dentre outros. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Isegoria)
Quero aqui me ater à isegoria. Atualmente podemos dizer que a isegoria exige que não desqualifiquemos a priori a fala do outro, o que me leva a refletir entre as muitas vezes conturbadas relações entre fãs e os responsáveis por uma obra narrativa. Exemplifico. Entre a 1a e a 2a temporada da série “Stranger Things” muitos fãs reclamaram do tratamento dado à morte da personagem “Barb”. Aparentemente roteiristas reclamaram dizendo que era uma reclamação injusta dos fãs, mas acabaram cedendo (pressão dos showrunners?) e tentaram remendar a situação, ainda que de forma um tanto mal executada (https://mashable.com/2017/11/01/stranger-things-season-2-review-bad-worse-season-1/)
O filme “Star Wars episode 8: Last Jedi” e a série “Star Trek: Discovery” sofreram esse backlash de fãs tradicionais de forma intensa, talvez porque sejam obras narrativas mais antigas com gerações de fãs. A reação inicial foi de desqualificar os fãs que reclamavam chamando-os de “racistas” “misóginos”, “machistas”, “radicais”, dentre outros termos. A estratégia não funcionou e a produção das obras foi atingida financeiramente. Os produtos de merchandizing de “Star Wars episode 8” e “Star Trek Discovery” venderam mal, ou nem foram produzidos, e o filme “Solo” falhou. Isso levou a revisões em Star Trek Discovery cuja 2a temporada foi mais bem recebida pelos fãs; (https://www.digitalspy.com/tv/ustv/a25946664/star-trek-discovery-klingons-season-2-fan-criticism/)
Meu ponto é que não se deve obedecer cegamente aos fãs. De fato, Dave Gaider, roteirista da série de videogames “Dragon Age” coloca que muitos fãs podem ser conservadores e quererem sempre a mesma coisa. Mas, para se tomar uma posição é preciso ouvi-los.
Da mesma forma desqualificar quem discorda de você sem primeiro ouvir a pessoa é assumir que você jamais poderia estar errado/a. Não me parece uma postura democrática ou até mesmo sensata.
Em um processo criativo de uma obra narrativa esse respeito a isegoria deve ser mantido em relação a seus leitores Beta, os primeiros a ler seu trabalho. Eu sigo os mandamentos do escritor Brandon Sanderson em relação aos leitores Beta, que ele chama de “reading group” que é o de aceitar o feedback deles sobre o ritmo da narrativa (lenta, rápida, tediosa, acelerada demais, no ponto), sobre quão envolventes são as personagens (gostei de X ou Y, detestei Z), sobre quão interessante é a trama etc. Pode ser que eu faça modificações ou prefira manter minha posição. Pode até ser que eu conclua em relação a um/a leitor/a beta algo como “meu texto não é pra você”, mas, jamais desrespeitarei a fala.

Meu processo de escrita

George RR Martin ao falar sobre seu processo de escrita se refere a dois tipos de escritores: jardineiros e arquitetos.
Os arquitetos fazem um projeto (outline) da sua obra literária com personagens principais e secundárias, enredo estruturado (começo, desenvolvimento, clímax, desfecho, ou usando a jornada do Herói ou outro método). Ou seja, antes de escreverem a obra propriamente dita, os arquitetos já sabem praticamente tudo o que vai acontecer em termos de enredo e personagem
Os jardineiros, por sua vez, sabem apenas em linhas gerais o que vão escrever. Sabem se estão plantando uma roseira ou uma goiabeira. Mas, vão descobrindo enredo e personagens conforme vão escrevendo e muitas vezes se surpreendem.
George Martin se define mais como um jardineiro do que arquiteto (https://winteriscoming.net/2017/03/24/small-council-gardeners-vs-architects-whats-the-better-way-to-write-fiction/)
Brandon Sanderson usa os termos discovery writers X outliners (descobridores X projetistas), que é basicamente o mesmo conceito de jardineiros X arquitetos. (https://www.youtube.com/watch?v=glPLTNuhfxA) Ele afirma que cada escritor escreve à sua maneira, obedecendo apenas alguns princípios básicos, alguns modelos, principalmente se estiverem começando.
Há um debate grande entre usar ou não um outline ou não. Cada método tem seus riscos e vantagens.
Arquitetos ou projetistas tem uma visão do todo e evitam problemas como perder o ritmo no meio da história, mas tem o risco de ficarem rígidos. Ou ainda de sofrerem de “world building disease” ou seja criarem mundos extremamente detalhados (História, Geografia, Cultura, Magia etc) e querer jogar isso de forma entediante sobre seus leitores.
Os jardineiros tem maior espaço criativo, mas isso justamente pode fazê-los perder foco ou fazê-los ficar reescrevendo várias vezes. Também pode fazer com que a história tenha um desfecho insatisfatório porque para eles a história simplesmente parou ali.
George RR Martin e Stephen King se vêem como descobridores. Orson Scott Card e Kevin J Anderson são projetistas.
Brandon Sanderson se classifica como sendo descobridor para personagens e projetista para o enredo.
Particularmente, eu faço uma dança entre os dois métodos. Posso começar com uma cena, uma visão de personagem e aí faço um breve esquema e escrevo a 1a versão. Frequentemente, a 1a versão tem apenas os eventos da história e uma visão geral da personagem. Depois, mergulho em tema e personagens, saio explorando, descobrindo, o que pode trazer grandes mudanças levando a uma revisão geral do projeto inicial ou até mudança de projeto. O ponto principal para mim é procurar o conflito, seja interno ou externo, pois é lá que encontrarei o drama, a dor, que combinada com o cotidiano, e por vezes o humor, trará humanidade para a história.

