Narrativa Multifocal Victória – Urraca 4

O dia seguinte amanhece ensolarado e alegre com pássaros cantando e pessoas animadas na feira. Urraca entra no castelo para trabalhar com o coração leve. Não dura muito. Dom Aldraus, escansão mor, logo a chama:
– Leve estas duas jarras de vinho para El Conde e convidados no Grande Salão.
– Mas, esta não seria uma função para escansões mais experientes?
– Seria se Pablo não tivesse arrumado briga na taverna ontem à noite e Julio não tivesse ficado doente de repente. Sobrou para você!
Evitando pensar na coincidência que vitimou dois escansões experientes ao mesmo tempo, ela parte para o Grande Salão. Chegando lá vê que sentados à mesa estão Dom Landaus, o Sacerdote Maior do Ar, Dom Avaristo, e um nobre com cabelos e barba grisalhos. De pé, ao lado do nobre grisalho, está Dom Salvador. Dom Maraus e Tiana estão usando roupas de treinamento: coletes de tecido acolchoado e espadas de madeira. Pelo visto vão se enfrentar em um duelo de esgrima enquanto são avaliados por aquela nobre plateia. Urraca sobe rapidamente com o vinho, ao mesmo tempo em que Dom Salvador se despede do nobre grisalho com uma mesura e deixa a sala. Ela deixa a bandeja com o vinho e se retira. Dom Salvador a estava esperando:
– Sua mãe é realmente adorável! Ela ficou muito feliz com os presentes.
– Muito agradecido, Vossa Graça.
– Não por isso. Você agora tem outra chance de servil à El Rey.
Dom Salvador entrega uma chave em suas mãos:
– Vá até o escritório de Dom Landaus, veja os documentos que estão sobre a mesa, memorize seu conteúdo ou anote e traga para mim o que descobrir.
Diante daquilo Urraca não consegue mais se conter:
– Vossa Graça me pede demasiado, não vou espionar o Senhor Conde!
– A sua lealdade é para com El Rey, não para com o Conde Landaus! Lembre-se, tu podes ser apenas uma dama, mas és goiol!
Urraca engole em seco diante daquela assertiva. Essa pode ser a grande chance de recuperar a honra da família e fazer sua mãe feliz. Por outro lado, espionar El Conde? Um homem respeitado por todos em Victória e que tem governado bem. Não parece ser honrado e nem correto.
– E então? – pergunta Dom Salvador – Você vai fazer o que eu pedi?
– Não! Vou denunciá-lo ao Senhor Conde!
“A minha honra não está à venda!”, pensa Urraca enquanto se afasta de Dom Salvador que parece mal estar contendo a fúria dele. Sem perder tempo, começa a voltar para o Grande Salão planejando o que contará ao Conde. De repente, sente uma fisgada no pescoço. Sua mão toca no local e você sente que um dardo entrou em sua pele. De onde veio? Tontura…suas pernas falham…tudo fica escuro…
Escuro…
Urraca ouve o choro de sua mãe, os soluços de seu irmão. Sente aroma de velas. “Estou viva”. Tenta se mexer, mas não consegue. “Estou morta?”
– Chegou a hora. Vamos enterrá-la.
Urraca não reconhece a voz. Vão enterrá-la viva?! Ela faz um esforço brutal, mas suas pálpebras parecem de chumbo, seu corpo de pedra. As lágrimas não vem. Nada.
– Como ela morreu?
Essa voz? Ela conhece essa voz.
– Meu senhor, Dom Maraus.
Seu irmão está conversando com Dom Maraus. Ele tem que se lembrar da carta! Alguém abre sua boca. As suas pálpebras são levantadas. Você vê um borrão que parece ser Dom Maraus. Ele fala:
-Chamem o curandeiro Mestre Sabino. Esta mulher ainda está viva! Ela foi envenenada com a “Morte Roxa”. Sabino conhece o antídoto.
Silêncio.
– Façam o que eu estou mandando!
Passos. Silêncio. Vozes. Silêncio. Vozes. Alguém abre seus lábios. Você bebe algo. Silêncio. Aos poucos, você sente algo e abre os olhos. Sorri. Sua mãe e seu irmão choram. As lágrimas vêm.
Uma semana depois você retoma seu trabalho no palácio com a gratidão do conde e quem sabe a amizade de Dom Maraus?