Escolhas

O bebê chora com fome. A mãe o pega nos braços, cantarola, senta-se à cadeira e o coloca no peito para mamar. O bebê acalma. A guerreira acaricia a cabecinha em seu colo e murmura:
– Você não é toda minha vida.

Meses depois. Um meninote de um ano corre aos tropeções com a alegria das crianças pela tenda. Mexe com almofadas, rola em tapetes, morde o cavalinho de madeira. A guerreira acompanha tudo, enquanto afia sua espada, atenta a qualquer risco. O menino sorri para ela, a mãe sorri de volta, deixa a espada de lado e pega o filho nos braços. Os dois riem um pro outro até que um conhecido aroma a faz perceber que é hora de trocar a fralda do menino.
A mulher, guerreira e mãe, troca habilmente a fralda do filho. Mãos calejadas pela guerra movem-se com destreza marcial e amor maternal.
O processo está quase terminado quando um homem de estatura mediana, cabelos, barba e olhos castanhos, envergando uma cara túnica azul escura, entra na tenda. A guerreira reconhece Dom Eudônio Severo. Ela termina de prender a nova fralda:
– Meu Senhor Conde de Estival tem um timing perfeito. José está limpinho agora.
Dom Severo pega a criança no colo, sorri para ela e recebe um sorriso de volta:
– Então já escolheu um nome?
– José Corneteiro.
– O que?!
– Tivesse sido menina, seria Maria Batalhão. São nomes tradicionais pra quem…
– Eu sei.
Dom Eudônio brinca um pouco com o José, depois dá um biscoito para o menino mastigar. A mãe sorri. Ela se serve de uma caneca de vinho e entrega a garrafa para Eudônio:
– Tire as botas. Você está sujando o tapete de lama.
Obediente, Eudônio logo tira as botas se desculpando. Em seguida, senta no catre, bebe um gole, sorri para o menino, enquanto a guerreira pensa “Se ele continuar doce assim vai me dar uma cárie”. Eudônio faz um gesto para ela, a guerreira se aproxima e ele segura a mão dela:
– Está tudo bem por aqui?
– Não mudou nada desde quando você esteve aqui dois dias atrás. A tenda é confortável, estamos longe do fedor das latrinas, seu pessoal tem trazido comida e meus colegas da companhia de mercenários do “Patinho Feio” vem me visitar.
Eudônio sorri.
– Mas, nós estaríamos melhores se estivéssemos na sua tenda que é ainda mais larga e segura, e com comidas e bebidas melhores.
Eudônio fecha a cara:
– Você sabe o porquê disso não ser possível.
A guerreira bufa de frustração:
– Você acha que tem alguém nesse acampamento que não sabe que você é o pai do menino, Eudônio?! Todo mundo sabe. Eles até duvidam que eu seja a mãe, desconfiam que é a curandeira que tratou dos seus ferimentos ano passado e que eu fui contratada como guarda-costas do bebê. Mas, que você é o pai ninguém duvida!
Eudônio riu e tomou um gole de vinho. Quando ergueu os olhos viu que não tinha sido piada. Subitamente ficou consciente de que ela tinha quase sua altura, era grande e forte. Apesar dos longos cabelos negros e pele morena, poucos diriam que a guerreira era bonita, mas tinha um carisma, uma petulância que o atraía…
– Eudônio! Está com a cabeça na lua?
O conde se levantou e a abraçou:
– Não, só penso em você!
-Ah, me poupe!
Os dois riram, se beijaram e depois que o bebê adormeceu eles…