Tristeza não tem fim…

Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.

A cidade de Ingá era pequena, porém decente. Seu povo era trabalhador, batalhando contra a terra árida, pestes, animais perigosos ou nocivos e as indesejadas visitas de bandoleiros. A água do rio tinha que ser bem usada na irrigação, no consumo e nos banhos. Não havia fartura, mas com cuidado vivia-se bem. Apesar dos pesares, era um povo danado para gostar de festas. Logo, foi com grande animação que viram a chegada do Menestrel.
Ele não era alto, não era forte, nem era tão bonito quanto os boatos faziam crer, se bem que nenhuma das mulheres, e mesmo alguns dos homens, viu-lhe qualquer defeito. Mas, que simpatia. Seus olhos acariciavam, suas mãos beijavam e sua voz embalava. A música vinha em ondas suaves que refrescavam aquele povo ressecado. Logo vieram os pedidos:
“- Toca para alegrar meu irmão que está doente!”
“- Toca para animar minha mãe que está velhinha e não pode mais dançar!”

E o Menestrel tocava carinhosamente, enquanto as pessoas traziam os idosos e doentes para a praça. Logo, trouxeram comida e água para o homem, que ninguém é de ferro. O Menestrel agradeceu, comeu bem e guardou o resto no seu farnel. Foi quando uma moça se animou e pediu:
“- Está tudo muito bem, a canção foi linda. Mas, música também é para se dançar. Toca aí pra gente balançar o esqueleto!”

O Menestrel sorriu, limpou os lábios com as costas da mão e logo engatou uma música das mais animadas no seu alaúde. As pessoas riam e dançavam, enquanto ele tocava músicas ora no alaúde, ora na flauta, ora nos tamboretes. E foi assim a noite toda.
No dia seguinte, novos pedidos e novas canções. O Menestrel só se recusou quando o prefeito da cidade pediu-lhe que tocasse uma canção mágica para afastar os ratos que empestavam a cidade:
“- Isso não. Lamento, mas fiz uma vez e me deram calote!”

Logo depois, o Menestrel foi procurado por duas pessoas com pedidos difíceis. Primeiro, um rapaz:
“- Ouvi dizer que sua música é mágica, que traz a pessoa amada de volta em três dias! Por favor, me ajude! Helena terminou o namoro comigo e sem ela não tenho luz!”

Uma mulher, desesperada, aos prantos, aproximou-se do Menestrel:
“- Menestrel, por favor, me ajude com sua arte! Meu bebê, meu filho Vítor, morreu de doença. A dor está que me destroça, o coração está vazio e os olhos cheios. Já não tenho forças para viver.”

Soluna olhou-os compadecido, conhecia bem o que era o sofrimento. Quem não conhece a dor, não compõe música, verso ou imagem. Ele sorriu para eles e disse:
“- Há algo que posso fazer por vocês. Mas, para que o encanto se cumpra, precisam me ajudar. Há itens que só vocês podem obter”. Virou-se então para o rapaz e disse:
“- Corra essa cidade e as vizinhas perguntando e me traga os nomes de duas pessoas, de sua idade ou mais velhas, que nunca tenham sofrido uma desilusão amorosa.”

