Isegoria – não desconsiderar a fala dos outros.

Esta coluna dialoga com a minha anterior “Arte não é uma democracia? Depende da proposta“. A democracia demanda respeito a alguns princípios como a isonomia, igualdade de todos diante da lei, a isocracia (igualdade entre os cidadãos de acesso ao poder), a isegoria (igualdade do direito de manifestação na assembleia), dentre outros. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Isegoria)
Quero aqui me ater à isegoria. Atualmente podemos dizer que a isegoria exige que não desqualifiquemos a priori a fala do outro, o que me leva a refletir entre as muitas vezes conturbadas relações entre fãs e os responsáveis por uma obra narrativa. Exemplifico. Entre a 1a e a 2a temporada da série “Stranger Things” muitos fãs reclamaram do tratamento dado à morte da personagem “Barb”. Aparentemente roteiristas reclamaram dizendo que era uma reclamação injusta dos fãs, mas acabaram cedendo (pressão dos showrunners?) e tentaram remendar a situação, ainda que de forma um tanto mal executada (https://mashable.com/2017/11/01/stranger-things-season-2-review-bad-worse-season-1/)
O filme “Star Wars episode 8: Last Jedi” e a série “Star Trek: Discovery” sofreram esse backlash de fãs tradicionais de forma intensa, talvez porque sejam obras narrativas mais antigas com gerações de fãs. A reação inicial foi de desqualificar os fãs que reclamavam chamando-os de “racistas” “misóginos”, “machistas”, “radicais”, dentre outros termos. A estratégia não funcionou e a produção das obras foi atingida financeiramente. Os produtos de merchandizing de “Star Wars episode 8” e “Star Trek Discovery” venderam mal, ou nem foram produzidos, e o filme “Solo” falhou. Isso levou a revisões em Star Trek Discovery cuja 2a temporada foi mais bem recebida pelos fãs; (https://www.digitalspy.com/tv/ustv/a25946664/star-trek-discovery-klingons-season-2-fan-criticism/)
Meu ponto é que não se deve obedecer cegamente aos fãs. De fato, Dave Gaider, roteirista da série de videogames “Dragon Age” coloca que muitos fãs podem ser conservadores e quererem sempre a mesma coisa. Mas, para se tomar uma posição é preciso ouvi-los.
Da mesma forma desqualificar quem discorda de você sem primeiro ouvir a pessoa é assumir que você jamais poderia estar errado/a. Não me parece uma postura democrática ou até mesmo sensata.
Em um processo criativo de uma obra narrativa esse respeito a isegoria deve ser mantido em relação a seus leitores Beta, os primeiros a ler seu trabalho. Eu sigo os mandamentos do escritor Brandon Sanderson em relação aos leitores Beta, que ele chama de “reading group” que é o de aceitar o feedback deles sobre o ritmo da narrativa (lenta, rápida, tediosa, acelerada demais, no ponto), sobre quão envolventes são as personagens (gostei de X ou Y, detestei Z), sobre quão interessante é a trama etc. Pode ser que eu faça modificações ou prefira manter minha posição. Pode até ser que eu conclua em relação a um/a leitor/a beta algo como “meu texto não é pra você”, mas, jamais desrespeitarei a fala.