No dia seguinte, a mãe acorda com os choramingos do filho. Faz massagem na barriguinha, prepara uma papinha enquanto dá um chutinho na perna do pai:
– Eudônio, vai pedir um café pra gente!
Dom Eudônio Severo, Conde de Estival, se levanta, sai da tenta e ordena que tragam o café da manhã para eles. Minutos depois, estão desfrutando de frutas, ovos mexidos, pão, manteiga, bolo de fubá, café, leite um suco de laranja. A mãe sorri:
– Quando você está aqui o café da manhã é bem melhor.
José se lambuza com a papinha e depois com um pão com ovo. Enquanto o menino está entretido tentando se decidir entre o bolo de fubá e o cavalinho de brinquedo, a guerreira aponta para o jogo de caxangá, jogo de tabuleiro estratégico de Terra Nova, e sorri para Eudônio:
– uma partidinha antes de você ir embora?
Eudônio ajeita as peças no tabuleiro. Ele prefere iniciar a partida:
– Você sabe que não posso pegar o menino nos braços diante de pessoas da nobreza.
– Senão você o estará reconhecendo como filho, ainda que bastardo. Sei…
– Essas coisas precisam ser pensadas com calma, com…
– Estratégia…

Muitos meses antes. A guerreira ajeita o gibão de batalha de lã e olha em dúvida para a cota de malha. Será que ele consegue vestir aquilo sozinha? Ainda não está muito pesada.
– O que você pensa que está havendo?
Eudônio a observa aturdido, se chifres de touro tivesse brotado na cabeça dela ele não estaria mais espantado. A guerreira sentiu o sangue ferver, irritação queimando a garganta:
– O que parece que estou fazendo? Estou me vestindo para a batalha. É meu trabalho!
A guerreira segurou a cota de malha com as mãos, avaliando seu peso. Eudônio a observou por alguns instantes, então caminhou até a mesa e ajeito as peças do jogo de caxangá e ficou esperando-a. Ela bufou, mas largou a cota de malha no baú e foi jogar. Ele preferia começar, para ela a preferência mudava de acordo com o adversário. Ainda assim, ela vinha aprendendo muito com aquele comandante experiente. Peças seguiram em movimentos táticos pelo tabuleiro. Eudônio moveu a peça representando “guarda de elite”:
– Guerreiros são fundamentais para uma batalha: arqueiros, cavaleiros, infantes, todos tem seu papel. Mas, quem faz a diferença decisiva são os comandantes.
A guerreira moveu a peça representando o General:
– Então você está dizendo que eu devo ficar ao seu lado e do Egberto, no comando.
– Dom Egberto, o Duque da Cidade do Canal.
– Que seja, mas é lá que eu devo ficar?
– Se você insiste em ir para a batalha, sim, é lá que deve ficar. A menos que a batalha chegue até nós. Se isso acontecer você terá que recuar para a retaguarda.
A guerreira tomou uma das peças de guarda de elite de Eudônio com seu General com tanta força que a peça voou longe:
– Vai se ferrar, Eudônio! Eu sou guerreira! É minha profissão, é o que eu gosto!
Eudônio suspirou:
– Se você entrar em combate não estará arriscando somente a sua vida.
A guerreira ficou em silêncio. A mãe sentiu o feto se mexer no útero. Eudônio moveu seu General no tabuleiro:
– Xeque-mate.

A mãe coloca o meninote nos braços da babá e sorri para ele:
– Agora você vai ficar com a Velena porque a mamãe tem que ir trabalhar.
José esticou os bracinhos para a mãe, os olhos rasos de lágrimas. A mãe o beijou. A babá o beijou e falou em tom carinhoso:
– Nós vamos nos divertir muito Zezinho.
A mãe sorriu e afagou o filho. A guerreira sussurrou no ouvido da babá:
– Se algo acontecer com meu filho eu arranco suas tripas!

Dom Eudônio Severo observa atentamente o mapa colocado à mesa na tenda de comando. Dom Egberto de Cavala, Duque da Cidade do Canal resmunga:
– Diabos me levem se eu encontro um jeito de tomar esse maldito castelo.
– Não blasfeme, meu Senhor Duque.
A voz de Dona Helena, sacerdotisa de Sarina, a Matriarca, chega suave e gélida aos ouvidos dos presentes na sala. Dom Egberto esvazia sua caneca de cerveja de um gole só:
– Pelos peidos de Bóreas! Temos que dar um jeito de invadir logo ou o cerco falhará e tudo irá para casa do caralho!
O rosto de Dona Helena fica vermelho como um tomate, seu olho esquerdo começa a tremer, Dom Eudônio não sabe se ri ou teme que ela tenha um ataque apoplético. Na dúvida fica quieto. A voz dela sai trêmula:
– Vossa Mercê…Vossa Mercê deveria evitar desagradar às divindades.
Dom Egberto gargalha. Dom Eudônio sorri por dentro.
– Brotei!