O Menestrel olhou a mãe nos olhos com ternura e disse:
“- Você também deve correr as casas desta cidade e das vizinhanças, mas me traga um grão de feijão de uma casa em que nenhum dos moradores tenham perdido um parente ou amigo”.

Os dois partiram cheios de esperança, cada um pro seu lado.
Uma semana depois, voltaram. Nem o rapaz tinha conseguido os nomes, nem a mulher o grão de feijão.
O Menestrel viu fundo nos olhos dos dois e convidou-os a se sentar. Eles lhe contaram seu périplo e que agora se conformavam. Era a vida. Ele sorriu:
“- Vocês estão certos e errados ao mesmo tempo. Dor e Morte são as promessas que a Vida sempre cumpre. É assim. Mas, a Vida também é o que fazemos dela, da vida só se leva a vida que se leva. Por isso que a Alegria é tão mais meritória que a Tristeza, porque é um direito nosso pelo qual lutamos diariamente. Ser feliz na vida é algo que se conquista!”

Ele dedilhou o alaúde, preparando uma canção:
“- História triste e adulta, traz sabedoria e consolo. História de final feliz, história alegre, traz outra sabedoria e dá força para erguer a enxada.”

O Menestrel tocou com notas que beijavam as faces dos ouvintes e depois voavam com o vento. O rapaz deixou a tristeza ir embora e sonhou acordado novamente. A mulher sentiu o frio vazio se encher com um calor gostoso e imaginou outra criança em seu colo. Os dois ouviam a música e mal percebiam que suas mãos se tocavam, enquanto outras pessoas se sentavam em volta do casal.

O Sobrevivente

O que aconteceu? Eu não me lembro. Onde estou? Estou andando aos tropeços pela rua. Nossa, não me sentia assim desde que a juventude quando eu enchia a cara de cerveja e saía andando a esmo por aí como um zumbi. Não sei como não morri fazendo essas besteiras. Mas, já sai dessa tem anos. Será que eu bebi demais de novo? Lembro que estava na festa na casa da Patrícia, bebi um pouco demais e resolvi dar uma volta para o porre passar e eu poder pegar o carro. E aí…O que houve? Cara, eu devo estar muito mal, estou com dor de cabeça, uma fome louca e não sinto as minhas pernas.

O que houve? Eu não consigo lembrar! Eu estava andando na rua e aí…alguém me…acho que alguém me agarrou. Eu me lembro da dor, muita dor. Perdi a consciência. Por quanto tempo? Minha família deve estar preocupada e…

Nossa, eu não paro de andar. Vou sentar e…não consigo! Eu quero parar! Eu quero parar!

O que está acontecendo? Por que eu não consigo parar? Não consigo controlar meu corpo. Minhas pernas se movem sem que eu queira. Não consigo parar! Não consigo mover minha cabeça. E essa fome que não passa?! O que é isso?

O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!

Eu quero gritar e não grito. Eu quero parar e ando. Não sei por quanto tempo estou andando. Acho que desmaiei e acordei algumas vezes sem que meu corpo parasse. Por que não consigo parar? Por que não consigo parar?

POR QUE NÃO CONSIGO PARAR?!

Acordei de novo. Meu corpo não parou de andar. Está escuro, deve estar de noite. Tem outras pessoas andando ao meu lado, mas não consigo vê-las. Eu continuo com fome. Uma dor que parece me comer por dentro. Por quanto tempo vou andar, meu Deus?

Amanheceu, a cidade está deserta. Ninguém nas ruas. Não, duas pessoas no ponto de ônibus. Elas nos vêem, talvez possam me ajudar. Chamar um médico. Tento acenar, mas não consigo. Nossa! Como estou com fome! Eu preciso comer!

Estou perto, eu e os outros estamos perto delas. Um passa à minha frente, ele agarra a pessoa pelo ombro e… Ele… Não! Ele a morde! A outra corre, os outros avançam, eu também. Por que? A pessoa pára encurralada diante de um prédio. Eu avanço na direção dela. O prédio é de uma loja, eu vejo meu reflexo na vitrine.

MEU DEUS!

Meu rosto! Eu mal reconheço meu rosto! Cabelo desgrenhado, olhos fundos, gengiva recolhida, os dentes estão escuros. Minha pele parece meio, meu Deus, meio podre. Tem um líquido escuro descendo pela minha face, que líquido é esse? Sangue coagulado? Como não sinto nada?

