Encruzilhada

Encruzilhada, duas estradas, uma árvore velha e sem frutos marca o lugar de descanso onde se pode pensar sobre para qual lado ir.

A vila mais próxima não fica perto, mas dá para ouvir o sino da Igreja. Ainda falta um tanto para a meia noite, daquela que é uma noite sem lua. João do Cruzeiro se senta atrás da moita para esperar, mas sem cruzar as pernas para poder levantar rápido. Ele corta um pedaço de pão, outro de toucinho, e mastiga devagar. A mente volta para dez anos atrás.

O cirurgião barbeiro estava na cabeceira da cama examinando a menina fazia mais de meia hora. João havia gasto o que tinha e o que não tinha para trazer o homem da cidade para ver sua filha. Era sua última esperança. Curandeiro, benzedeira, padre, todos lhe tinham falhado. A menina vinha piorando com febre atrás de febre, tosse atrás de tosse, por mais de um mês. Com sua esposa enterrada no quintal e sua única filha na cama, João penhorava todos os seus dias felizes por vir por um final feliz para aquela noite.

João coloca o saco de moedas no chão, nele tem o suficiente para comprar uma parelha de bois. Depois, ele separa a pólvora, as balas devidamente benzidas, e começa a carregar seu trabuco. Enquanto a noite avança, João masca fumo e continua a se lembrar.

O cirurgião barbeiro foi embora sem dar boa notícia, mas sem deixar de cobrar a visita. Os olhos de João estão secos de tanto chorar. A menina respira com dificuldade. Ela abre os olhos e vê João:
– Papai?
– Estou aqui, minha filha.
João acaricia a testa quente da filha.
– Papai, eu vou ficar boa, não vou? – A menina pergunta sorrindo confiante em seus sete anos que se o pai está ali tudo vai dar certo.
João não sabia que ainda tinha lágrimas para chorar.

Um homem branco de cabelos e barba castanhos vem caminhando pela estrada. João se abaixa atrás da moita. O homem chega até a encruzilhada e se põe a esperar. Depois, ele acende uma vela no chão e começa a balbuciar todo tipo de bobagens desnecessárias para o que ele pretende. O homem parece ter pouco mais de vinte anos, nem rico e nem pobre, nem alto e nem baixo, nem gordo e nem magro. João se pergunta o que ele quer: dinheiro? Terras? Título de nobreza? Curar alguém que ele ama? Encontrar uma pessoa perdida?

João se lembra daquilo que mais quis na vida, a razão pela qual faria qualquer coisa.

A respiração da menina é um fiapo. Há uma hora que ela não abre os olhos. O sino da igreja dá meia-noite. João está imóvel, insensível pelo desespero. Foi nessa hora que ele veio. João nem precisava abrir os olhos para saber que tinha alguém ali, mas abriu assim mesmo. Nas sombras, um homem de pele branca, cabelos loiros e olhos verdes, o fitava, usando roupas finas. Ele sorriu e se aproximou da menina.
– Ela está mal mesmo. – disse o homem loiro com uma voz doce.
João se levantou de um pulo para junto da filha:
– Tire as mãos dela!
O homem recuou com um sorriso:
– Calma. Isso são modos de tratar quem quer ajudar?
João ficou em silêncio.
– Você sabe quem eu sou? – perguntou o homem loiro.
João, em silêncio, assentiu com a cabeça.
– Eu posso curá-la.
João olhou para a filha, depois olhou para o homem:
– Você pode mesmo curá-la?
– Certamente, mas isso tem um preço e você sabe qual é.

Deu meia-noite. O homem de cabelos castanhos já estava rouco de tanto falar quando ele apareceu. Foi então que ele veio. Desta vez como um homem grande e forte de cabelos negros, barba cerrada e pele bem morena. O cão tinha muitas formas, mas João conseguiria reconhecer o chifrudo em qualquer uma delas. O homem de cabelos castanhos se aproximou do capeta e começou a negociar. João apurou os ouvidos:
– Ela tem que ser minha!!! Minha! Eu a amo e sei que ela será feliz comigo. Só eu posso fazê-la feliz, entende? Eu sei que no fundo ela me ama também! – dizia o homem de cabelos castanhos nervoso, suando e de olhos arregalados.
– Claro, eu posso fazer isso, mas minha ajuda tem um preço!
– Eu pago o preço que for!
Antes que o caramunhão respondesse, João saltou de trás da moita e matou o homem castanho com um só golpe de facão. Ele caiu morto sem entender o que tinha acontecido.
– Cedo ou tarde esse doido ia acabar matando a coitada que estava perseguindo – resmungou João.

João acariciou a testa da filha, olhando-a com ternura.
– Então, temos um acordo? – perguntou o homem loiro.
– Eu confio em Deus – respondeu João
– Deus –ironizou o coisa ruim – onde está Deus agora? Que ajuda Ele deu pra você?
– A promessa de Deus é a do Paraíso depois dessa vida – respondeu João beijando a filha na testa – se você existe então essa promessa existe também. Não vou negar o Paraíso para minha filha.
João se virou então para o capeta com ódio nos olhos:
– Mas, você…você faz promessas nesse mundo e não salvou minha filha porque não quis! Por isso, eu juro que vou dedicar minha vida a desfazer sua obra na terra!

Frustrado, sem a alma que queria levar, o senhor das trevas olhou com raiva para João, mas, antes que ele abrisse a boca, João disparou o trabuco fazendo-o sumir numa explosão de enxofre.
– Promessa é dívida. – sussurrou João do Cruzeiro.