O Sobrevivente

O que aconteceu? Eu não me lembro. Onde estou? Estou andando aos tropeços pela rua. Nossa, não me sentia assim desde que a juventude quando eu enchia a cara de cerveja e saía andando a esmo por aí como um zumbi. Não sei como não morri fazendo essas besteiras. Mas, já sai dessa tem anos. Será que eu bebi demais de novo? Lembro que estava na festa na casa da Patrícia, bebi um pouco demais e resolvi dar uma volta para o porre passar e eu poder pegar o carro. E aí…O que houve? Cara, eu devo estar muito mal, estou com dor de cabeça, uma fome louca e não sinto as minhas pernas.

O que houve? Eu não consigo lembrar! Eu estava andando na rua e aí…alguém me…acho que alguém me agarrou. Eu me lembro da dor, muita dor. Perdi a consciência. Por quanto tempo? Minha família deve estar preocupada e…

Nossa, eu não paro de andar. Vou sentar e…não consigo! Eu quero parar! Eu quero parar!

O que está acontecendo? Por que eu não consigo parar? Não consigo controlar meu corpo. Minhas pernas se movem sem que eu queira. Não consigo parar! Não consigo mover minha cabeça. E essa fome que não passa?! O que é isso?

O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!

Eu quero gritar e não grito. Eu quero parar e ando. Não sei por quanto tempo estou andando. Acho que desmaiei e acordei algumas vezes sem que meu corpo parasse. Por que não consigo parar? Por que não consigo parar?

POR QUE NÃO CONSIGO PARAR?!

Acordei de novo. Meu corpo não parou de andar. Está escuro, deve estar de noite. Tem outras pessoas andando ao meu lado, mas não consigo vê-las. Eu continuo com fome. Uma dor que parece me comer por dentro. Por quanto tempo vou andar, meu Deus?

Amanheceu, a cidade está deserta. Ninguém nas ruas. Não, duas pessoas no ponto de ônibus. Elas nos vêem, talvez possam me ajudar. Chamar um médico. Tento acenar, mas não consigo. Nossa! Como estou com fome! Eu preciso comer!

Estou perto, eu e os outros estamos perto delas. Um passa à minha frente, ele agarra a pessoa pelo ombro e… Ele… Não! Ele a morde! A outra corre, os outros avançam, eu também. Por que? A pessoa pára encurralada diante de um prédio. Eu avanço na direção dela. O prédio é de uma loja, eu vejo meu reflexo na vitrine.

MEU DEUS!

Meu rosto! Eu mal reconheço meu rosto! Cabelo desgrenhado, olhos fundos, gengiva recolhida, os dentes estão escuros. Minha pele parece meio, meu Deus, meio podre. Tem um líquido escuro descendo pela minha face, que líquido é esse? Sangue coagulado? Como não sinto nada?

Eu agarro a pessoa e…O que eu estou fazendo?

O QUE EU ESTOU FAZENDO? NÃO! NÃO!!!

Eu acordo. A fome passou. Estou andando novamente. Eu me viro, algo me vira, vejo os outros que me acompanham. São pessoas meio mortas, como eu. Andando aos tropeções, pingando pelo chão, caindo pele, nojento! O que aconteceu?

Estamos andando por horas, horas, é noite agora. Estamos indo para um bar. Tem pessoas ali. Eu estou com fome. Alguns casais. Tem sete pessoas numa mesa, quatro caras e uma mulher e uma criança de uns dois anos. A mulher está rindo, gargalhando, enchendo a cara e fumando na cara da criança. É filho dela?

Eu estou com fome, dói por dentro.

A mulher põe refrigerante na mamadeira da criança, pelo menos parece, é um líquido escuro e borbulhante. O menino deve ter uns dois anos, dois anos! Ele bebe o troço e fica olhando quieto para a mãe que fuma e ri, enquanto se entope de cerveja.

FOME!