Eu agarro a pessoa e…O que eu estou fazendo?

O QUE EU ESTOU FAZENDO? NÃO! NÃO!!!

Eu acordo. A fome passou. Estou andando novamente. Eu me viro, algo me vira, vejo os outros que me acompanham. São pessoas meio mortas, como eu. Andando aos tropeções, pingando pelo chão, caindo pele, nojento! O que aconteceu?

Estamos andando por horas, horas, é noite agora. Estamos indo para um bar. Tem pessoas ali. Eu estou com fome. Alguns casais. Tem sete pessoas numa mesa, quatro caras e uma mulher e uma criança de uns dois anos. A mulher está rindo, gargalhando, enchendo a cara e fumando na cara da criança. É filho dela?

Eu estou com fome, dói por dentro.

A mulher põe refrigerante na mamadeira da criança, pelo menos parece, é um líquido escuro e borbulhante. O menino deve ter uns dois anos, dois anos! Ele bebe o troço e fica olhando quieto para a mãe que fuma e ri, enquanto se entope de cerveja.

FOME!

Nós avançamos. Eles nos vêem, gritam! Eu agarro um dos caras. Outro de nós pega a mulher que grita. Alguém agarra o menino e corre para longe de nós. O cara me soca no rosto, não adianta. FOME! Eu avanço para ele e…

MEU DEUS!

Meu Deus…

Tudo é rápido. Acaba num turbilhão. Nós voltamos a andar. Um dos homens do bar está andando conosco agora. Deve estar com fome…

Andamos o resto da noite, está amanhecendo. Onde estou? Acho que já passei por aqui, mas de carro, nunca a pé. Uma dessas praças junto da estrada que quem tem carro passa sem ver. Tem pessoas dormindo num canto, encolhidas.

Eu estou com fome. Meu Deus, já estou com fome de novo! Será que tudo o que eu vou sentir agora é fome? Mais nada? Só fome?

Eu os vejo, são crianças, adolescentes, pessoas de rua. Todos dormindo. Espere, todos não. Três estão acordados. Um homem, uma mulher, uma menininha. A mulher está…o que é aquilo? Ela está cheirando cola? O homem tem um…cachimbo na boca? Acho que é droga. A menina mexe na lata, ela vai…meu Deus…ela vai cheirar aquilo? E a mãe só fica olhando?

FOME!

Nós avançamos para eles. Eu tento gritar, eu tento avisar, mas não consigo. Não consigo controlar minhas pernas, meus braços, não consigo nem falar. Será que aqueles sem teto não conseguem nos ver? Devemos ser uns doze agora. Como que eles não conseguem nos ver? Ficam cheirando, fumando, alheios ao mundo à volta. Como robôs. Robôs que só se mexem para se drogar e para roubar para poder comprar droga para poder se drogar mais. O menino cai para trás, tonto. Cai com a cabecinha no chão. Meu Deus, alguém tire essa criança daqui. Eu não quero ver isso! EU NÃO QUERO VER ISSO! Eu agarro um homem que está dormindo. E…Chega, meu Deus, CHEGA! EU QUERO PARAR! EU QUERO PARAR!

FOME!

Eu desmaiei. Não sei o que aconteceu. Não sei o que o meu corpo fez. Não sei quantas horas dormi, quanto tempo andei. Mas, agora é dia, perto da hora do almoço. Estou com fome de novo, uma fome que dói por dentro. Os outros também devem estar sentindo. Estou andando rápido. Por quê? Onde estou? O lugar me parece familiar.

É o meu bairro! Estamos andando para uma escola, eu conheço esse lugar. Meu Deus, não. É a escola em que minha filha estuda. Não! Eu quero me controlar, eu preciso me controlar!

O porteiro grita e cai diante dos outros. Eles, meu Deus, eles começam a comer. Comer!

É de manhã, a escola está cheia, as crianças correm. Alguns de nós tentamos pegá-las! Não! Corram, pelo amor de Deus, corram! Fujam daqui! Eu tento pegar uma criança…eu preciso parar, parar! Ela é mais rápida que eu, graças a Deus. Entramos nos corredores, nós entramos nos corredores. Nós, não! Eu não sou um deles, não sou! As crianças correm apavoradas, entramos em uma sala, muitas fogem, outras são pegas! Meu Deus!

