Imagem é poder

As manas da ONG fizeram um jogo com as cartas Ases, Damas, Reis e Valetes do baralho e associaram a cada uma um atributo e uma tendência da carta similar do Tarô. Quando joguei, saiu pra mim a Dama de Paus, daí elas me pediram um post no blog sobre esse perfil.

Daí, como sou artista marcial e tenho uma imagem pública, resolvi falar sobre “essa questão que há muito tempo me incomoda”.

Cenário medieval, mulheres sedutoras e monstros num RPG para computador.

Esse foi o título de um artigo apresentando o CRPG Baldur’s Gate II publicado no caderno Informática Etc. do Jornal O Globo de 2 de julho de 2001. Bom, né? No editorial da revista Dragon de setembro de 2000, Peter Whitley, diretor de arte, mencionou os “clichês” que assombram o RPG e que progressivamente deveriam ser deixados de lado nas publicações da Wizards of the Coast, empresa que editava o RPG Dungeons and Dragons. Entre eles, as “Warrior vixens clad in chainmail bikinis” (“Guerreiras agressivas em biquínis de cota de malha”).

Warrior: guerreiro/a
Vixen: segundo o dicionário Websters, “Vixen: fem. of fox; 1. a female fox; 2. a shrewish ill-tempered woman” (fem. de raposa. 1. Raposa fêmea. 2. Mulher de temperamento agressivo e intratável).
Chainmail: cota de malha; segundo o dicionário Aurélio, “Cota: […] S.f. 1. Armadura de couros retorcidos ou de malhas de ferro, que cobria o corpo. […]”.
Bikini: segundo o dicionário Aurélio, “Biquíni: […] s.m. 1. maiô [q.v.] de duas peças de dimensões bastante reduzidas. 2. Calcinha que parte dos quadris.”
Este termo pode ser uma referência irônica à personagem Red Sonja (Sonia Ruiva ou Sonia Vermelha), coadjuvante na série de quadrinhos “Conan, the Barbarian” (“Conan, o Bárbaro”), de Robert E. Howard, criada na década de 1930 nos Estados Unidos e retomada pela Marvel Comics na década de 1980. Esta guerreira vestia um “duas-peças” de cota de malha e era extremamente mal-humorada e agressiva.

A historiadora Valerie Steele, no livro Fetiche: moda, sexo e poder (1997) faz um ensaio crítico sobre o dito fetichismo na moda, em que determinados vestuários associam, numa espécie de ritual, sexo e dominação. A autora descreve os elementos deste tipo de vestuário sempre fazendo referência à dominação, seja pela punição, seja pela disciplina, seja pelo jogo de esconder-revelar. Steele cita como vestuário fetichista as roupas íntimas (calcinhas e sutiãs), catsuits (colantes inteiriços), espartilhos e bondage (amarrações), meias sete-oitavos, sapatos e botas de salto alto, e a segunda pele, materias aderentes como couro e borracha ou transparentes como seda e cetim, além da própria tatuagem e piercing.

Tirei essa referência do baú da dissertação de mestrado da minha avó, sobre representação visual de gênero em RPGs de mesa, defendida em 2002. Larga de preguiça e clica nesse link aí pra ver o que ela concluiu: http://www.historias.interativas.nom.br/lilith/dissert/

Antes ainda, em 2000, Sonia Bibe Luyten publicou, no livro Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses (São Paulo: Editora Hedra), entre muitas coisas legais, num capítulo sobre representação visual que uma das características mais típicas do mangá está no tamanho dos olhos das personagens: os olhos grandes e arrendondados permitiriam um exagero da expressão dos sentimentos, sobretudo das figuras femininas.

As convenções gráficas são regras de composição e iconografia fundamentais na diferenciação dos mangás voltados para diferentes públicos: feminino (Shoujo: temas românticos, traços suaves e alongados), masculino (Shonen: ação, esportes, violência e forte presença sexual, com traços firmes), infantil (Kodomo: apoio ao currículo escolar), adulto (Adaruto: pornografia para homens; Yaoi: pornografia gay para mulheres[:)]; Roricom: pedofilia [SIC!!]).
Luyten destaca que, curiosamente, os Shoujo (mangás femininos), apesar dos conteúdos por vezes moralistas e tradicionais, costumam desafiar mais estas regras formais e propor mais experimentações gráficas.

Além disto, a autora chama atenção para as transformações que os mangás vêm passando ultimamente, sobretudo devido à influência da estética ocidental, como a “siliconização” das heroínas e atitudes femininas mais “agressivas” e sexualizadas.

Coisas do passado. Não, péra… já se passaram mais de dez anos e a mana do Feminst Frequency (http://feministfrequency.com/) continua reclamando disso e sendo ameaçada por reclamar! Véi, esse povo não aprende, não????
Mana, se liga no Zizek:

Um dos lugares-comuns do feminismo desconstrutivista diz respeito à ligação entre olhar e poder: aquele que ‘olha’, aquele cujo ponto de vista organiza e domina o campo de visão é também aquele que detém o poder […]. Deste modo, as relações de poder no cinema são determinadas pelo fato do olhar masculino controlar o campo de visão, enquanto que o status da mulher é de privilegiado objeto deste olhar. (ZIZEK, Slavoj. The Metastases of Enjoyment. NY & London: Verso, 1994, p. 73. Tradução da minha avó).

O que pode estar por trás de uma “simples” representação visual (? Para Roland Barthes, todo signo arrasta em si um monstro: o estereótipo. Segundo Chimamanda Adichie, “O perigo de uma única história”:

Perigo, em última instância, de violência. Quer ver alguns embates?

ROSA X AZUL:

Traduzindo: a mão que segura a câmera é a mão que controla o mundo. Mana, imagem é poder. Se tiver que ficar do outro lado do olho digital, não seja passiva, seja dona da sua imagem.


Waïra Ioshi
Imagem por Eliane Bettocchi (IAD-UFJF, 2014)