Nós avançamos. Eles nos vêem, gritam! Eu agarro um dos caras. Outro de nós pega a mulher que grita. Alguém agarra o menino e corre para longe de nós. O cara me soca no rosto, não adianta. FOME! Eu avanço para ele e…

MEU DEUS!

Meu Deus…

Tudo é rápido. Acaba num turbilhão. Nós voltamos a andar. Um dos homens do bar está andando conosco agora. Deve estar com fome…

Andamos o resto da noite, está amanhecendo. Onde estou? Acho que já passei por aqui, mas de carro, nunca a pé. Uma dessas praças junto da estrada que quem tem carro passa sem ver. Tem pessoas dormindo num canto, encolhidas.

Eu estou com fome. Meu Deus, já estou com fome de novo! Será que tudo o que eu vou sentir agora é fome? Mais nada? Só fome?

Eu os vejo, são crianças, adolescentes, pessoas de rua. Todos dormindo. Espere, todos não. Três estão acordados. Um homem, uma mulher, uma menininha. A mulher está…o que é aquilo? Ela está cheirando cola? O homem tem um…cachimbo na boca? Acho que é droga. A menina mexe na lata, ela vai…meu Deus…ela vai cheirar aquilo? E a mãe só fica olhando?

FOME!

Nós avançamos para eles. Eu tento gritar, eu tento avisar, mas não consigo. Não consigo controlar minhas pernas, meus braços, não consigo nem falar. Será que aqueles sem teto não conseguem nos ver? Devemos ser uns doze agora. Como que eles não conseguem nos ver? Ficam cheirando, fumando, alheios ao mundo à volta. Como robôs. Robôs que só se mexem para se drogar e para roubar para poder comprar droga para poder se drogar mais. O menino cai para trás, tonto. Cai com a cabecinha no chão. Meu Deus, alguém tire essa criança daqui. Eu não quero ver isso! EU NÃO QUERO VER ISSO! Eu agarro um homem que está dormindo. E…Chega, meu Deus, CHEGA! EU QUERO PARAR! EU QUERO PARAR!

FOME!

Eu desmaiei. Não sei o que aconteceu. Não sei o que o meu corpo fez. Não sei quantas horas dormi, quanto tempo andei. Mas, agora é dia, perto da hora do almoço. Estou com fome de novo, uma fome que dói por dentro. Os outros também devem estar sentindo. Estou andando rápido. Por quê? Onde estou? O lugar me parece familiar.

É o meu bairro! Estamos andando para uma escola, eu conheço esse lugar. Meu Deus, não. É a escola em que minha filha estuda. Não! Eu quero me controlar, eu preciso me controlar!

O porteiro grita e cai diante dos outros. Eles, meu Deus, eles começam a comer. Comer!

É de manhã, a escola está cheia, as crianças correm. Alguns de nós tentamos pegá-las! Não! Corram, pelo amor de Deus, corram! Fujam daqui! Eu tento pegar uma criança…eu preciso parar, parar! Ela é mais rápida que eu, graças a Deus. Entramos nos corredores, nós entramos nos corredores. Nós, não! Eu não sou um deles, não sou! As crianças correm apavoradas, entramos em uma sala, muitas fogem, outras são pegas! Meu Deus!

Um professor arranca a criança dos braços deles. Ele salva uma, duas, três. Joga cadeiras em nós. Ele tenta fugir, mas nós o agarramos. Não, nós não! Eles! O professor some. As crianças fugiram. Acho que todas. Tem que ser todas! Tem que ser!

Eu e alguns saltamos pela janela e vamos para o pátio. Muitas crianças estão cercadas. Elas só tem cinco, seis anos, as mais velhas devem ter uns sete. Uma professora entra na frente. E eu…Por que não posso parar? O que é isso na minha boca? O que é isso na minha boca?!

Não! Minha filha está ali! Ela me vê. Ela me reconhece. Corre para mim de braços abertos. Não filhinha, não venha para o papai! Não venha! Não minha filha! Não! NÃO!