Eudônio se vira surpreso ao reconhecer a voz da guerreira. Egberto gargalha ainda mais e a abraça com vigor, esquecido de qualquer protocolo:
– Minha mercenária favorita! Quem sabe você não tem uma ideia para tomar esse maldito castelo e mandar aquele bastardo pro inferno!
A guerreira sorri se lembrando do dia em que conheceu Egberto.

Dois anos atrás. Dia de chuva. O acampamento das tropas mobilizadas para o cerco do castelo era uma confusão de lama, bosta, gente molhada, fedor de lama, bosta e gente molhada sem banho. Logo começariam as pipocar doenças de todo tipo com tosses, vômitos, diarréias e pústulas, ferindo guerreiros e prostitutas, atarantando curandeiros e afugentando mercadores.
Em meio a essa balbúrdia em que de alguma forma as coisas ainda funcionavam, a guerreira andava decidida em direção à tenda de comando. Estava quase chegando lá quando parou diante da tenda azul – pelo menos até onde a lama não havia alcançado – da sacerdotisa de Sarina. Mas, não fora a beleza do tecido da tenda que parara a guerreira. Ela tinha esperado ver tendas finas nas tendas dos nobres. O que ela não esperara era o lindo vaso de flores do campo do lado de fora da tenda da sacerdotisa. O vaso era de pedra lindamente entalhada com a representação de uma hera florida que o contornava. As flores estavam num arranjo de muito bom gosto, desafiantes em sua beleza e esperança colorida naquele oceano cinza de lama e nuvens carregadas.
A guerreira estava com pressa, estava com fome, estava molhada, mas estava fascinada. Ela ficou minutos na chuva apreciando o arranjo de vaso e flores. Depois voltou a caminhar até a tenda de comando, já que esta não viria até ela. Diante da entrada da tenda estava um guarda grande e mal encarado de sentinela:
– O que você faz aqui?!
– Dom Egberto de Cavala mandou me chamar. Eu sou…
– Ah, claro! E eu sou a princesa de Valência!
A guerreira se curvou numa mesura:
– Vossa Alteza…
O guarda fechou a cara:
– Saia daqui antes que eu te arrebente!
A guerreira pôs as mãos na cintura e ergueu o queixo:
– Tente!
O guarda rosnou. A guerreira sorriu feroz. Uma voz veio de dentro da tenda:
– O que está acontecendo aí fora?
O guarda se virou para responder, a guerreira aproveitou para entrar correndo. Ela deu de cara com um surpreso Dom Eudônio, Ao lado dele, um homem gordo e barbudo vestido num gibão de batalha caiu na gargalhada:
– Quem é a atrevida, Eudônio?
O guarda parou na entrada, sem saber o que fazer. A guerreira cruzou os braços. Eudônio engoliu em seco, depois firmou a voz:
– Esta é a guerreira da qual lhe falei, Vossa Mercê. Ela é membro da Companhia de Mercenários “Patinho Feio”, creio que se chama…
– A guerreira que arrumou uma confusão ontem de noite e enfiou a porrada em dois marmanjos?! Era essa mesma que eu queria conhecer! Vem cá mulher, quero ver se a sua cabeça é tão boa quanto os seus punhos.
Dom Egberto mostrou o mapa para a guerreira e pediu a opinião dela sobre o que estavam pensando para a próxima batalha. Ainda pouco experiente, mas astuta e atrevida, ela fez ótimas observações e boas recomendações. Até Dom Eudônio ficou impressionado. Dom Egberto riu:
– Quero essa mulher nos nossos conselhos militares a partir de agora.
Dona Helena, sacerdotisa de Sarina, deixou a sala indignada com aquela quebra de protocolo.
 