Um professor arranca a criança dos braços deles. Ele salva uma, duas, três. Joga cadeiras em nós. Ele tenta fugir, mas nós o agarramos. Não, nós não! Eles! O professor some. As crianças fugiram. Acho que todas. Tem que ser todas! Tem que ser!

Eu e alguns saltamos pela janela e vamos para o pátio. Muitas crianças estão cercadas. Elas só tem cinco, seis anos, as mais velhas devem ter uns sete. Uma professora entra na frente. E eu…Por que não posso parar? O que é isso na minha boca? O que é isso na minha boca?!

Não! Minha filha está ali! Ela me vê. Ela me reconhece. Corre para mim de braços abertos. Não filhinha, não venha para o papai! Não venha! Não minha filha! Não! NÃO!

NÃO!

 

 

 

 

 

 

NÃO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               Não…
Final 1

O que houve?

Eu estou andando. Novamente andando.

O que houve?

Onde estão as crianças?

O QUE HOUVE?!

Outras pessoas surgem, correm, nós vamos atrás delas.

Onde está minha filha?

Nós encurralamos algumas.

ONDE ESTÁ MINHA FILHA?!

A matança recomeça. Eu não consigo parar. Meu Deus, eu não consigo parar.

É quando eu a vejo. Ali está ela. Minha filhinha. A pele cinza, os cabelos sujos emplastrados de sangue. O vestidinho rasgado.

Meu Deus, o que eu fiz? O QUE EU FIZ?!

Ela devora alguém. Eu também. Depois, continuamos a andar. Ela, ela parece que se vira para mim, que me olha. Filhinha, por favor, perdoe o papai. Me perdoe.

Continuamos andando, ela está ao meu lado. Se eu estou aqui, ela também deve estar viva dentro daquele corpo podre. Incapaz de se controlar, mas viva. Alguém vai nos ajudar. Meu Deus, que alguém nos encontre e nos cure, nos livre disso. Há pessoas boas no mundo, alguém vai encontrar a cura. Eu tenho que ter fé.

Como eu gostaria de alisar os cabelos dela, colocar minha filha no colo e lhe dizer que tudo vai terminar bem. Me perdoe, minha filha.

Por enquanto, só posso ter fé sabendo que de alguma forma você está entre os sobreviventes.

 

 

Final 2

Eu estou andando. Andando rápido.

O que houve? Onde está minha filha?

Alguém nos meus braços. Meu Deus, é ela. É o cabelo dela. Eu não quero olhar.

O QUE EU FIZ?

Ela se vira, apavorada, olha para mim.

ELA ESTÁ VIVA!!!!

Eu a seguro com braço esquerdo e uso uma cadeira para abrir caminho entre eles. Alguns tentam tomar minha filha dos meus braços. Eu ataco. Enfio a perna da cadeira na cabeça de um. Chuto outro para longe. Ela grita! Eu corro.

EU CONSIGO CORRER!

Eles ficam para trás.

Saio da escola para a rua. Posso ouvi-los vindo atrás de mim.

Algumas pessoas vem correndo em nossa direção, trazendo tochas, um maçarico, armas. Eles param surpresos ao me verem com minha filha nos braços. Eu a ponho no chão e aponto para eles. Ela não quer me deixar. Eu aponto, insisto. Tento falar. Tento falar.

Meus braços…Não! Meus braços estão ficando pesados. Minhas pernas rígidas. Estou perdendo o controle do meu corpo. Sinto fome. Minhas mãos tentam se fechar sobre minha menina. Não!  NÃO!

Um deles chega até mim. Eu a coloco nos braços do homem. Ela grita “papai, papai”. Eu tenho falar. E nada. Não sai voz. Meu Deus, não consigo nem me despedir da minha filhinha! Eu toco seus cabelos. As pessoas recuam. Atrás de mim, eles estão vindo! Um dos vivos tem um galão de gasolina, eu o pego junto com um isqueiro. Tento sorrir para minha filha. Estou cada vez mais duro, as pernas mal obedecem. Só mais um pouco. Deus, só mais um pouco!

Eu cubro meu corpo com a gasolina, pego o que resta do galão e corro para eles. Para aquela massa podre que não deveria estar ali. Algo tenta me impedir, mas é tarde. Me jogo sobre eles e acendo o isqueiro.

Fogo! Explosão! Eu não sinto, mas as chamas consomem meu corpo, levando eles comigo.

Eu consigo ver minha filha escapando com os outros, entre os sobreviventes. Eu tento acenar, mas os ventos levam o que sobrou de mim nas cinzas.