Entre a Cruz e a Espada

– Perdoe-me, padre, porque vou pecar.
Padre Fernão piscou os olhos sem entender direito. Depois tossiu e perguntou:
– Você quer dizer “perdoe-me, padre, porque pequei”, não é meu filho?
– Não padre, isso eu disse na minha confissão da semana passada. É do que eu ainda vou fazer que eu estou falando.
Padre Fernão ficou em silêncio enquanto fitava as paredes de madeira do confessionário. “Quando cheguei nessa terra depois da expulsão dos flandrinos tudo era novidade. Depois de vinte anos nos Brasis pensei que nada mais me espantaria…”
– Está tudo bem, padre Fernão?
A pergunta foi feita num tom gentil, quase amistoso, mas Padre Fernão sentiu um calafrio lhe correr pela espinha. Suor desceu-lhe pela testa. O que era aquilo? Por algum motivo, lembrou-se de hoje cedo viu um ratinho seguir desconfiado pela Igreja, atento ao gato. Por que ele lembrara daquilo? A voz. Fernão não conhecia a voz do homem. A igreja estava em silêncio, vazia àquela hora da noite. Por que a voz o assustava. Por quê? E se ele não reconhecia a voz, como aquele homem sabia seu nome?
– A minha dúvida, meu filho, é por que você precisa pecar? Se ainda não pecou, por que vai pecar?
– Eu tenho uma dívida com uma pessoa que salvou minha vida, padre. E João do Cruzeiro sempre paga suas dívidas.
– E que pecado é esse?
– Há coisa de uns dez anos, numa vila longe daqui, tinha uma família que tinha fazenda na roça e casa na cidade. Um dos escravos era de ganho, ganhava uns trocados consertando sapatos para o povo. O pai economizou o que pôde para comprar a liberdade da família. Ele confiou no padre com o qual se confessava para comprar a alforria com o dinheiro suado que ele ganhou. O safado do padre sumiu pelo mundo levando o dinheiro e a coitada da família de escravos foi separada quando a fazenda quebrou. Pai, mãe, irmãos e irmãs vendidos para diferentes fazendas. Então…
Padre Fernão correu para fora do confessionário, atravessou a igreja bufando e saiu pela porta principal com João Cruzeiro no seu encalço. O padre foi alcançado na escadaria do lado de fora, de frente para a Praça da Matriz.
– Calma, aí seu padre. Não envergonha ainda mais a batina!
Padre Fernão se virou e cuspiu em João:
– Me solta seu sem-vergonha! Você acha que estou sozinho?
Dois homens apareceram, um de cada lado da igreja, cada um com um facão na mão e morte nos olhos.
– Vejo que o senhor é precavido, padre Fernão. Não era para menos já que aprontou muitas por aí. Tem muita vila por aí com raparigas que o odeiam. Não é a toa que o senhor não passa duas quaresmas na mesma paróquia.
João do Cruzeiro soltou padre Fernão que alisou a batina. Então João puxou o facão com a mão direita e sorriu:
– Só que eu também sou precavido.
Das sombras surgiu uma mulher negra usando um gibão de algodão e couro, e com um facão em cada mão. O ódio no olhar da mulher era tão forte que padre Fernão caiu sentado no pátio na frente da Igreja.
– Essa é Maria das Dores, não pelas dores que sente, mas pelas que causa.
Os dois matadores de Fernão ficaram na dúvida sobre o que fazer, e depois confusos quando João do Cruzeiro recuou e ficou encostado na parede junto da porta da Igreja. Maria das Dores avançou sobre eles com um salto atacando com os facões. Ver Maria das Dores lutar era assistir um espetáculo da mortalidade do maculelê em ação. Em menos de um minuto, os dois matadores estavam mortos. Padre Fernão chorou, pediu piedade, ameaçou Maria das Dores e João do Cruzeiro de excomunhão.
-Logo, logo o senhor vai estar com Deus, padre. Daí se ele o perdoar o senhor fala de nós, mas eu acho que o senhor vai é pro outro lugar. – sorriu João.
Maria das Dores enviou padre Fernão para os mistérios do Além com um golpe.
– A sua dívida comigo está paga, João.
– Dívidas é coisa de mercador e bandido, Maria. Eu sou seu amigo.
Maria começou a sorrir, mas um tropel a interrompeu. Alguma besta de carga vinha pela rua de terra na direção da Igreja. Logo, eles avistaram uma labareda que antecedia uma mula preta de sete palmos de altura. Uma mula cuja cabeça João e Maria não conseguiam ver.
– Padre safado – murmurou Maria das Dores segurando os facões.
– Deixa essa comigo, Maria – falou João puxando da sela do cavalo um facão virgem benzido com cera de vela no altar de Nossa Senhora – esse é meu trabalho.