Dom Eudônio e a guerreira observam os preparativos para a batalha no dia seguinte. As máquinas de guerra, catapultas, balestras foram colocadas em posição. Havia uma animação das tropas com o fim do interminável cerco finalmente chegando à batalha. Até Eudônio, o Severo, parecia estar animado. A guerreira observou as muralhas do castelo com a luneta:
– Onde vão ser colocadas as trebucheiras?
– Trebucheiras?
– As catapultas grandes que operam por contrapeso para jogar pedras maiores e mais longe. Acho que você chama de “trabucos”
– Ah, vão ficar ali.
– O que dizem os feiticeiros?
– Ah, sabe como é. Eles vem com aquela conversa que os contra-feitiços do inimigo os impedem de adivinhar seus planos. Eles enviam doenças pra eles, bloqueiam as que eles mandam pra cá. Evocam espíritos, exorcizam espíritos. Para completar, sacerdotes e sacerdotisas dizem que os deuses não tomarão partido na batalha, logo restou para nós guerreiros resolver a questão.
A guerreira deu de ombros. Baixou a luneta. Tomou um gole de água e perguntou:
– Como vai o túnel de solapamento para derrubar as muralhas?
– Segundo os mineiros chegamos à muralha, amanhã devem queimar as pilastras de madeira que sustentam o túnel para solapar tudo.
– Então amanhã partimos pra dentro do castelo – sorriu a guerreira
Eudônio suspirou. Ela o olhou desconfiada: Eudônio mordia o lábio inferior, sinal de que temia uma discussão. A guerreira sentiu a tensão subindo. Tinham que brigar na véspera da batalha? Ele tossiu. Então:
– Eu já te falei da minha ideia para nós? Depois que essa guerra terminar, você e José podem vir comigo. Há uma casa de pedra de bom tamanho disponível nas terras de Estival. Você e ele podem ir morar lá, há uma vila perto que pode suprir vocês com comida, tecidos. Colocarei uma serva à sua disposição. Poderemos nos ver frequentemente. No começo talvez só uma vez por mês, mas depois…
A raiva cresceu num nó tão forte que ela mal conseguia respirar. Cravou as unhas nas palmas das mãos. A voz saiu num rosnado:
– Você quer que eu fique como sua amante numa casinha de pedra para você nos visitar sempre que for conveniente? É isso?!
Eudônio suspirou:
– Eu não estou falando para você deixar sua carreira de guerreira de lado…
– Ainda bem!
– Mas, um menino precisa de sua mãe. Pelo menos até o José fazer nove anos. Então podemos mandá-lo, como reza a tradição, para ser educado como escudeiro por uma família nobre…
– Você quer que eu abra mão do meu trabalho por nove anos?!
– Querida, há o seu trabalho e há o nosso filho, logo…
– Se você me disser que a grande realização da vida de uma mulher é criar um filho, eu arrebento a sua cara!
Eudônio suspirou. A guerreira trancou os dentes com tanta força que sentiu gosto de sangue na boca. Ela respirou fundo para manter a calma:
– Depois da batalha conversamos sobre isso!
Eudônio parecia muito infeliz, mas resoluto. Ele falou com uma voz tão calma que dava raiva:
– Eu vou estar na linha de frente, no comando tático, logo você precisa estar atrás, junto ao comando, longe da batalha.
– Como é? Eu não estou grávida e o José tem babá! Eu sou guerreira Eudônio, é o que eu nasci pra fazer! Nem pensar! Eu vou para linha de frente!
– Não é justo o José correr o risco de perder a mãe e o pai ao mesmo tempo. E uma criança pequena precisa muito mais da mãe do que do pai!
A guerreira girou os calcanhares e foi embora deixando Eudônio falando sozinho, antes que a raiva a cegasse e ela desse na cara dele. Caminhou com a cara tão fechada que ninguém se atreveu a falar com ela. Entrou bufando na tenda, jogando a espada no chão. A babá, Valena, se encolheu num canto, mas José veio correndo sorrindo de braços abertos:
– Mamãe!
A guerreira o viu, a mãe o pegou no colo. Sorriu, brincou, logo estavam rindo. Horas depois, José dormia no berço. A mãe afagou a cabecinha dele. Ela se sentou exausta no banco, tomou um gole de vinho e ficou olhando as chamas do braseiro dentro da tenda. A vontade que ela tinha era de pegar arma e armadura e sumir dali, deixando o menino para Eudônio criar como pudesse. A guerreira sorriu.  O menino fez um barulhinho no berço. A mãe sorriu, depois sentiu uma dor no peito, uma tristeza na alma. A mente da mulher voltou para oito anos atrás.

