Considerações sobre Cenário

Brandon Sanderson, autor de Fantasia e Ficção Científica, estrutura as narrativas em três áreas: cenário; enredo; personagens.
Autores clássicos de narratologia, como Todorov e Genette, bem como alguns contemporâneos de escrita criativa, como James McSill e Robert McGee, falam apenas em personagem e enredo. Mas, para os fãs da literatura fantástica, ficção científica, terror e fantasia, o “cenário” tem realmente importância. JRR Tolkien em seu ensaio “sobre contos de fadas” fale sobre a importância da consistência de realidade do mundo secundário criado. Esse é um aspecto para o qual os autores ou co-autores de narrativas fantásticas, seja em literatura, filmes, séries ou jogos, devem atentar.
Alguns autores são mais “hard” como Tolkien que criava tabelas para calcular o tempo de deslocamento das personagens na trama e estabelecer as datas dos eventos de acordo, enquanto outros são “soft” como Joss Whedon quando disse que “in Firefly ships move at the speed of drama”.
Vejamos um cenário de fantasia medieval: qual é o efeito que a magia causa sobre a sociedade? Tudo depende do que a magia é capaz de fazer e com que frequência ela pode ser usada. Se a magia é misteriosa, imprevisível e poucos podem usá-la, então os efeitos poderão ser mínimos. Agora, se ela é estudada em “Academias de Magia” ou “Universidades de Feitiçaria” ou “Guildas de Magos”, aí se deve assumir que ela é uma técnica que é usada para resolver problemas, realizar coisas e é mais confiável. Novamente, o que ela pode fazer? Ela tem limitações do tipo “não posso ressuscitar os mortos ou fazer as pessoas se apaixonarem”? Tem custos, seja em saúde ou poder mágico, ou em gerar desgraças para quem a usa? Por exemplo, se existem tantos feiticeiros quantos médicos ou professores universitários e cada um deles pode gerar comida para uma pessoa estalando o dedo várias vezes ao dia, acabou a fome no mundo. Toda logística de guerra muda. Falando em guerra, o que a magia pode fazer? Se os mesmos feiticeiros já citados podem criar bolas de fogo com o poder destrutivo de mísseis, então não teremos mais castelos como não os temos mais hoje em dia. Cavaleiros em armaduras também se tornam irrelevantes. Talvez esses feiticeiros promovam uma Revolução Industrial? E o que impediria esses mesmos feiticeiros e feiticeiras de tomarem o poder formando uma aristocracia de magos? São aspectos a se refletir.
Por exemplo, enquanto estou escrevendo a novela “O Cerco” no cenário de Terra Nova (fantasia medievo-brasileira) eu precisei considerar qual efeito que a existência de magia teria sobre um cerco a um castelo. Felizmente muitos aspectos já estavam definidos porque Terra Nova começou, e continua, como um cenário de RPG, mas outros tiveram que ser considerados. Nesse cenário a magia é estudada e relativamente confiável, mas o acesso ao conhecimento é restrito, logo não temos muitos feiticeiros andando por aí. O poder destrutivo que cada um pode gerar alcança o nível de um trabuco (trebuchet, uma catapulta que opera por contrapeso). Portanto, da mesma forma que as catapultas e trabucos não acabaram com os castelos, os feiticeiros também não o fizeram. Mas, há outros feitiços a considerar que podem alavancar táticas que já eram usados nos cercos medievais. Espionagem para saber o que o inimigo está tramando (feitiços de clarividência, viagem astral, empatia), criar doenças entre os inimigos (vitalidade), ajudar a sorte (sincronicidade), dentre outras opções. Por outro lado, sempre houve uma corrida militar entre ataque (armas pessoais, armas de sítio) e defesa (armaduras, fortificações). Logo, se há ataques mágicos, também existem defesas mágicas. Principalmente num cenário em que também há magia sacerdotal.
Guardadas suas especificidades, o mesmo vale para cenários de Ficção Científica. Por exemplo, num cenário interestelar se as naves viajam por um hiper-espaço e surgem diante da órbita planetária, não faz sentido criar linhas de defesa no meio do sistema solar para evitar uma invasão. Outra questão: se há manipulação genética alguém resistira à tentação de deter o processo de envelhecimento? Quais seriam as consequências de uma população que não envelhece?
Claro que não é possível cobrir tudo, leitores e jogadores encontrarão inconsistências, mas vale a pena ao menos considerar esses aspectos para se criar um cenário mais crível, consistente e imersivo. Além disso, falando por experiência própria como escritor e mestre de RPG, muitas ideias interessantes surgem de questionamentos do tipo: “que efeito teria sobre a sociedade um feitiço que permitisse prever o futuro? Reforçaria a noção de destino ou a quebraria de vez?”