O príncipe audaz ou a princesa adormecida

Frio. Muito frio. Noite de inverno. Daquelas em que a garganta e as pontas dos dedos ficam doendo. Um vento gelado de cortar os ossos corria pela planície. A paisagem? Árvores sem folhas, galhos desnudos esticados para o céu em desespero. Colina cinza que se estivesse coberta de neve ao menos seria bonita. Pelo menos é o que eu penso. Apenas um cavaleiro ousava desbravar aquela terra erma. Mas, não era um cavaleiro qualquer. Era um príncipe!
Sua Alteza ao contrário de mim achava que aquela paisagem combinava com os habitantes locais: uma terra feia para uma gente feia que nem o demo.
Observei que a vida ali era dura. Os camponeses criam cabras e galinhas, plantam trigo e cevada, colhem frutas. Poucas alegrias e muitas durezas.
O príncipe respondeu que certamente não era culpa deles serem assim, mas que assim o eram. Pessoas que não tem tempo para ver as flores ou ouvir poesia. Será que sonham, perguntou.
Respondi que sim, mas sonhos pequenos e curtos como suas vidas. O príncipe sorriu e disse que sempre se perguntou por que os camponeses normalmente vivem menos que os nobres. Em minha opinião o motivo era a rudeza de suas vidas em contraste com a riqueza dos nobres. Sua Alteza retrucou que cães de caça têm vidas duras e nem por isso vivem menos que os ociosos cãezinhos das damas. Ele dava crédito aos sábios que dizem que a resposta está na estirpe, na linhagem, nobres vivem mais pela pureza de seu sangue. Sendo que a sua família era ainda mais longeva do que a maioria da nobreza. Apenas dei de ombros, não cabe a um menestrel questionar seu patrono.
Continuamos em passo cadenciado, o príncipe em seu corcel, eu em minha mula. Ele me regalou com relatos de suas aventuras, recomendando que eu atentasse bem, pois seria meu dever relatá-las com os devidos embelezamentos nas trovas que comporia.
Houve a ocasião em que o príncipe chegou a uma aldeia que vivia atemorizada por conta de um ogro faminto. Sua Alteza seguiu o rastro da fera, localizou sua gruta e subiu numa colina próxima para tocaiá-la. Quando o bruto saiu para caçar ele o flechou. A besta era tão bruta que ficou atarantada sem saber de onde vinha o ataque! Assim, o príncipe conseguiu cravar três flechas nele antes que o ogro o percebesse. Então o fidalgo terminou o serviço com um golpe certeiro de espada. Inteligência venceu força, disse-me ele com um sorriso. Quando o príncipe voltou com a cabeça do ogro os aldeões festejaram e o recompensaram como puderam com comes e bebes, e moedas de prata. Quiseram os tristes fados que ele não pudesse ter a rapariga que desejava para aquecê-lo à noite. A vida põe e dispõe, disse resignado.
Em outra ocasião, o príncipe teve a glória de matar um dragão. Não era um dos maiores que já se viu, mas era maior que seu cavalo de guerra! O monstro tinha um hálito venenoso que contaminava o riacho do qual a aldeia dependia para seu sustento. Iam sacrificar uma moça ao monstro. Graças aos bons fados o heroico príncipe chegou a tempo de impedir a tragédia! Daquela feita matou o dragão dando carga com seu cavalo. A fera abriu a boca para cuspir sua peçonha e ali mesmo ele enfiou sua lança! Salvou a moça e ficou com o tesouro.
A última aventura do príncipe não era tão memorável, por isso talvez eu tenha que mudar a ordem em que ela aparece na trova a ser composta sobre seus feitos. Ele bateu-se com um gigante deformado de uns dois metros e meio de altura com braços longos demais e cabeça em forma de ovo. Que seja! O resultado final é que o príncipe podia contar três monstros mortos desde que começara a se aventurar como cavaleiro errante. Nada mal para o mais novo de quatro filhos sem qualquer chance de herdar o principado paterno. Ele sorriu para mim:
– Já sou conhecido por um menestrel, logo estarão cantando trovas em meu nome.