A menina só tem um ano de vida e não entende o que está acontecendo. Criança de colo, ela se agarra chorando ao peito da monja que tenta acalmá-la. Chora. A criança estica a mãozinha para a mulher que se afasta:
– Mãe!
A mãe não olha para trás. Sabe que sua filha estará segura no mosteiro. Criada pelas monjas, a criança terá uma vida melhor do que a que ela poderia lhe oferecer. Mulher, guerreira, segue em frente tentando não ouvir os gritos, o choro da criança.

Eu gostaria de escrever que ela nunca esqueceu, que todas as noites ela se lembrava do rostinho da filha. Mas, não foi assim. Muitas vezes é fácil esquecer. Entre batalhas e tabernas, dor e vinho, sexo e morte, a vida continua. Mas, às vezes, especialmente agora, a memória volta e a mãe olha para o novo bebê,  sua segunda criança, e suspira.

Dom Eudônio observa as muralhas do castelo. Ele está tenso. As catapultas por si só não conseguirão derrubá-las. Por que a muralha ainda não desabou com o solapamento? Terão os mineiros falhado?
Então acontece. Um trecho da muralha cai. Estrondo. Dom Eudônio dá o brado de guerra. As tropas avançam com o louco do Dom Egberto as liderando. Sem saída, Dom Eudônio deixa o comando e vai apoiar o amigo. Se ele morrer como ficará a Cidade do Canal sem seu duque?

O que começou com Dom Egberto confusamente liderando uma carga de infantaria pela brecha na muralha logo vira uma confusão total. Dom Eudônio tentou liderar uma carga de infantaria, mas teve que parar quando viu que seus cavaleiros iriam atropelar sua infantaria que estava embolada com os soldados inimigos logo depois da brecha. Ele seguiu atacando com a espada, comandando o cavalo sobre as tropas inimigas pelo pátio do castelo. Sangue e poeira se misturavam numa cacofonia de gritos. Olhos ardendo com poeira e suor. Gosto de sangue na boca. O braço cansado, atacando e defendendo com a espada. Dom Eudônio procura a figura larga de armadura dourada que seria Dom Egberto. Uma pancada forte na cabeça o faz cair do cavalo. Ele cai torno, cabeça e ombro atingem o chão e o resto do corpo cai atrás como um saco de batatas. O ombro explode de dor. Tudo gira. Cabeça dói. Vontade de vomitar. Dom Eudônio se levanta confuso. Não consegue respirar. Tira o elmo ficando somente com a coifa de cota de malha na cabeça. “O que me atingiu?” Ele olha em volta. “Foi uma flecha?” Eudônio sente o movimento e se vira. Um homem enorme usando um gibão de batalha avança atacando com um martelo de guerra. Dom Eudônio esquiva saltando de lado. O golpe do inimigo é tão forte que ele jura que o chão tremeu e o piso rachou. Eudônio sua. “Não quero morrer!” Ele ataca com um golpe circular, tentando cortar os braços nus do inimigo. Este recua, depois avança atingindo Eudônio no peito com o cabo do martelo de guerra. Eudônio fica sem ar. Não consegue respirar. Os braços estão pesados. Outra estocada com o cabo do martelo o atinge no rosto. Ele cai tonto. “Não posso morrer! Preciso voltar para minha mulher e minha filha!” O inimigo ergue o martelo de guerra num rosnado. Eudônio não consegue se mexer “Minha mulher! Minha filha!” Um soldado vem correndo e se joga contra o peito do inimigo. A trombada mais o peso do martelo de guerra fazem o homem enorme cair ao chão. O soldado aproveita para cravar sua espada no pescoço dele. O inimigo morre golfando o sangue. Quando o soldado estende a mão para ajudar Eudônio a levantar, o Conde de Estival o reconhece: não é ele, é ela; não é um soldado, é a guerreira.
Dom Eudônio rosna furioso:
– O que você está fazendo aqui?! Devia estar com nosso…
– Vai se fuder, Eudônio!
A guerreira e o conde avançam lutando lado a lado, matando inimigos, salvando a vida um do outro algumas vezes. Finalmente, ouvem brados de alegria e vêem a bandeira de Dom Egberto tremulando no alto do castelo. A batalha está vencida. Entre mortos e feridos, aquela pequena guerra está terminada. Quem vive, chora ou comemora.

