Tristeza não tem fim…

Terra Nova
Ano 2000 da Era da Servidão.

A cidade de Ingá era pequena, porém decente. Seu povo era trabalhador, batalhando contra a terra árida, pestes, animais perigosos ou nocivos e as indesejadas visitas de bandoleiros. A água do rio tinha que ser bem usada na irrigação, no consumo e nos banhos. Não havia fartura, mas com cuidado vivia-se bem. Apesar dos pesares, era um povo danado para gostar de festas. Logo, foi com grande animação que viram a chegada do Menestrel.
Ele não era alto, não era forte, nem era tão bonito quanto os boatos faziam crer, se bem que nenhuma das mulheres, e mesmo alguns dos homens, viu-lhe qualquer defeito. Mas, que simpatia. Seus olhos acariciavam, suas mãos beijavam e sua voz embalava. A música vinha em ondas suaves que refrescavam aquele povo ressecado. Logo vieram os pedidos:
“- Toca para alegrar meu irmão que está doente!”
“- Toca para animar minha mãe que está velhinha e não pode mais dançar!”

E o Menestrel tocava carinhosamente, enquanto as pessoas traziam os idosos e doentes para a praça. Logo, trouxeram comida e água para o homem, que ninguém é de ferro. O Menestrel agradeceu, comeu bem e guardou o resto no seu farnel. Foi quando uma moça se animou e pediu:
“- Está tudo muito bem, a canção foi linda. Mas, música também é para se dançar. Toca aí pra gente balançar o esqueleto!”

O Menestrel sorriu, limpou os lábios com as costas da mão e logo engatou uma música das mais animadas no seu alaúde. As pessoas riam e dançavam, enquanto ele tocava músicas ora no alaúde, ora na flauta, ora nos tamboretes. E foi assim a noite toda.
No dia seguinte, novos pedidos e novas canções. O Menestrel só se recusou quando o prefeito da cidade pediu-lhe que tocasse uma canção mágica para afastar os ratos que empestavam a cidade:
“- Isso não. Lamento, mas fiz uma vez e me deram calote!”

Logo depois, o Menestrel foi procurado por duas pessoas com pedidos difíceis. Primeiro, um rapaz:
“- Ouvi dizer que sua música é mágica, que traz a pessoa amada de volta em três dias! Por favor, me ajude! Helena terminou o namoro comigo e sem ela não tenho luz!”

Uma mulher, desesperada, aos prantos, aproximou-se do Menestrel:
“- Menestrel, por favor, me ajude com sua arte! Meu bebê, meu filho Vítor, morreu de doença. A dor está que me destroça, o coração está vazio e os olhos cheios. Já não tenho forças para viver.”

Soluna olhou-os compadecido, conhecia bem o que era o sofrimento. Quem não conhece a dor, não compõe música, verso ou imagem. Ele sorriu para eles e disse:
“- Há algo que posso fazer por vocês. Mas, para que o encanto se cumpra, precisam me ajudar. Há itens que só vocês podem obter”. Virou-se então para o rapaz e disse:
“- Corra essa cidade e as vizinhas perguntando e me traga os nomes de duas pessoas, de sua idade ou mais velhas, que nunca tenham sofrido uma desilusão amorosa.”

O Menestrel olhou a mãe nos olhos com ternura e disse:
“- Você também deve correr as casas desta cidade e das vizinhanças, mas me traga um grão de feijão de uma casa em que nenhum dos moradores tenham perdido um parente ou amigo”.

Os dois partiram cheios de esperança, cada um pro seu lado.
Uma semana depois, voltaram. Nem o rapaz tinha conseguido os nomes, nem a mulher o grão de feijão.
O Menestrel viu fundo nos olhos dos dois e convidou-os a se sentar. Eles lhe contaram seu périplo e que agora se conformavam. Era a vida. Ele sorriu:
“- Vocês estão certos e errados ao mesmo tempo. Dor e Morte são as promessas que a Vida sempre cumpre. É assim. Mas, a Vida também é o que fazemos dela, da vida só se leva a vida que se leva. Por isso que a Alegria é tão mais meritória que a Tristeza, porque é um direito nosso pelo qual lutamos diariamente. Ser feliz na vida é algo que se conquista!”

Ele dedilhou o alaúde, preparando uma canção:
“- História triste e adulta, traz sabedoria e consolo. História de final feliz, história alegre, traz outra sabedoria e dá força para erguer a enxada.”

O Menestrel tocou com notas que beijavam as faces dos ouvintes e depois voavam com o vento. O rapaz deixou a tristeza ir embora e sonhou acordado novamente. A mulher sentiu o frio vazio se encher com um calor gostoso e imaginou outra criança em seu colo. Os dois ouviam a música e mal percebiam que suas mãos se tocavam, enquanto outras pessoas se sentavam em volta do casal.