Foi então que o cavalo e a mula pararam ao mesmo tempo. Teríamos chegado? O príncipe perguntou se eu ouvia algo, mas não havia som algum além do vento. Ele observou que havia floresta dos dois lados da estrada, ótimo para emboscadas e pousou a mão no cabo da espada. Como nada se passou, seguimos em frente, ainda que com cautela. A lua surgiu no céu, cheia, grandiosa, clareando tudo. Foi quando a vimos. Em meio a uma clareira, exatamente como o viajante na taberna havia descrito: um esquife de cristal com uma princesa adormecida dentro! “Calma, pode haver traição aqui, emboscada”, disse-me o príncipe para em seguida circular a clareira com seu cavalo. O compasso do vento marcava então momentos muito tensos. Finalmente satisfeito, o príncipe apeou do cavalo e se aproximou do esquife. Um grupo de anões (seis? Sete?) nos observava da floresta. O príncipe os encarou com firmeza e como eles não se mexeram, se aproximou do caixão de cristal e eu o segui.
Lá estava ela, a princesa parecia dormir. As histórias então eram ao menos em parte verdadeiras. A princesa tinha pele branca como a neve, cabelos negros como o ébano, lábios vermelhos como o sangue. Se bem que chamá-la de “a mais bela de todas” parecia um exagero. Não se pode acreditar em tudo que se ouve. Um anão se aproximou do príncipe:
– Meu senhor…
– O tratamento correto é “Vossa Alteza”, anão.
– Sim, perdão. Vossa Alteza, eis a princesa prometida. Guardamo-la por longo tempo à espera do príncipe que irá quebrar a maldição. Seria demais ter a esperança de sermos recompensados por nossos esforços?
O príncipe suspirou:
– Fazer o bem é sua própria recompensa, mas vá lá, anão. Eis o que posso lhe pagar.
O príncipe jogou um saquinho com moedas de prata para os anões e quando os viu olhando para seu cavalo e os alforjes que levava, puxou sua espada. Os anões fugiram correndo, o príncipe teve que rir. Então ele abriu o caixão, levantando a tampa de cristal. Cristal? Parecia mais vidro. Quem conta um conto…
A princesa estava imóvel, nem parecia respirar. Era como se estivesse morta. O príncipe apreciou aquela imagem serena uma última vez antes de despertá-la: pele branca como a neve, cabelos negros como o ébano, lábios vermelhos como o sangue.
O príncipe beijou a princesa nos lábios. Ela inspirou subitamente, como se despertasse de um sono profundo. Abriu os olhos e agora o príncipe podia ver que também eram negros. Ele a beijou novamente e ela correspondeu ao beijo. Abraçaram-se na noite. A princesa beijou-o no pescoço e o príncipe pareceu sentir uma breve vertigem. Eu o vi sorrir como se ondas de prazer estivessem a percorrer-lhe o corpo conforme ele se deitou com a princesa no caixão. Ela o beijava sem parar no rosto e no pescoço, ele adormeceu. Eu fiquei em silêncio.
Silêncio.
A lua continuou a caminhar pelo céu. Lobos uivaram na noite. Anões retornaram à clareira.
– Está terminado?
A vampira limpou o sangue dos lábios e sorriu tocando no corpo exangue do príncipe:
– Incrível como eles sempre caem nessa.
Ela saiu do caixão, examinou o cavalo, examinou os alforjes e as armas:
– Vocês podem ficar com esse saco de moedas de ouro. Eu fico com o cavalo, as roupas, a espada e essa jóia.
Os anões concordaram sem discutir. Foi quando ela se virou para mim. Eu sussurrei:
– Sou um humilde menestrel. Essa é uma história para ser contada uma noite, minha senhora?
A vampira assentiu com a cabeça.
– Mas, qual título eu devo dar à história? O príncipe ou a princesa adormecida?
– Você decide.