Horas depois, na tenda principal, nobres que lutaram, e que não lutaram, estão comemorando a vitória e contando seus feitos. As gargalhadas de Dom Egberto podem ser ouvidas de longe. Ele mata uma caneca de cerveja de um gole só e abraço o amigo:
– Grande vitória, Dônio! Arrasamos!
Dom Eudônio mal consegue respirar naquele abraço de urso, mas sorri de volta:
– Foi, Beto. Estou feliz de essa guerra infernal ter terminado.
-Ah, você deve estar louco pra voltar para sua esposa e…é uma filha não é?
– Sim, uma menina. Anelisa. Quando eu parti Cecília estava grávida. Já faz dois anos.
– Ah, Ceci! Grande mulher. Beleza clássica e linhagem impecável.
Egberto abraça Eudônio e sussurra em tom conspiratório:
– Como você vai fazer pra explicar pra Ceci esse filhote que você teve com a curandeira? Vai levá-lo pra casa junto com a mãe e a guarda-costas?
– Se eu fizer isso, a Ceci me mata. Nesses dois anos meu tio morreu sem herdeiros e eu fiquei com o castelo de Primaveril. Vou alojar o menino num casarão perto da divisa com Outonal.
Dom Egberto ri e toma mais uma caneca de cerveja:
– Todo mundo faz besteira, até você Dônio que gosta das coisas todas planejadinhas!
Aproveitando uma pausa, Dom Eudônio sussurra ao pé do ouvido do amigo:
– Beto, os nobres e mestres de guilda que apoiaram a revolta de Dom Renato estão presos aguardando julgamento…
– Julgamento? São todos traidores e serão executados amanhã!
– Talvez seja melhor mostrar misericórdia para…
– Não!
A voz de Dom Egberto sai tão alta que todos olham para ele. Dom Eudônio fica mortificado, mas o Duque da Cidade não se importa e vocifera como um javali:
– Misericórdia! De jeito nenhum! Eu te ouvi da outra vez, Dônio! Dois anos atrás, na primeira revolta daquele bastardo do Renato. Poupei quase todo mundo. Fui bonzinho! E o que eu ganhei com isso?! Dois anos depois os traidores se aliam novamente ao Renato numa nova revolta! Dessa vez vou passar todo mundo na espada!
Primeiro silêncio, todo mundo na tenda olhando para os dois. Então aplausos. Dom Egberto gargalha. Dom Eudônio dá um sorriso amarelo. Risos. Então silêncio. Egberto ri:
– Minha guerreira favorita! Seja bem vinda!
Dom Eudônio se vira e vê que a guerreira entrou na tenda. Ela está segurando algo. Será? Ela coloca o menino no chão. José olha em volta um pouco assustado. Reconhece Eudônio, sorri e corre de braços abertos. Eudônio fica congelado.
– Papai!
O menino abraça as pernas de Eudônio. Silêncio. Egberto observa a cena com um sorriso divertido. Dona Helena está mortificada. A guerreira está impassível. A mãe esperançosa. Eudônio olha para o menino que sorri para ele. O mais sensato a fazer seria ralhar com o menino. Afastar aquela criança com os braços. Gentilmente, mas firmemente. Ele olha sério para a criança e abaixa a mão. O sorriso do menino vai murchando. Primeiro confuso, depois com olhos cheios de água. Voz fraca “papai?” Eudônio sente o coração apertado. Mas, ele tem que pensar na esposa, tem que pensar na filha. Ele afasta levemente o menino com a mão:
– Eu não sou…
Lágrimas descem no rosto de José. Egberto baixa os olhos. Olhar duro da guerreira. Eudônio olha para a criança. Ele pega José nos braços. O menino sorri. Eudônio o beija. Egberto gargalha. A mãe se retira.