NÃO!

 

 

 

 

 

 

NÃO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               Não…
Final 1

O que houve?

Eu estou andando. Novamente andando.

O que houve?

Onde estão as crianças?

O QUE HOUVE?!

Outras pessoas surgem, correm, nós vamos atrás delas.

Onde está minha filha?

Nós encurralamos algumas.

ONDE ESTÁ MINHA FILHA?!

A matança recomeça. Eu não consigo parar. Meu Deus, eu não consigo parar.

É quando eu a vejo. Ali está ela. Minha filhinha. A pele cinza, os cabelos sujos emplastrados de sangue. O vestidinho rasgado.

Meu Deus, o que eu fiz? O QUE EU FIZ?!

Ela devora alguém. Eu também. Depois, continuamos a andar. Ela, ela parece que se vira para mim, que me olha. Filhinha, por favor, perdoe o papai. Me perdoe.

Continuamos andando, ela está ao meu lado. Se eu estou aqui, ela também deve estar viva dentro daquele corpo podre. Incapaz de se controlar, mas viva. Alguém vai nos ajudar. Meu Deus, que alguém nos encontre e nos cure, nos livre disso. Há pessoas boas no mundo, alguém vai encontrar a cura. Eu tenho que ter fé.

Como eu gostaria de alisar os cabelos dela, colocar minha filha no colo e lhe dizer que tudo vai terminar bem. Me perdoe, minha filha.

Por enquanto, só posso ter fé sabendo que de alguma forma você está entre os sobreviventes.

 

 

Final 2

Eu estou andando. Andando rápido.

O que houve? Onde está minha filha?

Alguém nos meus braços. Meu Deus, é ela. É o cabelo dela. Eu não quero olhar.

O QUE EU FIZ?

Ela se vira, apavorada, olha para mim.

ELA ESTÁ VIVA!!!!

Eu a seguro com braço esquerdo e uso uma cadeira para abrir caminho entre eles. Alguns tentam tomar minha filha dos meus braços. Eu ataco. Enfio a perna da cadeira na cabeça de um. Chuto outro para longe. Ela grita! Eu corro.

EU CONSIGO CORRER!

Eles ficam para trás.

Saio da escola para a rua. Posso ouvi-los vindo atrás de mim.

Algumas pessoas vem correndo em nossa direção, trazendo tochas, um maçarico, armas. Eles param surpresos ao me verem com minha filha nos braços. Eu a ponho no chão e aponto para eles. Ela não quer me deixar. Eu aponto, insisto. Tento falar. Tento falar.

Meus braços…Não! Meus braços estão ficando pesados. Minhas pernas rígidas. Estou perdendo o controle do meu corpo. Sinto fome. Minhas mãos tentam se fechar sobre minha menina. Não!  NÃO!

Um deles chega até mim. Eu a coloco nos braços do homem. Ela grita “papai, papai”. Eu tenho falar. E nada. Não sai voz. Meu Deus, não consigo nem me despedir da minha filhinha! Eu toco seus cabelos. As pessoas recuam. Atrás de mim, eles estão vindo! Um dos vivos tem um galão de gasolina, eu o pego junto com um isqueiro. Tento sorrir para minha filha. Estou cada vez mais duro, as pernas mal obedecem. Só mais um pouco. Deus, só mais um pouco!

Eu cubro meu corpo com a gasolina, pego o que resta do galão e corro para eles. Para aquela massa podre que não deveria estar ali. Algo tenta me impedir, mas é tarde. Me jogo sobre eles e acendo o isqueiro.

Fogo! Explosão! Eu não sinto, mas as chamas consomem meu corpo, levando eles comigo.

Eu consigo ver minha filha escapando com os outros, entre os sobreviventes. Eu tento acenar, mas os ventos levam o que sobrou de mim nas cinzas.