Duas horas depois, a guerreira está guardando sua arma e armadura quando Dom Eudônio entra em sua tenda:
– Você está maluca?! Tem ideia do que fez?!
Eudônio está furioso como uma tormenta, a guerreira está inflexível como uma montanha. Ele ergue a voz antes que Eudônio pense em erguer a mão:
– Ele é seu filho, não é? Você me prometeu que sempre cuidaria dele.
– Prometi, mas…
– Mas, o quê?
O menino está dando cabeçadas de sono no colo de Eudônio. O pai coloca a criança na caminha dela e se vira para a mãe:
– Você foi irresponsável. Agora que eu reconheci o José como meu filho, o que minha esposa vai pensar? Você só pensou…
– No nosso filho!
Eudônio fica em silêncio. A guerreira o encara firme:
– Você realmente vai me culpar porque eu procurei fazer o que achava melhor para o nosso filho?
Eudônio bufa. Ele caminha até um baú, serve duas canecas de vinho. Toma uma e entrega a outra para a guerreira:
– Não. Você tem razão. Felizmente eu já tenho tudo planejado. Meu tio faleceu ano passado e agora eu sou Conde de Estival e também de Primaveril. Vocês poderão ficar num casarão em Primaveril, lá ninguém me conhece. Vou cuidar de tudo. Você e José ficarão muito bem instalados.
A guerreira morde os lábios. Toma sua caneca de vinho. Agarra Eudônio pelos cabelos e o beija. Os dois se abraçam e vão para a cama. Beijos e mordidas, carícias e arranhões. Muitos minutos de paixão seguidos por poucas horas de sono.

Horas depois, Eudônio está dormindo e a mãe está andando pela tenda com o pequeno José no colo tentando fazê-lo dormir. Ela canta, canta e canta. Finalmente, o menino dorme. A mãe o coloca na cama e o cobre com carinho. A guerreira olha para sua espada e armadura. A mãe olha para o menino. A mulher chora.

De manhã, Eudônio acorda com o choro de José. O menino o agarra:
– Mamãe?!
Eudônio se levanta de um salto. Onde está a mãe? Ele vê um pote na mesa coberto com um pano. É papinha. Ele serve a comidinha para José e sai procurando. “Será que ela saiu para esvaziar o penico?” Eudônio vê o tabuleiro de caxangá sobre a mesa. Debaixo da peça do regente branco há um bilhete: “Deixo nosso filho em suas mãos. Amo vocês.”
Eudônio olha em volta e não vê sinal da arma e armadura da guerreira. Ele sai da tenda. O guarda de sentinela disse que ela saiu antes do nascer do sol. Não sabe para onde ela foi. Sul? Leste? Oeste? Eudônio volta para a tenda. O menino olha para ele e sorri “papai” e ele o abraça. José pergunta choros:
– Mamãe?

Já léguas dali, montada numa mula, a guerreira segue sem olhar para trás. Ela sabe que dali a companhia de mercenários do Patinho Feio irá para o sul, então não deverá ser difícil encontrá-los. Ela aprendeu muito e espera que em alguns anos possa ter a sua própria companhia de mercenários, ou então quem sabe liderar a própria companhia do Patinho Feio?
A guerreira planeja seu futuro, a mãe chora pelo seu presente, a mulher fez sua escolha.